18 de janeiro de 2009

Ary dos Santos: 25 anos sobre a sua morte

25 anos sobre o desaparecimento físico de José Carlos Ary dos Santos!

Comunista, homossexual, boémio, beberrão, por tudo isso e também pela sua irreverência, pelo seu modo de ser que hostilizava as "boas regras do politicamente correcto" foi, em vida, odiado por muita gente. Mas também amado pelos que sabiam estar ali um grande poeta.

Ary respirava poesia. As palavras brotavam da sua inesgotável criatividade, quase expontaneamente.


Era um homem poeticamente sobredotado.


Conhecido, sobretudo, pelas letras das mais belas canções que se escreveram em língua portuguesa (mais de 600), o Ary tinha, no entanto, uma vasta obra poética que muitos não conhecerão.


De si próprio, disse:

"Serei tudo o que disserempor temor ou negação:Demagogo mau profetafalso médico ladrãoprostituta proxenetaespoleta televisão.Serei tudo o que disserem:Poeta castrado, não!"


A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

José Carlos Ary dos Santos (7 de Dezembro de 1936 — 18 de Janeiro de 1984)