30 de dezembro de 2006

Al Pacino - Scent of a Woman

Ainda o Tango...

Moçambique: Estado de Direito Democrático?

O que se está a passar em Moçambique é uma tentativa mais do que explícita de calar órgãos de informação e meios de comunicação social de um grupo empresarial privado em Moçambique, a SOICO, que incluí, entre outros, a STV, Fama e SFM, através de uma penhora de bens por intermédio de uma acção judicial desencadeada devido a um processo laboral, em que uma ex-trabalhadora do jornal O País reclama uma indemnização avultada. Ora, esse processo laboral nada tem que ver com a empresa em questão, mas antes sim com o antigo proprietário do jornal em questão. A SOICO detém a marca "O País", no entanto o juíz achou "por bem" arrestar bens da SOICO, não apenas do jornal como dos outros canais do grupo (tv e rádio), num montante quatro vezes superior ao da indemnização pedida... com uma rapidez de procesos raramente vista ou mesmo original na justiça moçambicana...
Resta dizer que a ex-trabalhadora do jornal é irmã da actual Ministra da mulher e Acção Social.
Este caso deveria ser alvo de denúncia internacional, pois prova que este país, tido como tão exemplar pela Comunidade Internacional, tem ainda um longo caminho a percorrer em termos de cumprimento de obrigações no campo das liberdades e garantias dos seus cidadãos...
Comunicado de Imprensa da SOICO
30/12/2006
O Grupo SOICO, proprietário da televisão STV, do jornal “O País”, da revista Fama Magazine e da rádio SFM foi surpreendido, no dia 27 de Dezembro último, com um mandato judicial de penhora dos bens do jornal “O País” no âmbito de um processo executivo cujos fundamentos e título desconhece porque anterior à data da aquisição desta publicação por parte daquele Grupo de Media.
A administração da SOICO explicou aos oficiais de diligências que o jornal “O País” é um mero nome de uma publicação periódica e não uma empresa, não sendo objecto de qualquer tipo de relações jurídicas nem sociais. Por outras palavras, não tem bens porque é apenas uma marca comercial.
Explicou-lhes ainda (e exibiu-lhes cópia do acordo de aquisição) que o contrato de compra celebrado entre a SOICO e o senhor António José Correia Paulo, na sua cláusula primeira, estabelece que a SOICO adquiria “o título, bens tangíveis e intangíveis”, sendo anexada ao contrato a lista dos bens referidos. Ressalve-se que este contrato não inclui responsabilidades sobre os trabalhadores do “O País” nem sobre terceiros e ou outra entidade jurídica ou comercial.
No entanto, apesar desta explicação, os oficiais de justiça insistiram em levar consigo os computadores da Direcção de Informação. Após várias horas de negociação, optaram por levar duas viaturas, uma de 12 mil dólares e outra de 10.200 dólares, cujo somatório ascendia aos cerca de 430 mil MTn da causa.
No dia seguinte, dirigimos uma exposição ao juiz da causa, explicando que o caso era anterior ao momento da nossa aquisição do jornal “O País” e referindo também que o jornal “O País” era um mero nome de uma publicação periódica.
Estranhamente, no entanto, como resposta obtivemos mais uma acção, ordenando a penhora de mais bens, apesar de o valor das duas viaturas, penhoradas no dia anterior, ultrapassar o valor da causa.
Assim, no dia 29 de Dezembro, os oficiais da justiça voltaram às nossas instalações e levaram todo o equipamento informático existente na redacção de informação, apesar de o grupo SOICO possuir outro material de igual valor ou até superior. Assim, levaram 18 computadores - 12 PC’s e 6 Macnintosh; uma impressora-fotocopiadora; 1 scanner e três vídeo-cassetes DVCAM.
Importa, aqui, referir que os computadores continham informação confidencial e de muito valor, nomeadamente matérias de investigações jornalísticas que estávamos a desenvolver, bancos de dados e de imagens, entre outros, não sabendo, agora, para quem fim serão usados.
Com mais esta penhora, o valor total dos bens apreendidos passou a 1 milhão e seiscentos e cinquenta mil MTn, quando a acção a cobrir é de cerca de 430 mil MTn.
Importa referir que nenhum dos bens penhorados pertence ao jornal “O País”, conforme os documentos que apresentámos, prontamente, aos oficiais da justiça, sendo alguns da STV, outros da SLive e os restantes da SOICO, cada uma delas com personalidade jurídica própria, ao contrário da marca “O País”. Aliás, no caso das duas viaturas, uma tem o logotipo da STV e a outra da SLive. Apesar destas evidências, os oficiais da justiça penhoraram todos estes bens.
Face a esta realidade, a televisão STV, o jornal impresso O País, o jornal electrónico País On Line, a rádio SFM e a revista Fama Magazine estão privados dos seus principais instrumentos de trabalho para informar o público.
Esta medida está a ter igualmente um impacto financeiro muito grande para o grupo SOICO, uma vez que a empresa tinha assumido contratos comerciais com clientes e, face a esta situação, não vai poder honrá-los.
Importa referir que, até agora, a SOICO ainda não teve acesso ao processo em causa, pelo que desconhece os fundamentos e o título executivo que suportam a acção em que, estranha e surpreendentemente, foi envolvida.
Consciente de que a liberdade de imprensa e o direito à informação são elementos chaves consagrados na Constituição da República, a SOICO aproveita para reiterar que, apesar desta situação, vai continuar a difundir uma informação independente e transparente como se tem pautado até agora, recusando vergar-se a qualquer forma de intimidação.
Acreditamos igualmente que estamos num Estado de Direito, pelo que estamos em crer que as instituições de justiça deste país não irão deixar que a razão da força se sobreponha à força da razão.
Maputo, 29 de Dezembro de 2006
A Administração do Grupo SOICO

11 de outubro de 2006

Uma descoberta... Akram Zaatari

Mais uma sessão de Video Arte a convite do Aladino... Desta vez, um filme sobre a obra do libanês Akram Zaatari. Título? "Um olhar sobre os olhares de Akram Zaatari"... Aqui fica um retrato:
Akram Zaatari, a video artist and curator who lives and works in Beirut. He is author of more than 30 videos, among them 2003: This Day (86 min.). 2001: How I love You (29 min), Her + Him Van Leo (32 min). 1997: Crazy of You (27 min) and All is Well on the Border (43 min). 1996: The Candidate (10min), and the two video installations: Another Resolution, and Monument # 5: The Scandal. He is co-founder of the Fondation Arabe pour l’Image, Beirut, through which he developed his recent research-based work on the photographic history of the Middle East, which resulted in a series of exhibitions, among which are 2001: The Vehicle: picturing moments of transition in a modernizing society, Portraits du Caire: Van Leo, Arman, Alban. 2002: Mapping Sitting, on portraiture and photography with Walid Raad. He edited or co-edited three publications by the same titles. His writing was published in critical and scholarly journals such as: Parachute, Framework, Transition, Bomb, Al-Adaab, Al-Nahar, and Zawaya.

