5 de fevereiro de 2018

El sexo ya no es divertido



No sé cómo esta amalgama siniestra de desprecio al placer y de criminalización del puro deseo ha logrado colarse en medio de una protesta dignísima y necesaria contra las agresiones sexuales


Llevo toda mi vida considerándome alguien rematadamente normal en cuestiones sexuales. Aunque sé que la normalidad es una categoría problemática para hablar de cualquier conducta, espero que se entienda lo que quiero decir. Me he sentido, me siento y me sé raro en muchos otros aspectos de mi vida, en los que pertenezco a minorías a veces ínfimas: la minoría de los que dedican mucho tiempo a leer, la minoría de los que se ganan la vida juntando letras, la minoría de los que trasnochan y madrugan a la vez, la minoría de los que no ven fútbol, la minoría de los que nunca se han inscrito a un gimnasio y la minoría de los que no saben silbar ni montar en bici. Pero, en términos de sexo, me suponía parte de una aburridísima media estadística, la de un tipo heterosexual y monógamo, que disfruta de sus cosas en la intimidad de su casa sin convertirlas en mística ni en bandera de identidad. A la luz de lo mucho escuchado y leído en los últimos meses, empiezo a cuestionarme mi propia normalidad.

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Así son los activistas que se enfrentan a la industria minera mundial


Retrato de tres personas que defienden la tierra, la vida y el agua frente a la industria minera en Filipinas, Colombia y Uganda.


Los líderes de vanguardia de la lucha minera en Filipinas, Colombia y Uganda viajaron al Reino Unido el pasado mes de noviembre para exponer los costes reales de los amplios vínculos del Reino Unido con la industria minera mundial y para oponerse al congreso Mines and Money (Minas y Dinero) que se celebró en Londres, un eje mundial de financiación y poder de la minería.
Aunque se publicita como un evento en el que "se logran acuerdos", el objetivo manifiesto de Mines and Money, que reúne a miles de empresas mineras e inversores en la capital británica, es establecer contactos entre el gran capital y las grandes minas. ‘Líderes del pensamiento’, como el financiador del Brexit, Arron Banks, y el antiguo líder del UKIP, Nigel Farage, pronunciaron discursos inaugurales en la conferencia de este año en los que aconsejaban a las empresas cómo explotar el Brexit y el ascenso de Trump para seguir obteniendo riqueza, especialmente del hemisferio sur.
Las explotaciones mineras que salen de los foros de negocios con sede en Londres, como Mines and Money, están creciendo, son más letales y son más propensas a provocar catástrofes. Hoy en día, la minería es la industria más mortífera para aquellos que se interponen en el camino de sus actividades.
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A Índia não estava coberta: descobrir a presença portuguesa em Cochim


“Foi a pimenta que fez Vasco da Gama atravessar os mares, da torre de Belém em Lisboa até à costa de Malabar”, explica o escritor indiano Salman Rushdie no romance O último suspiro do mouro, a crónica de uma família indiana com ascendência portuguesa na cidade de Cochim, no sul da Índia. Rushdie descreve como os portugueses foram os pioneiros do período conhecido como “Descobrimento da Índia”, mas questiona: “como pudemos ser descobertos se não estávamos cobertos antes?”
Cochim, a maior cidade do estado de Querala, foi a primeira cidade indiana onde os portugueses se estabeleceram, e o centro do comércio português no oceano Índico antes de a capital ser mudada para Goa. Hoje uma das cidades mais visitadas por turistas em Querala, a influência portuguesa ainda está muito presente no centro histórico da cidade. Edifícios coloniais e igrejas portuguesas fazem parte dos monumentos mais visitados por turistas, e o nome de Vasco da Gama encontra-se um pouco por toda a cidade, desde uma praça junto ao mar, até ao nome de restaurantes e hotéis.

