14 de setembro de 2007

Aí está mais um DOCKANEMA!

"Maputo acolhe a segunda edição do festival de cinema documentário.

A capital moçambicana, acolherá de 14 a 23 de Setembro a segunda edição do festival internacional do cinema documentário, «Dockanema», que contará com a participação de vários realizadores portugueses.


Durante o evento, serão apresentados os filmes Doutor Estranho Amor, de Leonor Areal, 25 de Abril uma aventura para a democracia, de Edgar Pêra, e Esta Televisão é a sua, de Mariana Otero.Também serão projectadas as películas Margens e Fragmentos Entre Tempo e Anjos ambos do realizador português Pedro Sena Nunes, além de Cartas de Amor, de Inês de Medeiros e A Noite do Golpe de Estado de Ginnete Lavigne, que conta a história da revolução de 25 de Abril de 1974 em Portugal. O festival terá como figura de cartaz o filme Ngwenya, o Crocodilo, que retrata as novas e desconhecidas dimensões da personalidade do mestre das artes plásticas moçambicanas Malangatana Ngwenha, bem como os Hóspedes da Noite, do moçambicano Licínio de Azevedo.

Será exibida ainda a célebre obra Bamako, do realizador Abderrahmane Sissako, do Mali, que é um dos convidados de honra e que irá abrir o festival. Um comunicado da organização indica que além dos filmes de diferentes origens a serem projectados também ao ar livre em 16 bairros da área de Maputo, o Dockanema apresentará um fórum, uma série de seminários e painéis, com vista «a estimular o debate em torno de assuntos pertinentes à arte e técnica da produção do cinema documentário». A mesma nota refere que se pretende aproveitar a presença em Maputo de realizadores e profissionais de cinema de renome neste encontro, descrito como uma «oportunidade para os cineastas locais e regionais ampliarem os seus conhecimentos, competências e contactos profissionais». «Os objectivos expressos pelos organizadores e parceiros do Dockanema são de divulgar o cinema, em particular aquele que vem de África, de promover a produção moçambicana, e de mostrar o papel importante do documentário - o cinema da participação do cidadania - na formação duma nova geração educada e preparada para se envolver mais na sociedade, para ser mais cidadã», justifica a organização do festival.

Também estarão patentes documentários de duas mulheres zimbabueanas, «muito diferentes e activistas contra o HIV/SIDA» e «protagonistas corajosas» do filme Growing Stronger (Mulheres de força), do realizador Tsitsi Dangarembga. O filme aborda o dia-a-dia de duas mulheres de estatuto social diferentes, que usam a sua experiência com a doença como um fórum para a educação pública e a consciencialização, lê-se no mesmo comunicado. As protagonistas do filme, Tendayi Westerhof e Tsitsi Dangarembga também estarão presentes em Maputo, para participarem num debate público sobre a luta contra o estigma e a discriminação de pessoas portadoras do vírus do Sida."




Para mais informações: http://www.dockanema.com/


Parabéns Pedro! Parabéns Paola e Jaime!

6 de setembro de 2007

Praia do Wimbe

Tem nome de “Uau!”, não tem? Quando dizemos “Wimbe”, não dá logo vontade de o repetir histericamente, como acabássemos de dar uma daquelas mais altas que o Evereste? Pois... mas não me apetece escrever sobre as maravilhas de estar no Dolphin e dar um mergulho logo em frente para ver corais...

O cenário difere um pouco, mas o contexto é sempre o mesmo. Lugares turísticos com estrangeiros mais ou menos endinheirados. Seja na Julius Nyerere de Maputo, na Baía dos Côcos ou no Tofo, na Ilha de Moçambique ou do Ibo, aparecem-nos estas crianças de rostos lindos, sorrisos contangiantes e olhares meigos. Uma mistura de carência de afecto e tentativa de reconstrução de uma infância mal vivida, desnutrida, eterna, com uma perda de inocência que nos atropela e assusta, na partilha comum das piores das malícias. Tanto nos solicitam um pouco de atenção e uma mão dada, como de seguida nos assaltam, de forma literal ou na forma tradicional da mão estendida, acompanhada de uma inequívoca frase: “Tenho fome”, “Estou a pedir” ou “Peço 5... ou 10”...