11 de setembro de 2006

2 de setembro de 2006

Cristal Groove Summer Party

2 DJs de Johanesburg, Ricardo da Costa & Roger D'Lux em 2 Dance Floors...
Uma das melhores festas destes últimos tempos em Maputo...
Parabéns Cláudia e Mambo's!
Começou o Verão!

22 de agosto de 2006

Conferência


Universidade Eduardo Mondlane
Departamento de Arqueologia e Antropologia



CONFERÊNCIA



THE HOLY TRINITY, OR THE REDUCED MARX, WEBER, DURKHEIM

(A SANTÍSSIMA TRINDADE: MARX, WEBER, DURKHEIM)



Professor GAVIN WILLIAMS
Investigador Associado
St. Peter’s College, Oxford


Quinta-feira, 24/08/06, 10.00 horas


LOCAL:
SALA CP 2501
Novo Complexo Pedagógico
Campus Universitário Principal


Apoio: Kula – Estudos e Pesquisas Aplicadas

20 de agosto de 2006

Uma prenda aos Navegantes...

Aos meus 5 (talvez 6) leitores, espero que tenham gostado da prenda que vos ofereci, pelos 9 meses de "Da Cor do Índico"...
Links para blogs, jornais, revistas, universidades, organizações internacionais, sites oficiais de bandas, entre outros... Vejam bem do vosso lado direito! Gostaram?
Ok, sempre têm mais um motivo (talvez o único) para passarem aqui mais vezes...

14 de agosto de 2006

Aviso à Navegação

Só para avisar que nos próximos 9 meses,
este blog continuará a estar fora do "bom bloguismo"...
com tendências para piorar...
Irritação de um "Tuga" cansado de algumas "moçambicanidades".
Talvez arranje um blog para escrever sobre estas,
mesmo que contadas ninguém acredite...
Há dias... em que trabalhar por estas paragens
ou é loucura ou é masoquismo...
ou são as duas coisas...
Blogda-se!

13 de agosto de 2006

Fim de Poema

Fim de poema

Para que nem tudo vos seja sonegado,
cultivai a surdina.
Eu fico em surdina.
Em surdina aparo os utensílios,
em surdina me preparo para morrer.
Amo, chut!, em surdina;
a minha vida,
nesga entre dois ponteiros, fecha-se
em surdina.

Sebastião Alba, do livro “A noite dividida”

12 de agosto de 2006

Casamento do João e da Ana



A ideia foi a de juntar os amigos numa cerimónia a que chamaram de "Casamento"...

Sem dúvida, que esta instituição não se esgota nos moldes tradicionais e aplaudo esta ideia "original", mas muito sentida e própria de um casal que está junto há 1 ano, com provas de grande união.

Os meus parabéns, amigos!

Que sejam sempre felizes, respeitem-se... e não percam o Amor que sentem!

Ah... o local escolhido foi a Praia da Macaneta para a qual nos dirigimos meio ensonados, por volta das 7h00 da manhã...

Alguns km de estrada, uma travessia de barco, uns metros a pé... e uma cabaninha decorada em cima da areia, com esta vista esplêndida e inspiradora... para muitos anos de Amor Eterno...

10 de agosto de 2006

Líbano... o Horror


O Sr. Alex é o mecânico onde levamos os nossos carros... constantemente com problemas por estarem "cansados".
O Sr. Alex é libanês.
Perguntei-lhe pela família.
Respondeu-me: "Nas últimas 2 semanas, morreram-me 7!"
Por quê? Para quê?

4 de agosto de 2006

Apresentação do livro relações Afro-Árabes


Carlos Tembe, o carismático edil da Matola, lança hoje, no Auditório Municipal desta cidade, sob chancela das Colecções Mbokodo, a sua segunda obra ( a primeira foi "A Questão Palestiniana"), entitulada "Relações Afro-Árabes: Convergências e Divergências".
Este especialista em assuntos do Médio Oriente, professor do Instituto Superior de Relações Internacionais em Maputo, para além de presidir ao Conselho Municipal da Cidade da Matola, cargo para o qual foi eleito em 1998 (nas primeira eleições autárquicas), tem tido uma presença forte nos meios culturais moçambicanos, promovendo, entre outros, o festival de jazz da Matola...
Há 3 anos, aquando da minha primeira visita a Moçambique, pude contar com o seu apoio pessoal para poder prosseguir com os meus trabalhos de investigação sobre a Matola...
Hoje não posso deixar de estar presente para lhe dar um abraço...

31 de julho de 2006

O Poeta Vagabundo...

Sóbrio e Puro

Dei-vos cartas e rosas,
nunca me deram cartas e rosas;
apresentei-vos Beethoven,
nunca me apresentaram a ninguém;
dei-vos chocolates,
nunca me deram uma ameixa;
ao papá, dei-lhe versos,
deu-me um soco da última vez que o vi.
Ai! Vou procurar outra família, chega!
Só a poesia demora. Mas há um pacto entre nós: "sempre que estejas sóbrio e puro", disse-me ela aos 25 anos, "serei tua".
E eu não estou!
Tenho pouco dinheiro, poucos amigos - morrem com uma infidelidade quase descarada, e deixam-me cada vez mais só.
E não resisto a saber como estão os outros, a ir vê-los, antes que me deixem, também.
Sebastião Alba
(o poeta vagabundo)

30 de julho de 2006

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

18 de junho de 2006

Artesanato de Maciene


Aqui fica o convite: venham a Maciene!

Maciene é uma pequena aldeia uns 30 km a Norte da Cidade do Xai-Xai, na Província de Gaza (Sul de Moçambique).

Nesta aldeia podemos visitar um projecto de desenvolvimento comunitário através do ensino da arte, utilizando unicamente matérias-primas naturais e locais...

