21 de março de 2009

Dia Mundial do Sono

Portugueses são os que dormem pior por causa da crise

Já são quatro da manhã e você ainda não conseguiu pregar olho. Levanta-se da cama e, sentado/a frente ao computador ou à televisão sintonizada num qualquer canal - ou talvez até com um livro na mão mas que não está a ler -, remói mais uma vez na sua cabeça as mesmas ideias negras: será que vai conseguir pagar a prestação da casa? Será que você ou o seu cônjuge - ou ambos - vão perder o emprego? E as despesas do carro? E as facturas? E a comida? E a escola dos miúdos? Há vários meses que dorme mesmo mal por causa disto tudo. E, quando acorda, de manhã, sente um cansaço tal que não lhe apetece fazer nada.


Um cenário como este poderá estar a tornar-se comum nos lares portugueses, segundo revela um inquérito feito entre finais de Janeiro e inícios de Fevereiro, que é hoje divulgado por ocasião do Dia Mundial do Sono e a que o PÚBLICO teve acesso. Realizado online pela empresa britânica YouGov junto de 6694 pessoas maiores de 18 anos, em sete países (Reino Unido, França, Alemanha, Portugal, Polónia, República Checa e Hungria), foi encomendado pelos laboratórios farmacêuticos Lundbeck para tentar perceber o impacto das alterações do sono na Europa. E, devido ao contexto actual, uma das perguntas colocadas foi precisamente a de saber se o clima económico actual tinha afectado o sono dos inquiridos.


"Trata-se de um estudo interessante, mas com limitações metodológicas", diz Marta Gonçalves, psiquiatra, investigadora e presidente da Associação Portuguesa de Sono, pelo telefone. "O facto de ser on-line pode fazer com que à partida se esteja a comparar grupos diferentes. Quem tem acesso à Internet em Portugal não é comparável com quem tem acesso em França, o que pode conduzir ao enviesamento das amostras."


Mais depressivos?


Em Portugal, onde 500 pessoas participaram no inquérito, os resultados sugerem que, para além de os portugueses serem, a seguir aos polacos, os que pior têm dormido nos últimos 12 meses - quase 75 por cento admitem-no -, o sono dos adultos portugueses terá sido o mais afectado pela crise: 42 por cento dizem que a qualidade do seu sono se deteriorou devido à economia. Nos outros países, essa proporção oscila entre 18 e 25 por cento (à excepção da Hungria, onde atinge os 33 por cento).


Nas consultas de insónia, "a temática da crise é uma constante", faz notar Marta Gonçalves. "Mas isso é apenas uma impressão clínica." Quanto a saber por que os portugueses são os que mais perdem o sono por causa da economia, uma explicação possível - mas não a única - poderá ser que "reagem de forma mais depressiva ou mais angustiada à crise".


A falta de sono acumulada pode afectar muito negativamente a vida das pessoas e das suas famílias, aumentando o risco face a diversas patologias (doenças cardiovasculares, diminuição da imunidade, diabetes de tipo 2, etc.) e provocando coisas como irritabilidade, diminuição do desempenho no trabalho, falta de concentração, esquecimento, baixos níveis de energia, cansaço, sonolência durante o dia. Um dos mais graves problemas potenciais é, aliás, o facto de as pessoas poderem adormecer ao volante do seu carro, fazendo aumentar a sinistralidade rodoviária. No caso português, algumas dessas consequências surgem nos resultados do inquérito: 87 por cento das mulheres dizem sofrer de cansaço e falta de energia por falta de sono reparador e 49 por cento dos adultos de ambos os sexos também se queixam de que esquecem coisas.


Do lado das soluções adoptadas para tentar ultrapassar os problemas de sono, elas vão da medicação (seis por cento dos britânicos, oito por cento dos polacos, cinco por cento dos checos e sete por cento dos húngaros) aos chás de ervas e medicamentos que não exigem receita (31 por cento dos checos), passando pelo consumo de álcool. Um britânico em cada sete (14 por cento), por exemplo, diz já ter recorrido a bebidas alcoólicas para conciliar o sono - e o mesmo acontece com dez por cento dos alemães. Por seu lado, 44 por cento dos portugueses declaram que alteraram aspectos do seu estilo de vida para tentar melhorar a qualidade do sono - tal como 46 por cento dos polacos, 36 por cento dos franceses e 50 por cento dos húngaros. Marta Gonçalves acredita, mais uma vez, que a amostragem possa não ser representativa da realidade de alguns destes países.