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3 de dezembro de 2017

Sobre o Zé Pedro e esta coisa lixada chamada Tempo







O Zé Pedro também já nos deixou. Não, não vou acrescentar mais nada sobre o músico ou a pessoa em si. Não, não tive o privilégio de o conhecer, pelo menos não o suficiente para poder partilhar alguma estória, historieta ou vivência marcante que me fizessem agora aguentar em bicos de pé por efémeros e cibernéticos segundos (há segundos que podem não ser efémeros, incluindo os cibernéticos, como se sabe) perante a sua magnitude. Não, não chega para tanto. Apenas para voltar atrás e pensar nesta coisa lixada chamada «Tempo».
A morte do Zé Pedro, nesta escala muito particular que é a do nosso rectângulo, poderia ser comparada à do John Lennon. Calma, calma, calma... Apenas, no sentido em que o Zé Pedro era a figura mais carismática da banda de rock mais carismática em Portugal.
O que vos quero contar é que na minha vida isto está tudo ligado, mesmo. E nas vossas, também, claro. Até ter a minha primeira cassete, no início de 1986, por altura do meu aniversário, eu só ouvia as cassetes do meu pai que, felizmente, tinha bom-gosto para a música e me permitiu ouvir muita coisa dos Beatles e do Cat Stevens, fundamentalmente. Uns deixaram de existir muito antes de que eu nascera. O outro mudou de nome para Yusuf um ano antes. Também tinha a sorte de ter uns primos mais velhos. Uns que me deram a conhecer, entre outros, R.E.M., U2, Madredeus e Sétima Legião. E outros que me deram a conhecer, por exemplo, Heróis do Mar e Dire Straits. Sim, precisamente o grupo desse maravilhoso álbum chamado Brothers in Arms, que era o da minha primeira cassete, e que me foi oferecida pela minha avó Mercedes, no início de 1986, repito. A minha primeira cassete, porra! Já não se vendem cassetes, como sabem. Guardo-a religiosamente. Sim, porque para estas coisas materiais, sou mesmo muito religioso. A minha avó, que era filha de uma espanhola, aliás galega, chamada Jesusa, também já não está, vai fazer agora 15 anos. Fez-me, fez-nos, faz-nos muita falta. Eu tinha 7 anos e tinha uma cassete dos Dire Straits. Podem imaginar que tipo de avó eu tinha. Alguém que nunca impedia os sonhos dos outros, que eram afinal onde depositava os seus.
Na altura, eu ainda estava na Escola Primária. A Escola Primária da Embra, na Marinha Grande. Era assim que lhe chamávamos. Mais tarde, passou a chamar-se Escola Básica de 1.º ciclo João Beare ou Escola EB1 João Beare da Marinha Grande. Eu era aluno da professora Dolores, também ela com ascendência espanhola, mas que também já não está entre nós, há muitos anos. Também ela fez e faz falta, muita falta, a quem deixou.
A minha segunda cassete, tenho quase a certeza que a comprei com algum dinheiro que pude juntar do Natal, Páscoa ou aniversário. Não me lembro bem em que altura foi, apenas que foi em 1987, já com 8 anos. Fui à mesma loja onde a minha avó me comprou a cassete dos Dire Straits. Comprei o álbum Circo de Feras, dos Xutos & Pontapés. Sim, em 1987, os Xutos & Pontapés eram em Portugal a banda mais importante (no sentido de conhecida, pelo menos) do rock. Não se adjectivava o rock, como alternativo ou independente e mariquices dessas. Sim, havia o hard-rock, o rock progressivo, o punk rock, ou simplesmente punk, e muitos outros tipos de rock. Isso, eu ainda nem sabia. Para um puto como eu, era simplesmente Rock! Nem sequer sabia que os Xutos tinham algo de punk, só mais tarde soube dos seus inícios e influências. Sim, também só mais tarde ouvi Peste & Sida, Censurados, Tara Perdida, entre outras. E, ainda mais tarde, as bandas britânicas e americanas emblemáticas do Punk.