Com o apoio da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), um grupo de jovens aprende a criar tecidos a partir de frutas locais ou até mesmo do plástico. Aprendem técnicas de tecelagem, pintura em tecido e criam arte ao natural...

17 de junho de 2006

Casa


Casa

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão…

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.
(Excerto de Infinito Pessoal ou a arte de amar, de David Mourão-Ferreira)

Pele...



Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele
(excerto de Do Tempo ao Coração, de David Mourão-Ferreira)

Até sempre... Nora!

Algumas dezenas de amigos nesta última noite de convívio com a Nora em Maputo...
O Cine África nesta noite foi cenário de um filme muitas vezes vivido entre este grupo de "amigos" (com aspas e sem aspas) que se fundiram inúmeras noites numa só cor, a da alegria...
Nestes meses, a Nora foi uma das belas amizades que fiz e com quem partilhei bons momentos aqui contados... É a primeira que parte... e sei que um dia voltaremos a ver-nos!

11 de junho de 2006

Espírito de missão…

Decorreram pouco mais de seis meses desde aquele quentíssimo dia em que cheguei a Moçambique, em meados de Novembro último, para chefiar a Missão dos Médicos do Mundo – Portugal neste país. Parece ter decorrido mais tempo… Não era a primeira vez cá e, por isso, não houve o “choque” partilhado por muitos da confusão e miséria generalizadas, que nos assaltam à primeira investida em África; do calor, luz, cor, sons e cheiros que nos relembram sentidos e instintos julgados esquecidos ou ténues.
Porém, ultrapassado esse “choque” aquando da primeira estada, outros sobejam para nos testar a cada dia que passa. Testar sobretudo as nossas capacidades (intrínsecas ou desenvolvidas) de resistência, adaptabilidade, sacrifício e imaginação; bem como colocar à prova o verdadeiro espírito de equipa e de entreajuda, quando meios e recursos são quase sempre escassos…
A palavra “missão” apela a uma espécie de incumbência de natureza divina, no espírito das missões cristãs que propaga(ra)m a fé entre “povos à margem da civilização” ou ditos “infiéis”, desde os Descobrimentos. Esta acepção redutora da palavra não se coaduna obviamente com a tarefa/cargo que me propuseram (e a que me propus).

Neste âmbito, contudo, dadas as dificuldades com que nos deparamos, é, por vezes, difícil contrariar a tendência (presunçosa e naïve… convenhamos) para nos sentirmos de alguma forma também “missionários”… no que de mais nobre se depreende da sua acção puramente altruísta.
É uma apropriação errada, bem sei. Somos “apenas” funcionários com um papel bem definido numa estrutura hierárquica e organizada e, passo a redundância, funcional. Conduzimos e gerimos projectos em equipa, administramos e conservamos fundos e recursos, orientamos equipas e motivações, distribuindo tarefas, mas também incentivos. Trabalhamos com regras de funcionamento e de relacionamento institucional que são claros e que se regem pela prática internacional da cooperação para o desenvolvimento e das ONGD em geral. Tudo parece caber num qualquer manual de gestão do ciclo do projecto ou de práticas organizacionais e afins formatadas em escritórios distantes. Mas, apesar de tudo, por que razão não deixamos de nos sentir “missionários”?

Numa pequena dissertação desinspirada como esta não cabem muitos exemplos para sustentar este sentimento que perpassa de forma geral os funcionários das ONGs em missão externa nos “Países do Sul”. Neste contexto, independentemente da grandeza, das capacidades financeiras, dos resultados e visibilidade da organização em que se encontra, o funcionário cooperante é assolado quase diariamente (dependendo do seu envolvimento específico) pela surpresa e inconstância que contrariam formatações e sistematizações. Nada pode ser tido como certo até vermos com os próprios olhos. Nada pode ser tido como provável, porque a sua concretização é um mar extenso e cheio de correntes e ventos contrários. Quando julgamos que já vimos tudo, nasce um novo dia, e outro de seguida, rindo-se de nós pela ingenuidade de acharmos que temos a resposta certa, a metodologia apropriada. Por acharmos que o “nosso” sistema é o que melhor se encaixa e ajuda a melhorar processos. Claro que temos razões para pensar dessa forma, então não é esse sistema que nos resolve os problemas há anos e está mais que testado nos países de onde partimos? Não é isso que esperam de nós?
Pois não… há “o contexto e os aspectos sócio-culturais”, dizem alguns. Há “os estádios de desenvolvimento e o papel diferenciado na economia internacional”, dizem ainda outros. Existem dissertações, investigações, triliões de páginas escritas, do científico ao literário, que nos aprestam para esta “realidade”. Mas, por que raio este sentimento nos invade? Por que razão, apesar das contrariedades, tomamos a nossa tarefa como uma “missão” obrigatória que nos toma de assalto e nos despoja de certezas e orgulhos, ao mesmo tempo que nos dá festas na alma?
Cada vez que nos deparamos/exaltamos com as (in)esperadas incompetências, inoperâncias e corrompimentos vários, julgamo-nos definitivamente superiores ou caímos numa letargia pessimista e generalista… E, logo somos confrontados com pequenas lições de humildade, de criatividade e imaginação na(s) resposta(s), de desafio ao que temos como certo e insofismável, linear e coerente. Logo somos confrontados com um sorriso ou um olhar genuinamente fotogénicos, presos a um corpo doente (ou não) que nos reconduzem para a “missão”, como tábua salvadora (e redentora) a que nos agarramos. Depois, e para lá disto, as nossas vidas são já apenas fumaça acinzentada, de tão previsíveis e estereotipadas.

Há-de vir (expressão moçambicana) o dia em que eu realmente encontre a resposta dentro de mim, mas partilho convosco uma tentativa/aproximação: talvez África seja uma velha sedutora, farta e aconchegante, com o elixir da juventude e máscaras convenientes, que nos obriga a ousar e a pensar de forma diferente e a encontrar o nosso verdadeiro “ser” desde as remotas raízes… que outrora geraram frutos espartilhados. Deixemo-nos seduzir, então…

10 de junho de 2006

Dia de Portugal

Um Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, passado fora do país tem sempre um cariz especial. Não costumo muito ligar a estas coisas, mas não sou completamente “ateu”!

