18 de junho de 2006

Artesanato de Maciene


Aqui fica o convite: venham a Maciene!

Maciene é uma pequena aldeia uns 30 km a Norte da Cidade do Xai-Xai, na Província de Gaza (Sul de Moçambique).

Nesta aldeia podemos visitar um projecto de desenvolvimento comunitário através do ensino da arte, utilizando unicamente matérias-primas naturais e locais...

Com o apoio da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), um grupo de jovens aprende a criar tecidos a partir de frutas locais ou até mesmo do plástico. Aprendem técnicas de tecelagem, pintura em tecido e criam arte ao natural...

17 de junho de 2006

Casa


Casa

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão…

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.
(Excerto de Infinito Pessoal ou a arte de amar, de David Mourão-Ferreira)

Pele...



Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele
(excerto de Do Tempo ao Coração, de David Mourão-Ferreira)

Até sempre... Nora!

Algumas dezenas de amigos nesta última noite de convívio com a Nora em Maputo...
O Cine África nesta noite foi cenário de um filme muitas vezes vivido entre este grupo de "amigos" (com aspas e sem aspas) que se fundiram inúmeras noites numa só cor, a da alegria...
Nestes meses, a Nora foi uma das belas amizades que fiz e com quem partilhei bons momentos aqui contados... É a primeira que parte... e sei que um dia voltaremos a ver-nos!

11 de junho de 2006

Espírito de missão…

Decorreram pouco mais de seis meses desde aquele quentíssimo dia em que cheguei a Moçambique, em meados de Novembro último, para chefiar a Missão dos Médicos do Mundo – Portugal neste país. Parece ter decorrido mais tempo… Não era a primeira vez cá e, por isso, não houve o “choque” partilhado por muitos da confusão e miséria generalizadas, que nos assaltam à primeira investida em África; do calor, luz, cor, sons e cheiros que nos relembram sentidos e instintos julgados esquecidos ou ténues.
Porém, ultrapassado esse “choque” aquando da primeira estada, outros sobejam para nos testar a cada dia que passa. Testar sobretudo as nossas capacidades (intrínsecas ou desenvolvidas) de resistência, adaptabilidade, sacrifício e imaginação; bem como colocar à prova o verdadeiro espírito de equipa e de entreajuda, quando meios e recursos são quase sempre escassos…
A palavra “missão” apela a uma espécie de incumbência de natureza divina, no espírito das missões cristãs que propaga(ra)m a fé entre “povos à margem da civilização” ou ditos “infiéis”, desde os Descobrimentos. Esta acepção redutora da palavra não se coaduna obviamente com a tarefa/cargo que me propuseram (e a que me propus).

Neste âmbito, contudo, dadas as dificuldades com que nos deparamos, é, por vezes, difícil contrariar a tendência (presunçosa e naïve… convenhamos) para nos sentirmos de alguma forma também “missionários”… no que de mais nobre se depreende da sua acção puramente altruísta.
É uma apropriação errada, bem sei. Somos “apenas” funcionários com um papel bem definido numa estrutura hierárquica e organizada e, passo a redundância, funcional. Conduzimos e gerimos projectos em equipa, administramos e conservamos fundos e recursos, orientamos equipas e motivações, distribuindo tarefas, mas também incentivos. Trabalhamos com regras de funcionamento e de relacionamento institucional que são claros e que se regem pela prática internacional da cooperação para o desenvolvimento e das ONGD em geral. Tudo parece caber num qualquer manual de gestão do ciclo do projecto ou de práticas organizacionais e afins formatadas em escritórios distantes. Mas, apesar de tudo, por que razão não deixamos de nos sentir “missionários”?