Voltando ao Circo de Feras. Reparem só neste alinhamento: "Contentores", "Sai p'rá Rua", "Pensão", "Desemprego", "Esta Cidade", "Não Sou o Único", "N'América", "Vida Malvada" e "Circo de Feras". Era de cortar a respiração. Toda a gente conhecia estas canções, tocavam em todo o lado. Ou, pelo menos essa era a minha percepção. E eu, esse puto de 8 anos, tinha a cassete. Uma cassete comprada numa loja de música ao fundo do corredor de entrada do Centro Comercial Moderno, situado na Rua Diogo Stephens, mesmo no centro da então Vila da Marinha Grande. Sim, só a 11 de Março de 1988, passou a ser cidade. Na altura, não sei se esse era o único centro comercial da Marinha Grande ou se já existia o Lumar. Hoje, o tal que era Moderno também sofre da mesma sangria que arrasou com o comércio tradicional no centro da Marinha Grande. Em 1987 e 1988, fazíamos aí a nossa vida, tínhamos tudo ali à mão. Esse C.C. Moderno também era onde estava a pastelaria onde me dava vergonha entrar com os meus pais, porque era a pastelaria da mãe da minha namorada (quase imaginária) da Escola Primária, que não sei se ouvia e tinha a cassete dos Xutos & Pontapés. Eu até a tinha, mas nunca lhe mostrei.
E também tive, um ano mais tarde, já com a Marinha Grande a apresentar-se ao país como cidade, famosa por ter sido palco da chapada que contribuiu para a eleição de Mário Soares como Presidente da República dois anos antes, a minha terceira cassete e segunda dos Xutos & Pontapés. O álbum era o 88, com este alinhamento: "As Torres da Cinciberlândia", "À Minha Maneira", "Para Ti Maria", "Nós Dois", "Andarilhos", "Carta Certa", "Doçuras", "Enquanto a Noite Cai", "Botas", "Prisão Em Si", "Sou Bom" e "A Minha Casinha". A loucura total. Era inimaginável que alguém não conhecesse, pelo menos, esta versão deliciosa chamada "A Minha Casinha".
1988. Esse foi o ano em que fui com a minha mãe e irmã a Lisboa «fazer» o Bilhete de Identidade. Não havia outra maneira. Fomos na Primavera de 1998 a Lisboa, de autocarro, sozinhos os três. Já tínhamos ido a Lisboa antes, nalguma excursão escolar ou em família com o meu pai ao volante. Mas, irmos assim de autocarro era outra coisa. Só comparável à primeira viagem de comboio com a minha avó Mercedes, na Linha do Oeste, entre a Marinha Grande e São Martinho do Porto. Mas, o que me marcou realmente foi o passeio pelo Chiado. A minha mãe fez questão de nos levar aí. Caminhámos muito nesse dia, nessas ruas, vimos os armazéns, os Grandes Armazéns do Chiado, e a Loja da Valentim de Carvalho. Não entrámos, só vimos a montra, só porque sonhávamos com a compra de um violino. E atraiam-nos todas essas capas de discos. Foi na Primavera de 1988, já disse. Uns meses mais tarde, noutro fatídico Verão, no dia 25 de Agosto, houve o grande incêndio que queimou quase tudo no Chiado. Mais do que as cinzas e a posterior re(des)construção, ficaram estas memórias guardadas de uma Primavera feliz. De um tempo onde predominavam ainda as cassetes e os discos de vinil e sonhávamos com violinos.
Só uns meses mais tarde, no Natal de 1990, quando o meu pai comprou a nossa primeira aparelhagem completa já com reprodutor de CDs, numa loja de electrodomésticos de Monte Real (Estabelecimentos Mendes), é que pudemos ter outra maneira de poder ouvir música, sem ser em discos ou cassetes (sem contar com a rádio e a televisão). Junto com a aparelhagem Akai, vieram os álbuns (em CD) Deep, do Peter Murphy (sem saber ainda quem era, imaginem), e o acabadinho-de-lançar The Very Best of Supertramp. Os CDs continuaram e ainda perseveram na sua existência, apesar de todas as plataformas e possibilidades que nos deu entretanto a Internet. As cassetes já não (nunca se sabe, há sempre por aí alguma tentativa à espreita), mesmo que eu guarde todas as minhas colectâneas feitas com centenas de horas de paciência, com o dedo indicador nos botões Pause e Rec. Os discos de vinil ainda ressuscitaram anos mais tarde, devido à qualidade, dizem, e o fascínio que levantam entre alguns revivalistas ou pessoas de bom-gosto e carteira condizente, mas com falta de sentido prático, talvez.
1990 foi o ano em que, para além de ter caído a União Soviética, o que teve um enorme impacto na comunista Marinha Grande, tivemos também o nosso primeiro computador, um IBM PS1. Não, eu não tive consolas de jogos, nem mesmo a ZX Spectrum da Sinclair. Em minha casa, fomos mais do PC, para o bem e para o mal. Na altura, ainda «trabalhávamos» com um sistema operativo MS-DOS, mas o IBM PS1 já introduziu algumas inovações em termos de menus e opções easy-learning, como agora se diz. Sim, isto foi antes do meu pai ter um telemóvel Technophone 405, fabricado pela Nokia em 1992, ou de termos uma ligação à internet através da linha telefónica com um modem de 56K. E não foi assim há tanto tempo!
