30 de julho de 2009

¿Y tú qué opinas de esto?


Uno de cada tres españoles aceptaría formar una federación con Portugal
  • El casi 40% de los portugueses aceptaría una unión entre los dos países
  • Sin embargo, un 30% de personas de ambos países rechaza la idea

El 39,9% de los portugueses y el 30,3% de los españoles apoyan una unión entre los dos países para formar una Federación, aunque la idea es rechazada por más de un 30% de los ciudadanos en ambas naciones.

El 29,1% de los españoles se muestra indiferente con respecto a esa propuesta, porcentaje que se reduce hasta un 17,7% en el caso de los portugueses, según un barómetro de opinión hispano-luso, cuya primera edición se ha presentado en la sede de la Secretaría General Iberoamericana (SEGIB) en Madrid.

La encuesta, desarrollada por el Centro de Análisis Sociales de la Universidad de Salamanca (CASUS) para tomar el pulso al conocimiento recíproco entre los dos países, revela, por ejemplo, que mientras que el 54,2% de los portugueses sabe el nombre del actual presidente del Gobierno español, sólo el 1,2% de los españoles conoce el del primer ministro luso.

Los tres personajes portugueses más famosos para los españoles son, en este orden, los futbolistas Luis Figo y Cristiano Ronaldo y el escritor José Saramago, mientras que para los portugueses son Julio Iglesias, el Rey Juan Carlos I y la princesa Letizia.

La encuesta revela que "el mutuo conocimiento no es mucho", sino más bien "una ignorancia mutua", más destacada en el caso de los españoles, cuyo conocimiento a veces es "trivial y banal", según uno de los responsables del estudio, Mariano Fernández Enguita.

El 53% de los españoles asegura haber estado al menos una vez en Portugal frente al 84% de los portugueses que ha visitado al menos en una ocasión España, según la encuesta, que revela que los ciudadanos lusos tienen mayor relación con los españoles que al revés.

Los portugueses son más partidarios que los españoles a las propuestas de cooperación que se establecen entre ambos países y, en ambos casos, destaca el apoyo a una mayor colaboración policial, judicial y militar, así como a la celebración de una reunión trimestral entre ambos gobiernos.

Los españoles son contrarios a que el portugués sea lengua de estudio obligatoria (un 76,2%) y prefieren que sea optativa (67,7%), mientras que en Portugal un 50% cree que el español debe ser obligatorio y un 85,1%, optativo.
La encuesta, a partir de entrevistas a 876 ciudadanos en ambos países entre abril y mayo pasados, pone de manifiesto que la mayoría de los españoles y los portugueses considera que las relaciones entre ambos países son buenas o, incluso, muy buenas, aunque un 28,9% de los lusos las evalúa como regulares.

Para la mayoría de los españoles, las relaciones bilaterales se han mantenido más o menos igual que en los últimos años, mientras que los portugueses creen que han mejorado, según la encuesta, de carácter anual.

En cuanto a los problemas comunes, el aprovechamiento del agua de los ríos es un asunto especialmente problemático para los portugueses, aunque otras cuestiones, como la delimitación de fronteras o las comunicaciones, no son vistas como especialmente problemáticas en ninguno de los dos países.

Efe | Madrid


Ver também:

26 de julho de 2009

Volta de honra ao campo...

Neste (último) adeus a Moçambique, sinto-me como um jogador de futebol a dar a volta de honra ao campo… na despedida.

Sem raiva, desta vez.

Agradecido e feliz.

Num outro teatro dos sonhos fiz uma primeira parte de grande intensidade. Marquei golos, festejei, fiz passes errados, sofri faltas, corri, caí lesionado, chorei.

Voltei do intervalo, de um balneário onde não houve direito a massagens de recuperação.

Entrei na segunda parte, para o outro lado do campo, com a devida confiança alheia, para segurar o resultado, suster os ataques adversários, equilibrar a equipa… e libertar com parcimónia os últimos queixumes de uma alma desinquieta.

Saio antes do apito final para a ovação do público (e de mim próprio), não com palmas, mas com silêncio…

O que fazer num avião, quando o passageiro do lado é um chato?