Já ontem, na recepção do Embaixador de Portugal em Moçambique, nos jardins da sua casa, onde estive com alguns amigos, colegas e pessoas conhecidas, tive esse sentimento de pertença… a uma comunidade. Ainda mais, porque acabo de regressar de um mês de férias em Portugal e a “portugalidade” ainda está tão presente…

Apreciei o gesto do Ministro da Saúde de Portugal ter vindo cumprimentar cada um dos membros do grupo onde me encontrava, bem como de ver o Maestro Victorino d’Almeida ao lado do pintor Malangatana, sentados a conversar como dois velhos conhecidos que são…

Ora, estas duas figuras foram hoje centrais no Concerto de Gala das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, no Centro Cultural Universitário da UEM, onde me desloquei com o meu amigo João. O primeiro, pela sua presença e apoio a um evento de música clássica de excelente nível; o segundo pela homenagem sentida de um grupo coral moçambicano que actuou no fim… acompanhado por um público entusiasta que se rendeu à fusão de Mozart, Rachmaninoff e canto tradicional moçambicano…

Obrigado!

19 de maio de 2006

Maio... mês dos Amantes!

A secreta viagem
No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só os dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!
Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de maneira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...
Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter?— Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!
Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa ,passa...alheio aos meus sentidos.
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa ,em madeira esculpidos!
de David Mourão-Ferreira

30 de abril de 2006

Uma sugestão

Aos que vivem em Maputo ou por cá passam, não deixem de assitir aos excelentes concertos de AfroJazz, Jazz, Reggae, todos os Domingos, ao fim da tarde, no Núcleo d'Artes...
O ambiente é descontraído, a simpatia da Tina é contangiante e os músicos proporcionam-nos sempre grandes surpresas a ouvidos que aprendem e reaprendem novos sons e formas de os reproduzir...

29 de abril de 2006

Musicando contra o HIV/SIDA e a Pobreza...

No Centre Culturel Franco-Mozambicain, em Maputo, assisti a uma grande parte da final do festival regional de jovens músicos. Este evento foi organizado pela Associação Jeunesses Musicales International, Ministério da Educação e Cultura de Moçambique e o próprio "Franco".

Os jovens que vi de Moçambique, Zimbabwe,Tanzania; Malawi (não cheguei a ver os da Zâmbia) demonstraram que África é uma fonte inesgotável de riqueza cultural, criatividade e brilhantismo... e também irreverência!
Música que revela uma fusão de sons semre inesperados, corpos que vibram sem limite e incendeiam a plateia...
Para além de músicos africanos, participaram também músicos da Suécia, mas que não cheguei a ver, porque a fome cantou mais alto...

Obrigado por uma noite especial!

28 de abril de 2006

Parabéns, RDP África!

Não eram 10.000 espectadores, o som não era o melhor, mas o ambiente era suficientemente simpático para deixar satisfeitos os organizadores do festival de encerramento das comemorações dos 10 anos da RDP África, em Maputo. Foi um risco, pois pela primeira vez tal evento decoreu fora de Portugal. Acredito que as expectativas não deverão ter sido defraudadas, apesar da não muito forte afluência na Praça Robert Mugabe (também conhecida por Praça do Benfica por juntar os benfiquistas nas suas comemorações) - já não na Praça da Independência como previsto. O palco estava junto ao Water Front, bem perto da FACIM e de costas para a Baía de Maputo... bem guardado por um conjunto de palmeiras que lhe davam aquele toque exótico que se exigia.
De qualquer maneira, para mim foi emocionante poder ver a cara de alguns dos locutores e profissionais da rádio a que me habituei ouvir nos últimos meses: João Pedro Martins, Carlos Pedro, Celina Pereira, Sandra Claudino e Nuno Sardinha. Foi também a oportunidade de assistir de uma vez só a actuações de alguns nomes importantes da música moçambicana: Rockfellers, Jenny, etc. Neyma, fica para a próxima, pois não consegui chegar a tempo...

23 de abril de 2006

Visita à Ponta do Ouro... em jeito de composição


Porquê? Porque… é um sim tantas vezes adiado!
Onde? No extremo sul de Moçambique.
Quem? Claro, o pessoal do costume: João, Ana e Tiago (faltaram a Cláudia e o Caló para completar).
Quando? Entre Sexta-feira, dia 21 de Abril, pelas 14h30, quando partimos, e Domingo, dia 23, pelas 23h00, quando regressámos a Maputo. Uma ou duas horas antes, já a Nora, o Noé, a Sophie e outros dois amigos ingleses tinham partido com o mesmo destino, onde nos encontraríamos todos.
Como? No Terrano sem travões, mas sempre fiel…

O caminho para a Ponta fez-se (fi-lo) com mil cuidados devido ao problema com os travões, que se agravou logo nos primeiros quilómetros, ainda no alcatrão… Saímos de Maputo, em direcção a Boane e cortámos na direcção da Bela Vista, atravessando a Reserva dos Elefantes (não, não os vimos... apenas um polícia resolveu embirrar até aparecer o chefe), e seguindo por caminhos de areia, com diversos traçados paralelos, subindo e descendo… Tive um cheirinho do Paris (Lisboa) – Dakar, creio…

A chegada à Ponta do Ouro fez-se já de noite sem sobressaltos de maior. Após algumas tentativas infrutíferas para encontrar alojamento devido ao excessivo preço pedido (tendo eu recusado a ideia do campismo), acabámos por encontrar o Coco Cabanas. Preço acessível, condições plenas. Perfeito! Vim a saber mais tarde que este lodge até pertence a uns primos dos meus amigos P e David Barbosa…

As primeiras impressões que se retiram são de uma forte (esmagadora) presença de sul-africanos que fazem lembrar os ingleses em certos locais do Algarve e de Espanha… à procura de Sol, cerveja e sexo. Tem-se também a sensação, por isso, que é uma praia diferente de tudo o resto em Moçambique; que é uma espécie de Ibiza em ponto pequeno (ok, muitíssimo pequeno)… com direito a Café del Mar e tudo…

A dia de sábado foi longo… A chuva ameaçava, mas conseguimos ainda dar um mergulho e apanhar um pouco de Sol (que resolveu preguiçosamente aparecer por uns minutos), antes de tomar um pequeno-almoço à sul-africana (ou inglesa) cheio de proteína e colesterol…

À tarde, estivemos com a Nora e a Sophie (da Finlândia), o Noé (Moçambique), a Amy e o Jeff (ambos inlgeses), no pequeno jardim da casa que alugaram. Como a chuva passou de ameaça a realidade, passámos o tempo todo por baixo do enorme chapéu, distraidamente a ouvir música, a comer (chouriço e peixe assado, panquecas, what ever) e sobretudo a beber (cerveja, rum, what ever), conversando ora em português, ora em inglês, sobre tudo e sobre nada… Grande tarde de convívio e de interculturalidade…