Mas, voltando à suposta linha de pensamento que iniciou isto tudo. Se eu tinha um fascínio pelos Xutos & Pontapés, mesmo apesar de ser um puto franzino, aliás um verdadeiro trinca-espinhas (sendo que naquela altura detestava peixe por causa das ditas), devo-a completamente aos meus amigos Henrique e Catarina. Eram uma espécie de irmãos mais velhos, eram os meus amigos de São Pedro de Moel e, mais tarde, da Figueira da Foz. Eram quem me conduzia pelos caminhos do rock dos Xutos & Pontapés, eram quem me guiava através do fascínio comum pelo Benfica. Esse Benfica dos anos 80. O mesmo Benfica que a 14 de Dezembro de 1986 levou 7 do Sporting, mesmo tendo acabado campeão uns meses mais tarde, como era habitual. Lembro-me dessa tarde nefasta para o meu Benfica, precisamente porque estávamos na Figueira da Foz a comemorar o aniversário do Henrique, uma semana antes do dia do seu aniversário, 21 de Dezembro, o mesmo dia de aniversário de outro primo, o mesmo dia de aniversário de uma das «Ritas» da minha vida, o mesmo dia de aniversário de uma agora sobrinha, por intermédio da minha mulher, e o mesmo dia em que morreu a minha avó Mercedes, em 2002. Três semanas antes de viajar a Moçambique, pela primeira vez.
Mas, voltando aos meus amigos, lembro-me que ir a uma festa de anos em casa do Henrique, da Catarina e da Helena, quer fosse em São Pedro de Moel, ou na Figueira da Foz, era uma verdadeira alegria. Devo dizer que Helena foi o nome que dei depois à minha primeira filha. A segunda tem o nome de vários dos meus amores, a Rita da creche Arco-Íris (hoje Centro Infantil Arco Íris), e a Rita da Universidade, que também me deu motivos para regressar à Figueira da Foz, inúmeras vezes. E a breve Rita que conheci antes de encontrar aquela que é a minha Mulher, a Isabel. Voltando aos meus amigos, mais uma vez, as festas, visitas ou os piqueniques com eles eram sempre sinónimo de provar todo o tipo de iguarias, sobretudo as mais doces e inclusive algumas que me pareciam exóticas naquela altura. Eram sinónimo de horas a brincar com Legos e de jogar à bola, imaginando-me um Chalana, um Diamantino, ou um Carlos Manuel, fosse nas ruas de paralelos de São Pedro de Moel (as mesmas onde eles me ensinaram a andar de bicicleta), nas nossas praias ou, mais tarde, no Parque das Abadias, na Figueira.
Eram, juntamente com as poucas palavras que se comentavam em casa dos meus avós paternos, com as suas vidas marcadas por Moçambique, a oportunidade de dar-me conta que havia portugueses nascidos ou que tinham passado por África. Mais concretamente por Moçambique, ou no caso do Henrique, num país outrora chamado Rodésia do Sul, onde nasceu. Na altura, eu não imaginava o que aí vinha e que hoje eu pudesse estar a escrever estas palavras, aqui em Maputo, no mesmo bairro da Polana, onde a Helena, a mãe dos meus amigos, iniciou a sua actividade docente, imagino que no Liceu Dona Ana da Costa Portugal (que era o das raparigas), na cidade outrora chamada de Lourenço Marques. Ou talvez fosse no liceu que está ao lado e que se chamava Salazar (o dos rapazes), não sei dizer com exactidão se foi aqui que ela deu aulas. Hoje ambos formam a Escola Secundária Josina Machel, na cidade que há quase 50 anos se chama Maputo.
Por isso, estar com eles era também estar com o Senhor Melo, o avô, o senhor do talho de Lourenço Marques que ajudou a que o Eusébio pudesse chegar ao Benfica, ao seu Benfica. E que ajudou, como muitos outros sócios e simpatizantes, a construir, a erguer o Estádio da Luz. De todos os sítios, onde se dizia que era Portugal, saíram toneladas de cimento e o dinheiro possível para que se pudesse construir aquele estádio. Um estádio construído pelos seus sócios e que foi inaugurado sem jogadores no meio do campo de braço direito levantado, imitando uma qualquer saudação romana, nazi, fascista ou o que lhe queiram chamar. O mesmo estádio onde ele me levou uns anos mais tarde numa visita privilegiada a todas as suas entranhas incluindo o gabinete do presidente, dada a sua condição de Sócio de Honra. O presidente (e escrevo com letra pequena) era um tal de Manuel Damásio. Mas, o Senhor Melo não sabia o que aí vinha nesses nefastos anos de escuridão do nosso clube, e proporcionou-me essa visita com a melhor das intenções. Obviamente, não a esqueço, até porque esse estádio, também ele, já não existe.