1. Tirar o computador portátil da mala;


2. Abrir a tampa devagar e calmamente;

3. Ligar;

4. Assegurar-se de que o vizinho está a olhar;

5. Ligar a Internet;

6. Fechar os olhos por breves momentos, abri-los de novo e dirigir o olhar para o céu;

7. Respirar profundamente e abrir este site: http://www.myit-media.de/the_end.html


8. Observar a expressão facial do vizinho!

Num café-pastelaria de Maputo…

Entro na pastelaria onde o café e o pastel de nata são condes disfarçados de reis. Mas também o galão, o sumo natural, o croissant ou até a empadinha circulam nas bandejas vagarosas dos inúmeros empregados dignamente fardados… aliás, orgulhosamente fardados.

De vez em quando e de quando em vez um ou outro bolo de arroz, ou uma qualquer variedade de chá é solicitada por algum cliente de gostos simples.

A colherzita do café cola-se ao pacotinho de açúcar que chora pela mesa.

Numa ala do café-pastelaria as mesas são acometidas por internautas assíduos, formando uma espécie de escriturários das múltiplas conversas que se entrecruzam no ar…

Um ou outro cliente saca do bolso o seu telemóvel da última geração do dia anterior, competindo estes com os iPods, MacBooks, Toshibas, com forma de agendas, conectados ao Mundo, em múltiplas redes cibernéticas aromatizadas com café e torrada com manteiga e intercaladas com declarações mais ou menos secretas, sem pudores alguns entre o público e o provado, entre o megabyte e a Bola-de-Berlim, ou entre o e-mail trocado e o refresco com pedras de gelo…

Homens engravatados e (des)afogados momentaneamente nos seus pensamentos disparam olhares cúmplices a mulheres que se fingem despercebidas…

Enquanto isso, os donos do café-pastelaria hipnotizados pela campainha mecânica (que por acaso também é digital) da máquina registadora, fazem contas intermináveis ao valor acrescentado da sua ganância…

Pensamento da semana

O ignorante e o sábio assemelham-se quando ambos estão convencidos que sabem...

e se ignoram entre si.

Diz-me onde moras... (por Miguel Esteves Cardoso)

"Um dos grandes problemas da nossa sociedade é o trauma da morada. Por exemplo, há uns anos, um grande amigo meu, que morava em Sete Rios, comprou um andar em Carnaxide.

Fica pertíssimo de Lisboa, é agradável, tem árvores e cafés. Só tinha um problema. Era em Carnaxide.

Nunca mais ninguém o viu.

Para quem vive em Lisboa, tinha emigrado para a Mauritânia!

Acontece o mesmo com todos os sítios acabados em -ide, como Carnide e Moscavide. Rimam com Tide e com Pide e as pessoas não lhes ligam pevide.

Um palácio com sessenta quartos em Carnide é sempre mais traumático do que umas águas- furtadas em Cascais. É a injustiça do endereço.

Está-se numa festa e as pessoas perguntam, por boa educação ou por curiosidade, onde é que vivemos. O tamanho e a arquitectura da casa não interessam. Mas morre imediatamente quem disser que mora em Massamá, Brandoa, Cumeada, Agualva-Cacém, Abuxarda, Alformelos, Murtosa, Angeja. ou em qualquer outro sítio que soe à toponímia de Angola.

Para não falar na Cova da Piedade, na Coina, no Fogueteiro e na Cruz de Pau. (...)

Ao ler os nomes de alguns sítios - Penedo, Magoito, Porrais, Venda das Raparigas, compreende-se porque é que Portugal não está preparado para entrar na Europa.

De facto, com sítios chamados Finca Joelhos (concelho de Avis) e Deixa o Resto (Santiago do Cacém), como é que a Europa nos vai querer integrar?

Compreende-se logo que o trauma de viver na Damaia ou na Reboleira não é nada comparado com certos nomes portugueses.

Imagine-se o impacte de dizer "Eu sou da Margalha" (Gavião) no meio de um jantar.

Veja-se a cena num chá dançante em que um rapaz pergunta delicadamente "E a menina de onde é?", e a menina diz: "Eu sou da Fonte da Rata" (Espinho).

E suponhamos que, para aliviar, o senhor prossiga, perguntando "E onde mora, presentemente?, Só para ouvir dizer que a senhora habita na Herdade da Chouriça (Estremoz).