À noite, a noite… A Ponta do Ouro tem uma série de bares bastante animados, de onde se destaca o Café Del Mar, onde terminámos a noite (eu, o Tiago, a Sophie e a Amy – os outros, ou tinham que ir mergulhar cedo de manhã como o Jeff, ou tinham mais que fazer… não é Ana/João e Nora/Noé?). Mas, antes do Del Mar, estivemos um bom bocado (ainda com o grupo todo) na praia, onde ouvimos, tocámos música e cantámos, para além de jogarmos Frisbee. Mais tarde, já sem a Ana e o João, fomos a um bar onde participámos todos no karaoke e descobrimos uma bela voz entre nós, a da Sophie… Sim.. eu, o Tiago e o Jeff ainda “cantámos” o New York New York do Sinatra… para desespero de muitos…

Depois de uma noite longa de muita festa, que ainda teve direito a umas tostas quentinhas, a manhã fez-se devagar, ao ritmo lento de um despertar a muito custo… ainda preguiçámos um pouco pela praia e saboreámos uns camarões antes de nos metermos à estrada.

O caminho deu para algumas fotos esplêndidas e muito boa-disposição… esquecendo a falta de travões e de combustível. Arriscámos, depois de muitos quilómetros feitos e o depósito já na reserva, por ir à vila da Bela Vista procurar gasóleo que, por acaso… havia… mesmo num Domingo à noite… em Moçambique!

Entre Boane e Maputo, ainda deu para nos assustarmos com um condutor alcoolizado de um camião, mas que felizmente desapareceu de vista. Chegámos a casa cansados, mas com enorme vontade de regressar à Ponta do Ouro, sempre!
Fim da composição...
(faltam fotos)

5 de abril de 2006

Previsível... mas sem vergonha!

Era previsível, não? O Benfica ultrapassar o todo poderoso e arrogante Barcelona? Não me parece... Não entremos em conspirações ridículas... o melhor passou, temos que admitir.
Não escreverei, por isso, sobre os "e se..."... Apenas escrevo, com orgulho, de poder ter assistido a este jogo ao lado do mítico Mário Coluna (o "Velho Capitão" a quem cedi a cadeira), a convite do benfiquista Rui Tadeu que é um dos grandes dinamizadores em Maputo das reuniões de "vermelhos". E eram mesmo muitos naquela sala do Ginásio de Maputo, a vibrar como se estivessem no estádio.
Aqui, ou em Lisboa, sinto-me em família e em comunhão total puxando pelo meu Benfica!
Parabéns Campeões!

31 de março de 2006

Cidade da Beira



Um dos prazeres deste trabalho é poder viajar e conhecer mais um pouco de Moçambique… sem ter que pagar. Desta vez, fui “obrigado” a voar para a Cidade da Beira, com uma agenda carregadíssima de reuniões e visitas.

Logo à chegada, a primeira surpresa: o aeroporto. De excelentes dimensões, comparável ao de Maputo, mas mais tranquilo. Antes de ir à cidade, estive algum tempo no Bairro do Régulo Luís, onde conheci algum pessoal da associação Trimoder e redesenhei a agenda de trabalho. Um bairro pobre, povoado de casas de cimento (poucas) e de madeira e zinco ou palhotas (a maior parte), perto do aeroporto e do Índico…

A chegada à cidade é acompanhada por um sentimento de deslumbre pelo traçado urbano relativamente moderno que, de alguma forma, ainda se vislumbra, apesar dos estragos ou da falta de manutenção.

A Cidade da Beira era conhecida pela sua importância económica no “tempo dos portugueses”, devido à sua centralidade estratégica (capital da Província de Sofala, na Região Centro, junto ao Índico) e ao seu porto e, mais tarde, também o seu aeroporto. O “Corredor da Beira” não ficava muito atrás do de Maputo, em importância económica; o seu porto era o mais importante, a estação de caminhos-de-ferro a maior (talvez mesmo de todo o império) do país/província; o seu traçado urbano estava ao nível do Primeiro Mundo…
Percorrendo o Posto Administrativo da Munhava... percebemos facilmente que a realidade é outra, bem mais difícil!

Com a independência e a guerra civil que se lhe seguiu, tendo a Beira como palco privilegiado e de vital importância político-militar e estratégica, o declínio foi-se instalando e tomando conta de edifícios e ruas, mas acima de tudo do orgulho e dos corações dos “beirenses”… assolados pela guerra, pela miséria e pobreza extremas, pelas cheias e períodos de seca (e agora até pelos sismos), pelo HIV/SIDA, pela cólera de tempos em tempos… e pela marginalização do poder central devido às suas simpatias por outras cores partidárias…

Pelas conversas que tive e pelo que fui observando nestes 3 dias, noto que há agora um lento emergir da cidade, administrativamente um município: o comércio floresce, os estrangeiros voltam, as condições sanitárias e de vida em geral melhoram… Teremos uma nova Beira dentro de poucos anos a acompanhar Nampula na concorrência saudável a Maputo?

Nestes 3 dias, pude conhecer algumas pessoas de que não esquecerei: o Sr. Trinta, o Sr. Ilídio e o Dr. Jorge; a Inês Brito; o Cedric Bernet, o Sr. Araújo (“Búfalo”), o Padre António… Mas, pude conhecer sobretudo gente resistente e cheia de esperança, onde a Beira, com as suas avenidas, praças, esplanadas, marginal, porto e praias não muito distantes tenham uma palavra a dizer no futuro de Moçambique. Sobretudo, porque esta cidade tem tantas crianças… (parecendo) tão felizes!

