5 de setembro de 2007

De regresso...

De volta à escrita em viagem, em trânsito, sozinho. De volta a Pemba. Um velho hábito agora retomado, de forma intermitente e tímida. A última vez foi no Intercity Plus entre Roma e Napoli, em Dezembro. Era um hábito que servia sobretudo para aproveitar as horas mortas e descarregar, quer fosse na interminável viagem de expresso entre a Marinha Grande e Braga, quer fosse nas curtas viagens de comboio entre a primeira e a Figueira da Foz, ou mais tarde entre Lisboa e Santarém. Escritas esporádicas. Desabafos. Auxiliares de memória. Ideias de escrita. Frases soltas. Versos que nunca chegaram a ser poema...

Agora é a vez deste cansado Boieng 737 da LAM me levar em 2h30m até à capital da Província de Cabo Delgado. Outra vez...

Aproxima-se a partida deste país. Até que enfim, repetirei nas próximas semanas a mim mesmo, estou certo, convencido que vou para algo de melhor, que tudo tem um fim e o seu tempo próprio. Que esta foi só mais uma etapa, uma experiência como abusivamente lhe chamamos. Faltam algumas semanas (mais do que as que tinha previsto), mas já sinto a aproximar-se o fechar de um ciclo profissional e pessoal, em que já nada será igual. É um alívio, ao mesmo tempo, sem dúvida! Não que isto tenha sido tão mau assim, antes pelo contrário. Foi um teste à minha capacidade de sobrevivência, sobretudo de mim mesmo. Foi uma prova de resistência.

É um alívio, porque creio sair no momento certo. Profissionalmente, porque já chega de gerir o caos e devo ser mais exigente comigo mesmo e não é aqui que vou encontrar o que procuro. Como diz a criatura "sinistra" (que por acaso tem nome e chama-se Joe Berardo), "quando nos apercebemos que tudo depende de nós para funcionar, é porque está na altura de sair"... Pessoalmente, porque Moçambique desconcertou-me o suficiente para precisar agora de planar noutras paragens e perceber se esta agitação e inquietação são apenas "side effects" da experiência africana ou algo mais...

Fazer estes 3.000 Km até Pemba (que equivalem a um vôo entre Lisboa e Copenhaga) é como engolir de um trago só um país inteiro, tão farto, lindo e cheio de contrastes, mas ao mesmo tempo já tão único e uno (creio)... É claro que aqui de cima, nas nuvens, não interessa nada, porque não o conhecemos de verdade, não sentimos os cheiros, não vemos as cores, não tocamos... Mas, a violência de quase três horas para ir de uma ponta a outra no mesmo país é suficiente para sentirmos e entuirmos da sua enorme existência como tal e nos absorve por completo.

Não sei se é despedida, mas este regresso a Pemba, ao Ibo, às Quirimbas, o último abraço ao pessoal da Médicos del Mundo - España (Viola, Fernand, Nico e Marina) e da Fundació Ibo (Luís e Isabel), já vem carregado de saudade. Já sinto a falta que este país me vai fazer, afinal, dentro de uns meses. As suas cores, cheiros e sabores. As suas mulheres, "pedaços de mau caminho", mistura na exacta medida e proporçãao de africana, árabe, indiana e portuguesa, que nos provocam com olhar felino e corpos "provoquentes". Os seus sabores (os de Moçambique agora) de fruta, do marisco e peixe, da sua cerveja (tem dias - hoje gosto de todas, mas a Manica e a Laurentina, à sua maneira, não se esquecem). Os sorrisos contagiantes... quando não são movidos pela corrupção mental que a pobreza produz. A sua música. Que saudades vou ter do João Paulo, do Carlitos Gove, do Jorge Domingos e do Maculufe juntos no Gil Vicente, ao sábado à noite... Dos
Timbila Muzimba e dos Kakana. Dos inúmeros concertos de música tradicional, de marrabenta, de afro-jazz, de blues, de fusão, de reggae no Shima, no Gil, no CCFM, no Núcleo de Artes (um beijo, Tina), no África... Das excelentes exposições de pintura, de fotografia e de escultura que por cá se fazem. Das sessões irreverentes (e quase expontâneas) de poesia. Do teatro e da dança. Das expressões peculiares mas deliciosas que ouvimos todos os dias: "Ainda...", "Estou maningue busy", "Está full", "É láaaaaaaaa", "São duas horas de tempo", "Há-de vir", "Não tem problema", "Afinal!?", "Não é?!"... Que saudades vou ter das conversas e da forma simples como, sem maneirismos e vaidades intelectuais, nos levam a descobrir diferentes maneiras de ver o mesmo.

Apesar de ter posto os pés em todas as províncias, de ter estado em tantos sítios, muitas vezes repetidos, não cheguei a conhecer as cidades de Chimoio, Tete e Lichinga, realmente. Não fui a Bazaruto. Não percorri o Parque Nacional do Limpopo. Não fui ao Lago Niassa. Não cheguei a subir o Monte Namuli, no Gurué. Não fui a Cahora Bassa. Não conheço a costa da Zambézia (nem tantos dos 3000 km que esta tem). Não andei de comboio. Não tantas outras coisas... Talvez fiquem para uma próxima vez. Guardo, no entanto, cada centímetro de terra que percorri e todas as suas memórias, nem sempre fotografadas. A maior parte do que ingeri ainda está por digerir e por isso não transmiti (descrevi) ainda... É uma amálgama de imagens e de sentimentos ainda por ordenar, por arrefecer e daí retirar o que tem realmente importância. Daí retirarei as lições que farão de mim o Homem a que quero chegar antes de morrer...

Os momentos maus, de enorme stress e desgaste, de frustração por tentar mudar o que é imutável, de desilusão, de perda e de vontade de desistir foram obviamente muitos... Quase 2 anos depois, muita ingenuidade e ilusão se perderam, quem sabe irremediavelmente. Mas, isso é o crescimento forçado a que África, mas sobretudo o (per)curso normal da vida, nos obrigam, desde que não estejamos enclausurados num mundo que julgamos ser aquele que apenas alcançamos a olho nú... E ainda bem que é assim, pois entre o importante e o acessório, a distância já não é tão ténue.

Na primeira vez que cá estive levava na bagagem a certeza que voltaria. Agora creio levar o mesmo “mal”. Quando? Não importa... Tudo o que levar, por agora certezas, só o tempo lhe dará a sua verdadeira face, essência e dimensão. É deixar seguir e estar descansado, porque o que é para vir a seguir, “há-de vir”...