Por vezes, têm algo para dar em troca, como um colar, fruta, castanha de cajú, uma dança, ou apenas o seu sorriso... Muitas vezes, não têm mesmo nada que trocar. Só a temível certeza que também eles, como grande parte dos adultos, de todas as classes, estão corrompidos pela preguiça, por todos os danos colaterais e directos da Pobreza (absoluta e relativa) que minaram várias gerações (futuras também) acomodadas ao acto de pedir. A nós brancos, todos iguais, que somos ricos e temos tudo, na óptica deles, se calhar correcta. E temos a obrigação de lhes dar. Aos portugueses, para além de pedir, há que extorquir, não sei se por decreto, como se assim se pagasse uma dívida que os nossos antepassados (que também são os de muitos dos moçambicanos que nos “cobram”) deixaram acumular e que sempre cresce, nunca é perdoada.

Pobreza e corrupção são indissociáveis e quase não nos parecebemos onde começa uma e termina a outra. É tranversal nesta sociedade e adquire diferentes tonalidades, umas mais directas, outras mais subtis. Mas, desde o Presidente 24/20 (com as suas participações em pelo menos 23 grandes empresas – incompatibilidade, quê?) ao miúdo que pede na rua, muitos são os que estão enlameados pela corrupção mental que os nega enquanto seres humanos.

Enquanto o lema deste país for pedir e parasitar a todo o custo, dificilmente alguma estratégia de desenvolvimento (lhes) sobreviverá... neste país necessariamente tido como o bom aluno, o exemplo conveniente para a ajuda pública ao desenvolvimento, que esconde os interesses nas riquezas redescobertas...

Poderei algum um dia avistar daqui do Dolphin algum poço offshore de exploração petrolífera?

5 de setembro de 2007

De regresso...

De volta à escrita em viagem, em trânsito, sozinho. De volta a Pemba. Um velho hábito agora retomado, de forma intermitente e tímida. A última vez foi no Intercity Plus entre Roma e Napoli, em Dezembro. Era um hábito que servia sobretudo para aproveitar as horas mortas e descarregar, quer fosse na interminável viagem de expresso entre a Marinha Grande e Braga, quer fosse nas curtas viagens de comboio entre a primeira e a Figueira da Foz, ou mais tarde entre Lisboa e Santarém. Escritas esporádicas. Desabafos. Auxiliares de memória. Ideias de escrita. Frases soltas. Versos que nunca chegaram a ser poema...

Agora é a vez deste cansado Boieng 737 da LAM me levar em 2h30m até à capital da Província de Cabo Delgado. Outra vez...

Aproxima-se a partida deste país. Até que enfim, repetirei nas próximas semanas a mim mesmo, estou certo, convencido que vou para algo de melhor, que tudo tem um fim e o seu tempo próprio. Que esta foi só mais uma etapa, uma experiência como abusivamente lhe chamamos. Faltam algumas semanas (mais do que as que tinha previsto), mas já sinto a aproximar-se o fechar de um ciclo profissional e pessoal, em que já nada será igual. É um alívio, ao mesmo tempo, sem dúvida! Não que isto tenha sido tão mau assim, antes pelo contrário. Foi um teste à minha capacidade de sobrevivência, sobretudo de mim mesmo. Foi uma prova de resistência.

É um alívio, porque creio sair no momento certo. Profissionalmente, porque já chega de gerir o caos e devo ser mais exigente comigo mesmo e não é aqui que vou encontrar o que procuro. Como diz a criatura "sinistra" (que por acaso tem nome e chama-se Joe Berardo), "quando nos apercebemos que tudo depende de nós para funcionar, é porque está na altura de sair"... Pessoalmente, porque Moçambique desconcertou-me o suficiente para precisar agora de planar noutras paragens e perceber se esta agitação e inquietação são apenas "side effects" da experiência africana ou algo mais...

Fazer estes 3.000 Km até Pemba (que equivalem a um vôo entre Lisboa e Copenhaga) é como engolir de um trago só um país inteiro, tão farto, lindo e cheio de contrastes, mas ao mesmo tempo já tão único e uno (creio)... É claro que aqui de cima, nas nuvens, não interessa nada, porque não o conhecemos de verdade, não sentimos os cheiros, não vemos as cores, não tocamos... Mas, a violência de quase três horas para ir de uma ponta a outra no mesmo país é suficiente para sentirmos e entuirmos da sua enorme existência como tal e nos absorve por completo.