25 de março de 2006

Costa do Sol on fire

O apronto estava marcado para as 9h30. Consistia em juntarmo-nos na Av. Eduardo Mondlane, junto à Escola Primária 3 de Fevereiro, de onde seguiríamos para a Costa do Sol.
Depois dos atrasos habituais (coisa a que dificilmente me adapto e acomodo), conseguimos entrar em campo por volta das 11h45... Sim... 2 horas depois!
Entrar em campo, porque o que combinámos - eu e os activistas da Matola - foi precisamente uma futebolada na praia! Eu, o Tiago e a Clara de um lado; o Assimo, o Julinho e o Alberto do outro. Claro está, nem com as trocas entretanto registadas consegui vencer.
O calor era imenso e a água comia-nos o campo... Descansámos um pouco para retemperar as forças, até que chegam finalmente a Elizabeth e o Kevin (canadianos) acompanhados do Tom (inglês) que se revelam excelentes reforços!
A este grupo junta-se o Daniel, um dos moços que nos seguiam de perto acalentando a esperança de jogar. Grande reforço, este miúdo! Já antes tínhamos sido acompanhados pelo Vasco, o Joaquim e o Francisco que, para além de apanha-bolas, recriaram-se alegremente (sempre que possível) com a bola, esse objecto maravilhoso que o torna o Tempo um breve suspiro de felicidade...
Depois do esforço físico (não direi o resultado), juntámo-nos todos para um pic-nic à Costa do Sol: muita cerveja, shima e magumba (peixe) grelhada! Um grupo ao lado tocava e cantava.. logo começámos a descontrair. Claro está, os nosso amigos moçambicanos não perderam a deixa para dançar um pouco como só eles sabem fazer...
Deste lado, uma boa conversa com o Tiago, o Tom e o Kevin, todos com alguma ou muita experiência em ONGs... e histórias para relembrar!
Alguns outros moçambicanos, naquela sua foma descontraida de meter conversa e falar com estranhos, abordaram-me, apenas para me conhecerem. Foram eles, o Beto, a Fernanda e a Rehana. Ainda estranho estas aproximações, mas vou-me habituando!
Por volta das 16h30, estava de volta a casa... o trabalho não perdoa!

19 de março de 2006

Namaacha profunda...


Uma criança aparentemente frágil carrega o peso da injustiça do Mundo, a injustiça de quem não tem nada ou quase nada, de quem não tem tempo para brincar...

A vista é deslumbrante, o horizonte não tem limite, mas a esperança morreu há muito...

Um caminho côr de fogo que nos consome no vazio de chegar...


14 de março de 2006

Em busca do Bilene selvagem

De volta ao Bilene, sou surpreendido com uma proposta quase indecente: fazer campismo selvagem. Depois de muito amuar e rezingar com tanta ousadia (que colocava em causa a minha recentemente adquirida paixão pelo comodismo da hospedagem entre 4 paredes, se possível com ar condicionado...), lá me deixei seduzir...

Os 4 forasteiros atravessaram a lagoa de barco, com as suas mochilinhas de fim-de-semana, atravessaram o complexo do Girassol (seria a última oportunidade de os convencer, mas não cederam...) e chegaram ao lado de lá... para lá de coisa nenhuma...
Aos poucos, fomos sentindo que entrávamos em território inexplorado (pelo menos queríamos acreditar que sim...) e eis que Índico surge na nossa frente..

Apenas interrompido com alguns cabritos que teimavam contrariar-nos na nossa fé inabalável de sermos únicos...

Caminhávamos há algum tempo (ok... 40 minutos) quando encontrámos o nosso refúgio.. para pic-nicar e descansar... Vários banhos depois, algumas horas de sono reposto, pusemos mãos ao trabalho e montámos a tenda-maravilha.. Porquê? Porque é daquelas que se monta sozinha em 2 segundos... Sempre estávamos acompanhados de luxo... E eu com manias...

O jantar foi, como não podia deixar de ser, um grelhado de fazer inveja...

A pouca comodidade obrigou a madrugar... sobram as fotos do Nascer-do-Sol!

À partida, o olhar vago e perdido confirmava a saudade que se apoderava... voltaremos ao nosso ligar?

Nem que seja para fotografar os macacos que nunca deixaram de nos controlar à distância...




http://www.lostonearthfoundalive.blogspot.com/

6 de março de 2006

Um pouco de Nouvelle Vague


(feat. Camille, Nouvelle Vague)
(Orig.: Tuxedomoon)
In a Manner of speaking
I just want to say
That I could never forget the way
You told me everything
By saying nothing
In a manner of speaking
I don't understand
How love in silence becomes reprimand
But the way that i feel about you
Is beyond words
Oh give me the words
Give me the words
That tell me nothing
Ohohohoh give me the words
Give me the words
That tell me everything
In a manner of speaking
Semantics won't do
In this life that we live we only make do
And the way that we feel
Might have to be sacrified
So in a manner of speaking
I just want to say
That just like you I should find a way
To tell you everything
By saying nothing.
Oh give me the words
Give me the words
That tell me nothing
Ohohohoh give me the words
Give me the words
That tell me everything
Oh give me the words
Give me the words
That tell me nothing
Ohohohoh give me the words
Give me the words
That tell me everything

26 de fevereiro de 2006

Sismo em Moçambique!



O Terramoto (7,5 na escala de Richter) que abalou Moçambique na madrugada de 5ª feira fez pelo menos dois mortos e 28 feridos, segundo os noticiários.

"O primeiro abalo registou-se à meia-noite local e foi seguido de duas réplicas, algumas horas depois, sentidas sobretudo nas cidades de Maputo e Beira. O Centro de Vigilância Geológica dos Estados Unidos anunciou que o sismo ocorreu na província de Manica, norte de Moçambique e perto da fronteira com o Zimbabwe, uma região habitualmente com pouca actividade sísmica. A maioria do território sentiu o abalo, tendo parte da população de Maputo - situada a cerca de mil quilómetros para sul do epicentro do sismo - saído para as ruas. Para muitos dos habitantes da capital, este é o primeiro sismo na zona de que se recordam". Fonte: SIC Online
Pode parecer estranho, depois de ler estes parágrafos, mas, de facto, até estava acordado a essa hora e não senti nada... Estava deitado na cama, um pouco indisposto (ainda a recuperar da intoxicação alimentar de 2ª feira), ouvi o estremecer das árvores, os cães da rua agitados, mas tremer a bom tremer... nada... Ainda bem!
Só soube de manhã, por um colega e logo cedo comecei a receber mensagens de Portugal a perguntar se estava bem. Não se falou de outra coisa durante o dia e os relatos eram, mais coisa, menos coisa: "O meu marido diz que pensou que eu estivesse a tremer", ou "Mas não bebi assim tanto para ver as coisas a tremer!", ou "Vi a cama a tremer e corri logo para fora de casa!", ou "Foi um festival de strip-tease, elas de mamas ao léu e a vestirem-se na rua, eles de lençol ou capulana enrolada!", ou "Estavam todos os moradores na rua!"...
Parte destes comentários foram-me fornecidos pela minha amiga Danila, logo nesse dia por telefone. Enfim, um pouco de humor, no meio da desgraça do sismo, que só não foi maior por ter o epicentro londe de áreas habitadas...
De vqualquer maneira, há mais de 100 anos que não se fazia sentir um sismo destes aqui em Maputo, o que me leva a concluir que estarei numa zona segura...

