24 de novembro de 2008

Época das Chuvas... e das Mangas


Hoje começou a chover...



Pode parecer descabido escrever sobre a chuva, porque não traz qualquer novidade.
É certo que até já choveu antes (fala-se até de um certo Dilúvio Bíblico) e que vai continuar a chover amanhã e sempre... mas hoje começou a chover... a sério.
Começou a Época das Chuvas e daqui até Março vai ser quase sempre assim, aqui onde estou. Pode ser que amanhã não chova, mas esta chuva persistente e previsivelmente presente vai voltar. Por enquanto, é assim. Uns anos mais cedo, outros mais tarde; uns anos com maior intensidade, outros com menor, leia-se de estragos. Mas, sempre chove, chove como se não houvesse amanhã, como se de um dilúvio eterno se tratasse, como se o Apocalipse não fosse de fogo, mas sim de água...

Aqui a chuva não é oblíqua, é estrondosamente vertical no seu percurso, perfeitamente horizontal na sua extensão...


Chove para que as poucas estradas que existem deixem separadas as gentes, umas das outras e de si mesmas, agravando ainda mais as suas reais possibilidades de se alimentarem todos os dias, de efectuarem os seus negócios e as suas compras, de acederem aos serviços sanitários. É como se as suas vidas precisassem ainda de mais um entrave.


Chove, chove muito. Só quem vê chover em África, alcança a importância de toda a metamorfose que a chuva desencadeia. É verdade que traz todo esse verde que aos poucos cobre o manto amarelado, num jogo de empurra que se repete cada ano. É verdade que alimenta as terras que por sua vez alimentarão as gentes empobrecidas e famintas. Os insectos gritam nas suas orgias sinfónicas e os céus cospem chispas ruidosas de fogo, tudo se transforma e ganha vida assustadoramente. Da terra surge vida, de um dia para o outro, ou às vezes de forma mais rápida, confundindo os nossos sentidos... É assim em África, é assim nesta parte de África...


Chover aqui é mais do que tudo isso. É uma força da Natureza que se impõe, que condiciona o dia-a-dia durante metade do ano, que transforma não só a paisagem, mas a vida das gentes e também as suas almas que escorregam com a chuva, que penetram na terra e evaporam com os raios de Sol nos interstícios da vontade divina que as afoga e empurra... para o ventre de onde esperam nunca sair.


Chover aqui é também redescobrir a cor e o cheiro das mangas, cada ano, que são a vitamina do Amor e do Sexo que fazem germinar a Terra Africana de novos frutos, de novos sorrisos... de novas vidas.





Post Scriptum:
Ontem, no último dia da Época Seca, o carro que levei para a praia (que eu achava tratar-se do Paraíso) foi assaltado e levaram-me as minhas sandálias que comprei antes de vir para Moçambique a primeira vez, em 2003. Eram umas velhas sandálias de pele. Aliás, umas vergonhosamente velhas sandálias de pele, que me acompanhavam desde então e que me faziam soltar um sorriso cada vez que as calçava... porque eram as minhas sandálias de Moçambique gastas e vergonhosamente velhas...
Também me roubaram uma moeda portuguesa em bronze do século XVIII que comprei na Praia da Carrusca, perto da Ilha de Moçambique, que passou a ser o meu Paraíso nessa manhã de Maio. Pelo menos, eu estava convencido que assim era e achava-lhe piada. Não, não era piada, era um sentimento de pertença e de saudade de Portugal, do meu País.
Roubaram-me ainda aqueles óculos de Sol másculos e sexy que eu achava que eram os únicos que podia usar e que provavelmente também era eu o único que assim os via. No ano passado roubaram-me o mesmo modelo na Praia de Pangane, que eu também achava ser o Paraíso, até aí.
Roubaram-me ainda o telemóvel. E assim se foram nomes que povoavam a lista de contactos, muitos deles que eu nem conhecia. Mas também foram as mensagens guardadas, aquelas íntimas que nos fazem corar e sorrir por dentro e por fora e nos transportam para um mundo só nosso por breves segundos...

Roubaram-me mais coisas, mas sobretudo roubaram-me a vontade de encontrar paraísos em Moçambique.
Felizmente hoje já começou a Época das Chuvas e tudo foi esquecido... ou seja lavado. Felizmente hoje comprei 10 kg de mangas por 2 Euros e tenho a casa a cheirar a manga. É um cheiro que se entranha nas paredes e na alma, podem ter a certeza.
É um cheiro que nos põe mais felizes e nos faz fazer Amor como se não houvesse amanhã, em desesperadas e contínuas despedidas. Como se não pudéssemos parar de fazer explodir cada músculo dos nossos corpos, húmidos e sedentos, ao mesmo tempo, que se fundem, acompanhando o ritmo da chuva eterna e impiedosa que silencia os batuques furiosos lá fora, lá longe...
Nesta dança primitiva e excêntrica que nos empurra de volta ao nosso ventre e a nós mesmos.