
Este título é baseado na resposta dos Gato Fedorento aos cartazes desse partideco de extrema-direita que, há uns meses, espalhou por Lisboa umas mensagens anti-imigrantes, estupidamente no sentido inverso do evoluir e pulsar de um Mundo que cresce e se desenvolve na exacta medida em que é mais tolerante e promove o talento daqueles que ousam pensar de forma diferente e progressista.
Nos quase dois anos que levo de Maputo, para além de, obviamente, poder ter uma ideia um pouco mais aprofundada dos moçambicanos de hoje – alguns dos seus costumes e idiossincrasias próprias, virtudes admiráveis e defeitos absolutamente insuportáveis e (surpresa?) incrivelmente stressantes – julgo ser melhor conhecedor também dos próprios portugueses, assumindo o risco redutor da generalização…
Estou convicto que a(s) comunidade(s) portuguesa(s) em Maputo têm todas as características para servir de case study. Existem diferentes portugueses por aqui: diferentes maneiras de estar na vida, valores, ambições, posturas face ao outro em geral e aos moçambicanos em particular.
Mais especificamente, tive oportunidade de conhecer portugueses como eu, com menos ou pouco mais de 30 anos, formados, com acesso (supostamente) privilegiado a informação e conhecimento, mais ou menos bem identificados e integrados neste contexto, com mais ou menos consciência das razões de estar aqui e do que fazer entretanto…
Conviver com portugueses fora de Portugal é a melhor maneira de nos conhecermos. Talvez seja porque usufruimos do efeito comparativo ou talvez seja porque apuramos as nossas características identitárias fora do habitat natural. Talvez sejam as duas coisas. Como já é a minha segunda experiência duradoira fora do país, qualquer tipo de reflexões e constatações nesta matéria não é surpreendente, antes pelo contrário. Não me admiram, por isso, alguns comportamentos típicos lusos de mesquinhez, inveja, provincianismo, interesseirismo, intriga, enclausuramento mental e físico, alguma falta de valores e de educação, independentemente das habilitações e/ou origem social, que grassam nesta geração, por algum motivo apelidada de rasca. Tenho pena, mas, como tenho também por lema não perder tempo com quem não me interessa estar, é quase como mudar de canal de televisão e escolho estar com quem posso aprender e desfrutar de forma tranquila e sem preconceitos… sendo ou não portugueses.
Grande parte deles têm um blog. Alguns até estão com uma boa escrita (entre o filosófico e o intra-pessoal); mas, na sua maioria, não passam de uma espécie de diário fútil de viagens e fins-de-semana (sempre aos mesmos sítios turísticos), em que supostamente tentam demonstrar aos outros e a si mesmos que vivem em busca do autêntico, da África profunda e que vivem uma vida absolutamente excitante (do género tirar fotografias a pratos com camarão), embora sejam também os mesmos que têm medo de fazer 200 metros a pé na avenida mais cosmopolita de Maputo... e que passam a vida a dizer mal dos moçambicanos e dos pretos em geral...
O que me preocupa é que estes portugueses são os mesmos que, mais tarde ou mais cedo, consoante os seus projectos individuais e o papel de Moçambique nas suas vidas, com os seus recentemente adquiridos tiques burgueses de novos-ricos ou neo-colonialistas, habituados a sentirem-se mais habilitados que os demais (devido ao baixo nivelamento que serve de comparação), voltarão a Portugal (muitos não, pela falta de emprego) para aí prosseguirem com as suas por ora brilhantes carreiras profissionais, que julgam ser mais valorizadas pelo efeito automático da chamada experiência-limite africana… Puro engano, mas deixem-nos sonhar!
O Mundo de hoje, no século XXI, é o das chamadas sociedade e economia criativas e constrói-se a partir do domínio de três elementos-chave: tolerância, tecnologia e talento. Já não vivemos num mundo em que o poder está na terra e saímos agora de um mundo em que o poder está (estava) no domínio do combustível. Hoje o poder est(ar)á sobretudo no domínio da informação e conhecimento e do seu uso de forma criativa. Ou seja, o mundo é cada vez mais daqueles, estes cada vez menos, que inventam e produzem mais (não da maneira “fordiana” de produção de massas, com recurso a mão-de-obra especializada, mas no intuito de diferente e melhor), concentrados em ilhas tecnológicas, cosmopolitas, urbanas, onde o inglês assume preponderância, com hábitos culturais e mundanos semelhantes, como são as cidades de Nova Iorque, Los Angeles, Londres, Sidney, Amesterdão, Paris, Tóquio e poucas mais…
O que têm estas cidades-ilha de diferente, então, para além de serem fiéis depositários de conhecimento e de criatividade no Mundo? Precisamente a palavra “diferente”! Têm dentro de si a tolerância para acolher, integrar e incluir diferentes culturas, daí resultando uma maior apetência para o talento ao serviço da técnica, da criatividade, do bem-estar, das ideias, do progresso, em suma.
