15 de dezembro de 2005

No trilho da Província de Gaza

Finalmente, nesta quarta-feira, dia 14, saí da Província de Maputo... Tomei o caminho para Norte, mas fiquei mesmo pela Província de Gaza, a que se encontra imediatamente a seguir! As diferenças não são muitas, continuamos na Região Sul, onde, de alguma maneira, as dificuldades não se fazem sentir com o mesmo impacto como nas províncias/regiões mais a Norte...
Partimos (eu e o Sr. Ginito, aliás Sr. Eugénio dos Santos Macache) a meio da manhã, porque o caminho não nos tomaria mais do que 2h30m e ficara combinado de estar no Chókwè apenas depois de almoço... para uma reunião de trabalho.

A estrada que se toma é a Nacional 1, a mesma que me levou à Manhiça e Bairro 3 de Fevereiro, aquando do Dia Mundial de Combate ao HIV/SIDA. Ao sair de Maputo, passamos pela Zona do Jardim, pelo Bairro de Benfica e seguimos viagem até à Manhiça, a cerca de 80km. Lá, parámos para almoçar (cabrito para mim, bife para o Sr. Ginito) e descansamos...

Quando volto a passar no Bairro 3 de Fevereiro, fico a saber que a data recorda o desaparecimento do líder da resistência anti-colonial, Eduardo Mondlane, morto pela PIDE, e que até é Feriado Nacional: Dia dos Heróis Moçambicanos... O Sr. Ginito, diz-me que neste local ocorreram vários massacres cometidos pela RENAMO, durante a "Guerra Civil", às populações... e que a estrada foi um verdadeiro "lugar de morte". Durante muitos anos, ninguém quis viver no 3 de Fevereiro, sendo que permanece, de alguma forma, uma nuvem sombria sobre ele!
Seguimos até à Macia... Aqui fica o cruzamento que nos faz tomar diferentes opções: para Leste, o Bilene e a sua maravilhosa praia que hei-de desfrutar; para Norte a cidade de Xai-Xai, capital da Província de Gaza e o resto do "País-mistério"; para Oeste, a Cidade do Chókwè e um longo caminho até à África do Sul ou ao Zimbabwe...

Na estrada (mais uma em óptimo estado) que nos leva ao Chókwè, deparamo-nos com uma imensidão de verde, aqui e ali, interrompido por uns montges de terra castiços que, vim a saber, são construídos por comunidades de formigas. Chegam a ter 2 metros de altura (ou talvez mais)!

Vemos sempre gente de um lado e do outro da estrada: uns que esperam pelos chapas que os conduzirão a qualquer lado ou tomam conta das suas vacas ou cabras; outros que tentam vender alguma coisa aos viajantes (normalmente mangas e papaias, castanha de cajú, batata doce, ou mesmo tijolo e fardos de palha); outros ainda que apenas esperam pela passagem do Tempo...
Passamos a Lionde onde nos deparamos com o abandono a que está sujeita a antiga fábrica de lacticínios. Vim a saber mais tarde em conversa com o Sr. José Rodrigues Pereira, que o Governo pede 4 Milhões de Dólares por ela, quando esta não vale mais do 40 Mil, nas palavras dele... E lá continua a arruinar-se a hipótese de empregar mais algumas pessoas e melhorar a vida de outras mais...
À chegada à Cidade do Chókwè, capital do distrito com o mesmo nome, é grande a azáfama do mercado que ladeia as duas margens do rio de alcatrão que nos conduz...
Depois de algumas dúvidas, encontramos a Avenida Eduardo Mondlane, onde finalmente paramos para deixar os haveres no Hotel Limpopo... Por fora, parece duvidoso, mas quando conhecemos os nossos respectivos quartos, ficamos mais descansados: higiene, ar condicionado, wc privativo, tv, sala de apoio...
Hoje, antes da reunião marcada para as 11h00, fui finalmente conhecer a barragem do Limpopo, seguindo pelo caminho de Guija... A água está num nível baixo devido à seca dos últimos tempos... Pergunto se existem crocodilos, a resposta segue de imediato: "Não existem poucos!"
Como estes não se fizeram anunciar, depois de umas voltas na aldeia da Barragem, onde nos deparámos com as dificuldades enormes das suas gentes (mesmo num sítio com tanta água e aparentes condições de melhor sobrevivência), voltámos à Cidade.
Com o estômago bem aconchegado e com uma sobremesa-extra que foi a aula do Professor José Rodrigues Pereira sobre os Poetas e a Poesia de Moçambique, enfrentamos o caminho de regresso com energias redobradas...
Uma paragem na Macia para comprar fruta e as vendedoras quase "lutam" entre si para nos venderem os seus produtos. Acabo por levar algumas mangas, uns ananazes, papaias, pimentos e pepinos...
A paragem habitual na Manhiça apenas para repor os líquidos e eis-nos em Maputo pelas 18h00 completamente estafados...
P.S.: A comitiva do Benfica chegou ontem a Maputo, com o Presidente Luís Filipe Vieira, o Eusébio, o Carraça, entre outros. Assinaram protocolo com o Costa do Sol, antigo Benfica de Lourenço Marques (durante 25 anos), no âmbito da formação, e foram recebidos pelo Ministro da Juventude e Desportos, prometendo apoio à Federação Moçambicana de Futebol para a organização do CAN 2010. Já hoje foram recebidos pelo Presidente da República e amanhã estarão presentes num jantar que reúne os Benfiquistas (imensos) de Maputo. Regressam a Lisboa no próximo Sábado... com a promessa de voltar lá para Maio!