24 de fevereiro de 2006

Um passeio pela Baixa

Hoje foi dia de passear pela Baixa e visitar alguns dos lugares turísticos e "bonitinhos"...


Estação de Caminhos-de-Ferro de Maputo

Banca de Fruta no Mercado Municipal

Jardim em Maputo

Estátua do Presidente Samora Machel



Centro Cultural Franco-Moçambicano

Conselho Municipal da Cidade de Maputo

Catedral da Cidade de Maputo

A verdadeira Baixa fica para outro dia...

19 de fevereiro de 2006

Marloth Park, here I am again!


Na quinta-feira, ao fim da tarde, dia 16, juntámo-nos aos amigos Danila, P e Mauro, em casa destes, para partirmos juntos para a casa que têm em Marloth Park, junto ao Krugger Park, na África do Sul.

Marloth é um parque / condomínio, com cerca de 3 km de largura por 14 de comprimento, onde, sobretudo, muitos sul-africanos têm a sua residência de férias, no meio da natureza tendo por vizinhos, tanto humanos, como outros animais… Kudos, gnus, gazelas / impalas, zebras, javalis, macacos, girafas, hienas, répteis e insectos de vários tamanhos e feitios. Há quem já tenha visto perto das casas, noutros tempos, também leopardos e leões e até mesmo elefantes. Os crocodilos e os hipopótamos, felizmente, ficam-se pelo rio, a umas dezenas de metros, mas do outro lado da rede… já no Krugger!

Chegámos à noite, tendo a curta viagem de 130 km sido interrompida apenas na fronteira (onde avistámos um escorpião preto junto ao edifício sul-africano) e numa estação de serviço / supermercado uns quilómetros à frente…

A Clara adorou a casa… eu já a conhecia de há 3 anos e mesmo assim não deixou de me maravilhar… Aquele telhado de colmo, a varanda de madeira em cima, a sala confortável, as fotografias de meter inveja aos repórteres da National Geographic, a decoração africana, a piscina….

Na sexta-feira, saímos cedo para Nelspruit, uma cidade a cerca de 100 km, com uns 300 mil habitantes, que vive sobretudo dos serviços (turismo e comércio) e da agricultura. Resumidamente, pela organização, qualidade de construção, limpeza, etc. é “primeiríssimo mundo”. Não há cidades portuguesas que atinjam esta excelência no seu todo…

Foi um dia especial para o Mauro, pois finalmente tirou o seu aparelho dentário fixo. O sorriso que demonstrou ao entrar numa daquelas máquinas automáticas de retratos (em vez de foto, sai retrato ou caricatura!!) e que tanto nos fez rir junto ao Nando’s, onde almoçámos.

Depois de umas horas pelo Centro Comercial e Supermercado, regressámos a Marloth, onde desfrutámos da mais que desejada piscina… Um fim de tarde junto ao Krugger, dentro de uma piscina iluminada pelo pôr-do-sol está perto de ser o paraíso… À noite, alguns trovões, as boas-noites dadas pelos vizinhos hipopótamos e um silêncio africano que nos embala no sono profundo…

Ontem passámos o dia entre a piscina e um passeio pelo parque em busca de animais para fotografar e admirar… Vimos do outro lado do rio alguns hipopótamos e macacos. De um lado e do outro, as sempre presentes impalas. Do nosso lado, zebras e javalis.

Alguns familiares da Danila, de Lisboa e Maputo, fizeram-nos companhia (no seu passeio viram um elefante!) e, sem dúvida, o grande momento acabou por ser a simpatia de uma zebra (ou melhor, de um zebro!) que se dirigiu a nós para lhe darmos comidinha na boca. O sortudo teve direito a pão de forma, integral e tudo!

À noite, depois de muita e boa conversa, petiscos e bom vinho sul-africano (não pude abusar por causa de mais alguns problemas de barriga), adormecemos a ouvir 2 leões a rugir ao longe…

O dia de hoje foi passado também entre a piscina e um passeio para mais observações. Desta vez, um crocodilo, do outro lado. Do nosso, a novidade foi um Kudo fêmea. Sem mais novidades… Os leões, elefantes e outros ídolos dos safaris ficam para a próxima!

No regresso a Maputo, o sentimento foi de pena por não ficarmos mais uns dias…

Obrigado, Amigos… mais uma vez!



(Faltam fotos)

12 de fevereiro de 2006

Pelos trilhos da Zambézia... ou em busca do Monte Rurrupí


Na sexta-feira, dia 10, levantámo-nos cedo para apanharmos o avião para Quelimane, capital da Província da Zambézia, a mais populosa do país... A Clara tinha que se deslocar a uma escola marista no Nivava, Distrito do Alto do Molócuè, para se reunir com a equipa local... e escolhemos este fim-de-semana para fazê-lo. Foi uma viagem inesquecível para os dois...

Na sexta-feira, começara a chover apenas há 3 horas e Maputo era um mar de água. Nunca vi nada assim. As ruas eram rios, onde alguns carros avariavam, aumentando ainda mais a confusão... Dizem que na Baixa a água já estava ao nível da cintura! Nem quero imaginar o que seria se chovesse assim durante dias seguidos! Todos têm na memória a catástrofe de 2000, sobretudo...

A uns 300 mt do aeroporto também o nosso carro avariou, porque a água entrara no tubo de escape. O Sr. Ginito que nos conduziu bem que tentou pô-lo a trabalhar, mas não havia hipótese. Felizmente, debaixo daquele temporal, ainda conseguimos uma boleia de um desconhecido simpático que também se dirigia ao aeroporto. Ainda bem que estávamos tão perto!

Com 1 hora de atraso na partida lá voámos para Quelimane. A aproximação a esta cidade confirma a fama de ser a capital da província dos coqueiros. São quilómetros de perder de vista com esta árvore...


À chegada ao aeroporto de Quelimane, tínhamos à nossa espera o nosso motorista contratado, o Sérgio, e o Irmão Sanasana que veio receber a Clara e que iria também partir connosco para a Alta Zambézia.