Numa pequena dissertação desinspirada como esta não cabem muitos exemplos para sustentar este sentimento que perpassa de forma geral os funcionários das ONGs em missão externa nos “Países do Sul”. Neste contexto, independentemente da grandeza, das capacidades financeiras, dos resultados e visibilidade da organização em que se encontra, o funcionário cooperante é assolado quase diariamente (dependendo do seu envolvimento específico) pela surpresa e inconstância que contrariam formatações e sistematizações. Nada pode ser tido como certo até vermos com os próprios olhos. Nada pode ser tido como provável, porque a sua concretização é um mar extenso e cheio de correntes e ventos contrários. Quando julgamos que já vimos tudo, nasce um novo dia, e outro de seguida, rindo-se de nós pela ingenuidade de acharmos que temos a resposta certa, a metodologia apropriada. Por acharmos que o “nosso” sistema é o que melhor se encaixa e ajuda a melhorar processos. Claro que temos razões para pensar dessa forma, então não é esse sistema que nos resolve os problemas há anos e está mais que testado nos países de onde partimos? Não é isso que esperam de nós?
Pois não… há “o contexto e os aspectos sócio-culturais”, dizem alguns. Há “os estádios de desenvolvimento e o papel diferenciado na economia internacional”, dizem ainda outros. Existem dissertações, investigações, triliões de páginas escritas, do científico ao literário, que nos aprestam para esta “realidade”. Mas, por que raio este sentimento nos invade? Por que razão, apesar das contrariedades, tomamos a nossa tarefa como uma “missão” obrigatória que nos toma de assalto e nos despoja de certezas e orgulhos, ao mesmo tempo que nos dá festas na alma?
Cada vez que nos deparamos/exaltamos com as (in)esperadas incompetências, inoperâncias e corrompimentos vários, julgamo-nos definitivamente superiores ou caímos numa letargia pessimista e generalista… E, logo somos confrontados com pequenas lições de humildade, de criatividade e imaginação na(s) resposta(s), de desafio ao que temos como certo e insofismável, linear e coerente. Logo somos confrontados com um sorriso ou um olhar genuinamente fotogénicos, presos a um corpo doente (ou não) que nos reconduzem para a “missão”, como tábua salvadora (e redentora) a que nos agarramos. Depois, e para lá disto, as nossas vidas são já apenas fumaça acinzentada, de tão previsíveis e estereotipadas.

Há-de vir (expressão moçambicana) o dia em que eu realmente encontre a resposta dentro de mim, mas partilho convosco uma tentativa/aproximação: talvez África seja uma velha sedutora, farta e aconchegante, com o elixir da juventude e máscaras convenientes, que nos obriga a ousar e a pensar de forma diferente e a encontrar o nosso verdadeiro “ser” desde as remotas raízes… que outrora geraram frutos espartilhados. Deixemo-nos seduzir, então…

10 de junho de 2006

Dia de Portugal

Um Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, passado fora do país tem sempre um cariz especial. Não costumo muito ligar a estas coisas, mas não sou completamente “ateu”!

Já ontem, na recepção do Embaixador de Portugal em Moçambique, nos jardins da sua casa, onde estive com alguns amigos, colegas e pessoas conhecidas, tive esse sentimento de pertença… a uma comunidade. Ainda mais, porque acabo de regressar de um mês de férias em Portugal e a “portugalidade” ainda está tão presente…

Apreciei o gesto do Ministro da Saúde de Portugal ter vindo cumprimentar cada um dos membros do grupo onde me encontrava, bem como de ver o Maestro Victorino d’Almeida ao lado do pintor Malangatana, sentados a conversar como dois velhos conhecidos que são…

Ora, estas duas figuras foram hoje centrais no Concerto de Gala das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, no Centro Cultural Universitário da UEM, onde me desloquei com o meu amigo João. O primeiro, pela sua presença e apoio a um evento de música clássica de excelente nível; o segundo pela homenagem sentida de um grupo coral moçambicano que actuou no fim… acompanhado por um público entusiasta que se rendeu à fusão de Mozart, Rachmaninoff e canto tradicional moçambicano…

Obrigado!