Não sei se é despedida, mas este regresso a Pemba, ao Ibo, às Quirimbas, o último abraço ao pessoal da Médicos del Mundo - España (Viola, Fernand, Nico e Marina) e da Fundació Ibo (Luís e Isabel), já vem carregado de saudade. Já sinto a falta que este país me vai fazer, afinal, dentro de uns meses. As suas cores, cheiros e sabores. As suas mulheres, "pedaços de mau caminho", mistura na exacta medida e proporçãao de africana, árabe, indiana e portuguesa, que nos provocam com olhar felino e corpos "provoquentes". Os seus sabores (os de Moçambique agora) de fruta, do marisco e peixe, da sua cerveja (tem dias - hoje gosto de todas, mas a Manica e a Laurentina, à sua maneira, não se esquecem). Os sorrisos contagiantes... quando não são movidos pela corrupção mental que a pobreza produz. A sua música. Que saudades vou ter do João Paulo, do Carlitos Gove, do Jorge Domingos e do Maculufe juntos no Gil Vicente, ao sábado à noite... Dos
Timbila Muzimba e dos Kakana. Dos inúmeros concertos de música tradicional, de marrabenta, de afro-jazz, de blues, de fusão, de reggae no Shima, no Gil, no CCFM, no Núcleo de Artes (um beijo, Tina), no África... Das excelentes exposições de pintura, de fotografia e de escultura que por cá se fazem. Das sessões irreverentes (e quase expontâneas) de poesia. Do teatro e da dança. Das expressões peculiares mas deliciosas que ouvimos todos os dias: "Ainda...", "Estou maningue busy", "Está full", "É láaaaaaaaa", "São duas horas de tempo", "Há-de vir", "Não tem problema", "Afinal!?", "Não é?!"... Que saudades vou ter das conversas e da forma simples como, sem maneirismos e vaidades intelectuais, nos levam a descobrir diferentes maneiras de ver o mesmo.

Apesar de ter posto os pés em todas as províncias, de ter estado em tantos sítios, muitas vezes repetidos, não cheguei a conhecer as cidades de Chimoio, Tete e Lichinga, realmente. Não fui a Bazaruto. Não percorri o Parque Nacional do Limpopo. Não fui ao Lago Niassa. Não cheguei a subir o Monte Namuli, no Gurué. Não fui a Cahora Bassa. Não conheço a costa da Zambézia (nem tantos dos 3000 km que esta tem). Não andei de comboio. Não tantas outras coisas... Talvez fiquem para uma próxima vez. Guardo, no entanto, cada centímetro de terra que percorri e todas as suas memórias, nem sempre fotografadas. A maior parte do que ingeri ainda está por digerir e por isso não transmiti (descrevi) ainda... É uma amálgama de imagens e de sentimentos ainda por ordenar, por arrefecer e daí retirar o que tem realmente importância. Daí retirarei as lições que farão de mim o Homem a que quero chegar antes de morrer...

Os momentos maus, de enorme stress e desgaste, de frustração por tentar mudar o que é imutável, de desilusão, de perda e de vontade de desistir foram obviamente muitos... Quase 2 anos depois, muita ingenuidade e ilusão se perderam, quem sabe irremediavelmente. Mas, isso é o crescimento forçado a que África, mas sobretudo o (per)curso normal da vida, nos obrigam, desde que não estejamos enclausurados num mundo que julgamos ser aquele que apenas alcançamos a olho nú... E ainda bem que é assim, pois entre o importante e o acessório, a distância já não é tão ténue.

Na primeira vez que cá estive levava na bagagem a certeza que voltaria. Agora creio levar o mesmo “mal”. Quando? Não importa... Tudo o que levar, por agora certezas, só o tempo lhe dará a sua verdadeira face, essência e dimensão. É deixar seguir e estar descansado, porque o que é para vir a seguir, “há-de vir”...

4 de setembro de 2007

Só com portugueses não vamos lá…


Este título é baseado na resposta dos Gato Fedorento aos cartazes desse partideco de extrema-direita que, há uns meses, espalhou por Lisboa umas mensagens anti-imigrantes, estupidamente no sentido inverso do evoluir e pulsar de um Mundo que cresce e se desenvolve na exacta medida em que é mais tolerante e promove o talento daqueles que ousam pensar de forma diferente e progressista.