Estar com os meus amigos de São Pedro de Moel, mais tarde da Figueira da Foz, era, como já disse, redescobrir-me continuamente numa série de gostos comuns e que me faziam sentir parte de um grupo externo ao da minha família e colegas da escola, sobretudo porque eram amigos mais velhos, e que continuaram a sê-lo por esta vida fora, mesmo apesar das distâncias e dos muitos anos sem nos vermos cara-a-cara. Um grupo onde estes meus amigos eram unha e carne com outros que depois prosseguiram as suas vidas na Ilha da Madeira e outras paragens. Todos filhos de professores, colegas da minha mãe na Escola Preparatória Guilherme Stephens, hoje Escola Básica 2/3 Guilherme Stephens. Estes últimos com a curiosidade de terem ido parar a Timor-Leste em Janeiro de 1974, na última viagem do navio Timor para essas paragens, ou seja uns meses antes da Revolução dos Cravos. A curiosidade está em que eles chegaram no mesmo navio que trouxe o meu pai de volta a Portugal, por finalizar o serviço militar obrigatório, e cujo percurso incluiu estadias curtas na então Lourenço Marques e em Luanda. Um ano e meio antes de casar, o que permitiu que eu existisse, obviamente. E tudo isto, antes de que estes casais se conhecessem uns anos mais tarde na Marinha Grande e permitissem que os seus filhos partilhassem tantas horas de pura alegria infantil e memórias.
Muitos anos mais tarde, e agora prometo não perder-me outra vez, já depois de ver alguns concertos dos Xutos & Pontapés - o primeiro que eles deram foi na Sala Apolo, em Lisboa, no dia 13 de Janeiro de 1979, dois dias antes de eu nascer - por esse país fora, nas mais diversas circunstâncias, e já depois de chegar a Maputo pela primeira vez - no dia 13 de Janeiro de 2003 - e de começar a trabalhar no Chapitô em 2004, conheci finalmente o Zé Pedro em pessoa. Sim, esse tipo com ar aparentemente descontraído e normal, mas que nós homens, algum dia na nossa adolescência sonhámos em poder ser, já depois de sonharmos na infância em ser algum jogador da bola suficientemente famoso para poder entrar no Estádio da Luz. O Zé Pedro era o mais parecido a uma «Lenda do Rock» em Portugal. Muito mais do que o próprio Tim, o Rui Veloso ou outros. Sim, lembro-me de uma reunião muito informal com grande parte da equipa do Chapitô e da Companhia e o Zé Pedro, ali naquelas mesas do pátio do Chapitô, por causa dessa ideia genial que era a de vir a ter uma Escola de Rock em Lisboa. Não sei o que aconteceu depois e se chegou a haver essa Escola de Rock. Muitas outras reuniões se seguiram, sem a minha presença, obviamente, porque eu não passava de um mero responsável de Serviços Gerais que trabalhava ali ao lado do gabinete da Teté e onde me mantive só até Novembro de 2005. Uma semana antes de viajar de novo para Maputo, desta vez para ficar aqui a viver quase 4 anos. Nos quais, conheci a minha mulher, que me permitiu ter hoje uma filha chamada Helena e outra chamada Rita, que me esperam lá em Espanha, na nossa Alegre Casinha, a mais de nove horas de distância. Afinal, tinha uma historieta para me pôr em bicos de pés, por breves segundos. E só sei que este tipo chamado Zé Pedro, que ainda agora foi, já nos faz falta.

16 de outubro de 2017

Pinhal do Rei


Catedral verde e sussurrante, aonde
a luz se ameiga e se esconde
e onde ecoando a cantar
se alonga e se prolonga a longa voz do mar,
ditoso o Lavrador que a seu contento
por suas mãos semeou este jardim;

ditoso o Poeta que lançou ao vento
esta canção sem fim...

Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
são as caravelas, teu corpo cortado,
é lo verde pino no mar a boiar,

Pinhal de heróicas árvores tão belas
foi teu corpo e da tua alma também
que nasceram as nossas caravelas
ansiosas de todo o Além;
foste tu que lhes deste a tua carne em flor
e sobre os mares andaste navegando,
rodeando a Terra e olhando os novos astros,
oh gótico Pinhal navegando,
em naus erguida levando
tua alma em flor na ponta alta dos mastros!...

Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal florido,
que grande saudade, que longo gemido
ondeia nos ramos, suspira no ar.


Afonso Lopes Vieira