Depois de resolvidas as questões burocráticas relativas ao aluguer do jeep e de um almoço rápido servido em casa dos Irmãos Maristas, arrancámos para o Nivava, no Distrito do Alto do Molucué, a cerca de 400 km de Quelimane. Não sem antes telefonar à minha maninha que fez 28 aninhos!

À medida que nos afastámos da cidade, uma nova realidade se nos foi deparando: coqueiros de perder de vista (nos primeiros quilómetros) e gente, ora a pé ora de bicicleta, aos milhares, ao longo do todo o trajecto. É um povo que se move constantemente, este, o Africano… Caminham quilómetros por dia com uma leveza que nos inquieta… como se fosse assim natural terem que fazer horas e mais horas de caminho por dia, na maior parte descalços, para vender ou comprar qualquer coisa…

Depois, outra constatação: este é o país das camisetes (t-shirts)! Ganham as camisetes alusivas a Guebuza (Presidente) e Frelimo às desportivas? Fica a dúvida… Nas desportivas, ganha o meu Benfica que se vê um pouco por todo o lado, à frente dos ídolos de ascendência africana Michael Jordan (NBA), Ronaldo, Ronaldinho, E’too, Drogba, Henry… e de outros grandes clubes como Manchester, Real Madrid, Barcelona, Arsenal, Chelsea, Sporting, Porto… os outros mais vistos. Dentro das camisetes da música, Michael Jackson e Bob Marley têm ainda grande sucesso, mas 50 Cent, Eminem e outros na linha do rap e hip hop passam à frente!

Outra realidade: a degradação da estrada que, a certa altura praticamente deixa de o ser… o que nos leva quase a fazer apostas para descobrir algum alcatrão…
O Sérgio, como em todo o fim-de-semana, manteve-se sempre sereno… fruto de muitos anos a fazer estas estradas como motorista!

A meio caminho, uma paragem em Mocuba para retemperar forças… Paragem obrigatória: Pensão Cruzeiro (Alojamento, Bar e Restaurante)! Uma pequena vila de passagem e paragem de viajantes …

À saída da vila, deparamo-nos com uma aglomeração de gente na ponte sobre o rio Licungo… Todos observam e esperam pelo próximo passo de um crocodilo deitado numa pedra da margem do rio e que parece preparar-se para atacar uma espécie de cegonha que está próxima. Não ficámos para ver o resultado!

À medida que nos aproximamos, a paisagem altera-se, ganhamos altitude e o horizonte é cada vez mais deslumbrante! Ao longe, de um lado e do outro, avistamos alguns montes arredondados. Entramos no Distrito do Alto do Molucué, onde, à beira da estrada, paramos para comprar alguns ananases…

A uns 20 km da cidade do Alto do Molucué, viramos à esquerda para um último troço, já sem luz do dia, até à Missão Marista… Estes quase 10km de autêntica perícia do Sérgio, tamanhos são os buracos (crateras?) e os obstáculos… Alguns raios caiem ao longe… Uma cobra atravessa-se pelo caminho, mas o Sérgio evita passar-lhe por cima para não apanhar doenças (quereria dizer feitiços?)… Chegámos por volta das 19h40!

A Missão que serve esta comunidade há cerca de 50 anos está instalada na Região do Nivava, ou seja, naquilo a que se chama o “sítio onde o diabo perdeu as botas…” São 200 hectares de terra cultivada (a machamba tem milho, mandioca, café, feijão, batata, etc.) ou por cultivar, mato, 1 quinta com animais (coelhos, galinhas, porcos, patos), instalações dos Irmãos, 1 Escola, 1 carpintaria, clínica, moagem, campo desportivo… Fomos muito bem recebidos pelos irmãos, Pascual (espanhol) e Zeferino (brasileiro). Boa comida, boa conversa e grandes lições de humildade, altruísmo e coragem…

No sábado de manhã, aproveitámos para conhecer a machamba, depois de algum descanso da minha parte. À tarde, fomos à vila do Alto do Molocué, onde acabámos por passar mais tempo no Centro de Saúde (a Clara acusou o calor e a adaptação difícil a estas comidas e águas e sentiu-se bastante mal) do que em visitas… A vila parece ainda mais perdida no tempo do que tudo o que vi até aqui… À noite, depois de jantar e de levarmos o Irmão Sanasana a casa da família… uma boa conversa sobre futebol… e a Clara a demonstrar melhoras! Depois de jantar, ainda deu para um susto com uma cobrita enrolada num vaso da varanda. Adormecemos ao som de alguns relâmpagos e outros barulhos próprios do mato…

Esta manhã, partimos cedo, a Clara aliviada, eu um tanto ou quanto orgulhoso por ter conhecido um sítio perdido no fim do mundo, mas tão real… Passámos pela Catedral do Molucué (uma enorme catedral… sem bispo, mas com uma vista absolutamente deslumbrante sobre a região) para irmos buscar o Irmão Sanasana… Entrámos, sem adivinharmos que iríamos viver um daqueles momentos mágicos: uma missa em dialecto acompanhada por cantos e batuques africanos que nos arrepiaram completamente…

Toda a gente não deixou de mostrar a sua curiosidade pelos dois brancos que surpreenderam a comunidade, fitando-nos por largos minutos… até que o Irmão Sanasana satisfez a curiosidade de geral e nos chamou para a frente do Padre, apresentando-nos em dialecto e português… Claro que saudamos e agradecemos todos os presentes … É um daqueles momentos que não esqueceremos!

A viagem de regresso fez-se muito bem, a ouvir música gravada no leitor mp3 (Pixies, Franz Ferdinand, Radiohead, Placebo, David Bowie, The Gift, Divine Comedy, The Strokes, Rodrigo Leão, Adriana Calcanhoto, …) Que saudades! Enfim, depois de algumas horas a ouvir “passada”, “marrabenta”, “brasileirada” e hits da discoteca do último Verão disponibilizados pelo Sérgio, já nos apetecia qualquer coisa mais próxima… mesmo (ou sobretudo) no contexto africano… profundo!

A chegada a Quelimane foi dentro da hora prevista. Deu para beber duas cervejinhas, descansar e últimas conversas. No caminho até ao aeroporto, confirmámos a boa organização e limpeza desta cidade. Bela surpresa… talvez porque não sofremos com o calor e humidade que normalmente se fazem sentir! O abraço final ao Sérgio foi a confirmação de uma bela amizade que se desenvolveu… naturalmente! Obrigado, Sérgio!