Nos quase dois anos que levo de Maputo, para além de, obviamente, poder ter uma ideia um pouco mais aprofundada dos moçambicanos de hoje – alguns dos seus costumes e idiossincrasias próprias, virtudes admiráveis e defeitos absolutamente insuportáveis e (surpresa?) incrivelmente stressantes – julgo ser melhor conhecedor também dos próprios portugueses, assumindo o risco redutor da generalização…

Estou convicto que a(s) comunidade(s) portuguesa(s) em Maputo têm todas as características para servir de case study. Existem diferentes portugueses por aqui: diferentes maneiras de estar na vida, valores, ambições, posturas face ao outro em geral e aos moçambicanos em particular.

Mais especificamente, tive oportunidade de conhecer portugueses como eu, com menos ou pouco mais de 30 anos, formados, com acesso (supostamente) privilegiado a informação e conhecimento, mais ou menos bem identificados e integrados neste contexto, com mais ou menos consciência das razões de estar aqui e do que fazer entretanto…

Conviver com portugueses fora de Portugal é a melhor maneira de nos conhecermos. Talvez seja porque usufruimos do efeito comparativo ou talvez seja porque apuramos as nossas características identitárias fora do habitat natural. Talvez sejam as duas coisas. Como já é a minha segunda experiência duradoira fora do país, qualquer tipo de reflexões e constatações nesta matéria não é surpreendente, antes pelo contrário. Não me admiram, por isso, alguns comportamentos típicos lusos de mesquinhez, inveja, provincianismo, interesseirismo, intriga, enclausuramento mental e físico, alguma falta de valores e de educação, independentemente das habilitações e/ou origem social, que grassam nesta geração, por algum motivo apelidada de rasca. Tenho pena, mas, como tenho também por lema não perder tempo com quem não me interessa estar, é quase como mudar de canal de televisão e escolho estar com quem posso aprender e desfrutar de forma tranquila e sem preconceitos… sendo ou não portugueses.

Grande parte deles têm um blog. Alguns até estão com uma boa escrita (entre o filosófico e o intra-pessoal); mas, na sua maioria, não passam de uma espécie de diário fútil de viagens e fins-de-semana (sempre aos mesmos sítios turísticos), em que supostamente tentam demonstrar aos outros e a si mesmos que vivem em busca do autêntico, da África profunda e que vivem uma vida absolutamente excitante (do género tirar fotografias a pratos com camarão), embora sejam também os mesmos que têm medo de fazer 200 metros a pé na avenida mais cosmopolita de Maputo... e que passam a vida a dizer mal dos moçambicanos e dos pretos em geral...

O que me preocupa é que estes portugueses são os mesmos que, mais tarde ou mais cedo, consoante os seus projectos individuais e o papel de Moçambique nas suas vidas, com os seus recentemente adquiridos tiques burgueses de novos-ricos ou neo-colonialistas, habituados a sentirem-se mais habilitados que os demais (devido ao baixo nivelamento que serve de comparação), voltarão a Portugal (muitos não, pela falta de emprego) para aí prosseguirem com as suas por ora brilhantes carreiras profissionais, que julgam ser mais valorizadas pelo efeito automático da chamada experiência-limite africana… Puro engano, mas deixem-nos sonhar!

O Mundo de hoje, no século XXI, é o das chamadas sociedade e economia criativas e constrói-se a partir do domínio de três elementos-chave: tolerância, tecnologia e talento. Já não vivemos num mundo em que o poder está na terra e saímos agora de um mundo em que o poder está (estava) no domínio do combustível. Hoje o poder est(ar)á sobretudo no domínio da informação e conhecimento e do seu uso de forma criativa. Ou seja, o mundo é cada vez mais daqueles, estes cada vez menos, que inventam e produzem mais (não da maneira “fordiana” de produção de massas, com recurso a mão-de-obra especializada, mas no intuito de diferente e melhor), concentrados em ilhas tecnológicas, cosmopolitas, urbanas, onde o inglês assume preponderância, com hábitos culturais e mundanos semelhantes, como são as cidades de Nova Iorque, Los Angeles, Londres, Sidney, Amesterdão, Paris, Tóquio e poucas mais…

O que têm estas cidades-ilha de diferente, então, para além de serem fiéis depositários de conhecimento e de criatividade no Mundo? Precisamente a palavra “diferente”! Têm dentro de si a tolerância para acolher, integrar e incluir diferentes culturas, daí resultando uma maior apetência para o talento ao serviço da técnica, da criatividade, do bem-estar, das ideias, do progresso, em suma.