O reverso da medalha é que são ilhas cada vez mais distantes (por vezes até dentro de si) de uma massa esmagadora cada vez mais numerosa (com a qual talvez a Cooperação para o Desenvolvimento tenta fazer uma ponte ou segurar num último esforço para não deixar cair no precipício - é uma ideia ingénua, bem sei, mas ainda há quem dentro desta o queira fazer realmente), onde imperam a pobreza, a doença, a fome, a ignorância e, precisamente, a intolerância – esta alimentada e potenciada por elites políticas e/ou religiosas que dai retiram os seus dividendos convenientes e oportunistas. Estas ilhas de tolerância e criatividade geram precisamente contra si fenómenos (fundamentalistas) de desprezo, de ódio, de inveja e de retrocesso ideológico e de valores. À medida que se desenvolvem, deixam de ser acompanhadas e compreendidas por uma classe política retrógrada nas ideias e na compreensão da sociedade, conservadora nas soluções e reformas e fraca ao nível das decisões e liderança, quer à esquerda, quer à direita. À esquerda, porque não encontra novas formas de se reinventar e progredir, na fase pós-industrial ou pós-moderna, e se confunde na prática do poder com aquilo que diz combater (se é que sabe exactamente o que combater). À direita, porque tende a desenterrar através da máquina do tempo os valores da família, da vida humana, do nacionalismo para as suas batalhas, sem programa coerente e consistente, através do abuso de canais populistas e dogmáticos que a desacreditam irremediavelmente.
O reverso da medalha é sem dúvida este: quem não estiver aí incluído (sociedade e economia criativas), não sobreviverá. Não digo que tenhamos que pertencer àqueles que criam, pois nem todos nascem com o talento ou têm a oportunidade de o potenciar. Não digo que quem pertence às “classes” (termo tão em desuso, não?) da produção e dos serviços, não terá hipóteses de sobrevivência. O que digo é que estar fora dessa sociedade dita criativa é auto-excluir-se de um Mundo melhor.
Este não é, porém, um conceito geográfico, apesar de estar associado às típicas antinomias e dicotomias Norte-Sul, Ocidente-Oriente, entre outras. Não obriga a que tenhamos que estar localizados numa grande cidade cosmopolita como Londres, de estar na Europa ou Estados Unidos da América, de sermos europeus, americanos, africanos ou asiáticos, de sermos cristãos, muçulmanos, judeus ou coisa nenhuma.
Este é (a inclusão na sociedade criativa), para mim, sobretudo um conceito (ou será um paradigma?) ligado ao acesso permanente que temos à informação e ao conhecimento e como, com a nossa criatividade e talento, fazemos deles uso, de forma dinâmica e auto-rejuvenescedora. Se os usamos para trabalhar num laboratório de alta tecnologia num país desenvolvido, ou se os usamos ao serviço de uma comunidade africana com práticas (ainda) “neolíticas” é indiferente. Interessa, sobretudo, a meu ver, o grau de abertura aos novos conhecimentos e ideias que proliferam, de forma permanentemente crítica e construtiva, que possamos usar ao serviço de um bem comum, adaptado a um determinado contexto e/ou processo de desenvolvimento.
Ora, observar estes portugueses tão novos que se julgam detentores de um conhecimento eterno, só porque é incomparavelmente melhor, no presente ou num determinado momento, ao dos moçambicanos com que se (des)relacionam no dia-a-dia, é como olhar para o um qualquer navio segundos antes de embater num iceberg, desculpem-me a imagem.
É observar como um conjunto de pessoas razoavelmente formadas se auto-convencem de uma superioridade fictícia sobre “esses” e “eles”, os moçambicanos metidos num mesmo saco, apenas porque estão temporariamente deslocalizadas de um contexto mais exigente que aos poucos deixam de acompanhar, de forma acomodada e passiva, confrangedora para as suas inteligências e adivinhadora de maus prenúncios para a sua evolução enquanto seres humanos de hoje e de amanhã.
Acordem, sejam humildes e tolerantes para aprender e conhecer os que vos rodeiam e não se acomodem a um conhecimento que já não serve e todos os dias se distancia da realidade que nos ultra(tres)passa! Se não, quando se derem conta, já não diferem muito daqueles que em Lisboa rejeitam os imigrantes e rejeitam por isso a sua própria sobrevivência…