O reverso da medalha é que são ilhas cada vez mais distantes (por vezes até dentro de si) de uma massa esmagadora cada vez mais numerosa (com a qual talvez a Cooperação para o Desenvolvimento tenta fazer uma ponte ou segurar num último esforço para não deixar cair no precipício - é uma ideia ingénua, bem sei, mas ainda há quem dentro desta o queira fazer realmente), onde imperam a pobreza, a doença, a fome, a ignorância e, precisamente, a intolerância – esta alimentada e potenciada por elites políticas e/ou religiosas que dai retiram os seus dividendos convenientes e oportunistas. Estas ilhas de tolerância e criatividade geram precisamente contra si fenómenos (fundamentalistas) de desprezo, de ódio, de inveja e de retrocesso ideológico e de valores. À medida que se desenvolvem, deixam de ser acompanhadas e compreendidas por uma classe política retrógrada nas ideias e na compreensão da sociedade, conservadora nas soluções e reformas e fraca ao nível das decisões e liderança, quer à esquerda, quer à direita. À esquerda, porque não encontra novas formas de se reinventar e progredir, na fase pós-industrial ou pós-moderna, e se confunde na prática do poder com aquilo que diz combater (se é que sabe exactamente o que combater). À direita, porque tende a desenterrar através da máquina do tempo os valores da família, da vida humana, do nacionalismo para as suas batalhas, sem programa coerente e consistente, através do abuso de canais populistas e dogmáticos que a desacreditam irremediavelmente.

O reverso da medalha é sem dúvida este: quem não estiver aí incluído (sociedade e economia criativas), não sobreviverá. Não digo que tenhamos que pertencer àqueles que criam, pois nem todos nascem com o talento ou têm a oportunidade de o potenciar. Não digo que quem pertence às “classes” (termo tão em desuso, não?) da produção e dos serviços, não terá hipóteses de sobrevivência. O que digo é que estar fora dessa sociedade dita criativa é auto-excluir-se de um Mundo melhor.

Este não é, porém, um conceito geográfico, apesar de estar associado às típicas antinomias e dicotomias Norte-Sul, Ocidente-Oriente, entre outras. Não obriga a que tenhamos que estar localizados numa grande cidade cosmopolita como Londres, de estar na Europa ou Estados Unidos da América, de sermos europeus, americanos, africanos ou asiáticos, de sermos cristãos, muçulmanos, judeus ou coisa nenhuma.

Este é (a inclusão na sociedade criativa), para mim, sobretudo um conceito (ou será um paradigma?) ligado ao acesso permanente que temos à informação e ao conhecimento e como, com a nossa criatividade e talento, fazemos deles uso, de forma dinâmica e auto-rejuvenescedora. Se os usamos para trabalhar num laboratório de alta tecnologia num país desenvolvido, ou se os usamos ao serviço de uma comunidade africana com práticas (ainda) “neolíticas” é indiferente. Interessa, sobretudo, a meu ver, o grau de abertura aos novos conhecimentos e ideias que proliferam, de forma permanentemente crítica e construtiva, que possamos usar ao serviço de um bem comum, adaptado a um determinado contexto e/ou processo de desenvolvimento.

Ora, observar estes portugueses tão novos que se julgam detentores de um conhecimento eterno, só porque é incomparavelmente melhor, no presente ou num determinado momento, ao dos moçambicanos com que se (des)relacionam no dia-a-dia, é como olhar para o um qualquer navio segundos antes de embater num iceberg, desculpem-me a imagem.

É observar como um conjunto de pessoas razoavelmente formadas se auto-convencem de uma superioridade fictícia sobre “esses” e “eles”, os moçambicanos metidos num mesmo saco, apenas porque estão temporariamente deslocalizadas de um contexto mais exigente que aos poucos deixam de acompanhar, de forma acomodada e passiva, confrangedora para as suas inteligências e adivinhadora de maus prenúncios para a sua evolução enquanto seres humanos de hoje e de amanhã.

Acordem, sejam humildes e tolerantes para aprender e conhecer os que vos rodeiam e não se acomodem a um conhecimento que já não serve e todos os dias se distancia da realidade que nos ultra(tres)passa! Se não, quando se derem conta, já não diferem muito daqueles que em Lisboa rejeitam os imigrantes e rejeitam por isso a sua própria sobrevivência…