É terrível. O que não será o choque psicológico da criança que acorda, logo depois do parto, para verificar que acaba de nascer na localidade de Vergão Fundeiro?

Vergão Fundeiro, que fica no concelho de Proença-a-Nova, parece o nome de uma versão transmontana do Garganta Funda.

Aliás, que se pode dizer de um país que conta não com uma Vergadela (em Braga), mas com duas, contando com a Vergadela de Santo Tirso ? Será ou não exagerado relatar a existência, no concelho de Arouca, de uma Vergadelas?

É evidente, na nossa cultura, que existe o trauma da "terra".

Ninguém é do Porto ou de Lisboa.

Toda a gente é de outra terra qualquer. Geralmente, como veremos, a nossa terra tem um nome profundamente embaraçante, daqueles que fazem apetecer mentir.

Qualquer bilhete de identidade fica comprometido pela indicação de naturalidade que reze Fonte do Bebe e Vai-te (Oliveira do Bairro).

É absolutamente impossível explicar este acidente da natureza a amigos estrangeiros ("I am from the Fountain of Drink and Go Away..."). Apresente-se no aeroporto com o cartão de desembarque a denunciá-lo como sendo originário de Filha Boa. Verá que não é bem atendido. (...) Não há limites. Há até um lugar chamado Cabrão, no concelho de Ponte de Lima !!!

Urge proceder à renomeação de todos estes apeadeiros.

Há que dar-lhes nomes civilizados e europeus, ou então parecidos com os nomes dos restaurantes giraços, tipo : Não Sei, A Mousse é Caseira, Vai Mais um Rissol. (...)

Também deve ser difícil arranjar outro país onde se possa fazer um percurso que vá da Fome Aguda à Carne Assada (Sintra) passando pelo Corte Pão e Água (Mértola), sem passar por Poriço (Vila Verde), e acabando a comprar rebuçados em Bombom do Bogadouro (Amarante), depois de ter parado para fazer um chichi em Alçaperna (Lousã).


(Miguel Esteves Cardoso)



Já agora, eu vivo em lugares como Rego da Garcia e Água de Madeiros, concelho da Marinha Grande... e não vale brincar com isso...

24 de julho de 2009

Beirut - Gulag Orkestar

Beirut - Elephant Gun

Balla - O Fim Da Luta

Balla: Saltei de Mim

(ao vivo na Antena 3)

Manuel Alegre: "Foi uma honra ter sido deputado durante 34 anos"

O socialista Manuel Alegre despediu-se ontem do Parlamento, manifestando-se honrado por ter desempenhado a função de deputado durante 34 anos e declarando que sai como entrou, a combater por uma democracia onde os direitos políticos e sociais sejam inseparáveis.

"Foi uma honra ter sido deputado durante 34 anos", afirmou o histórico socialista numa declaração na última sessão plenária da X Legislatura. Reafirmando que se despede da Assembleia da República por "decisão pessoal", Manuel Alegre garantiu que sai a combater pelas suas ideias.

"Saio tal como entrei, combatendo pelas minhas ideias e por uma República moderna, em que a democracia política se conjugue com a democracia económica, a democracia social, a democracia cultural e os novos direitos civilizacionais (...), por uma democracia onde os direitos políticos sejam inseparáveis dos direitos sociais consagrados na Constituição da República", declarou, lembrando que foi esse o sonho dos deputados constituintes.

20 de julho de 2009

Crónica de Miguel Sousa Tavares sobre o estado de Portugal

Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de manhã, refaço o mesmo percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa. Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis. Vinda de um país onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o que vê:
- É sempre assim, esta auto-estrada?
- Assim, como?
- Deserta, magnífica, sem trânsito?
- É, é sempre assim.
- Todos os dias?
- Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.
- Mas, se não há trânsito, porque a fizeram?
- Porque havia dinheiro para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento era isto.
- E têm mais auto-estradas destas?
- Várias e ainda temos outras em construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três. Entre S. Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. - respondi, rindo-me.
- E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional está cheia de camiões?
- Porque assim não pagam portagem.
- E porque são quase todos espanhóis?
- Vêm trazer-nos comida.
- Mas vocês não têm agricultura?
- Não: a Europa paga-nos para não ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.
- Mas para os espanhóis é?
- Pelos vistos...
Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:
- Mas porque não investem antes no comboio?
- Investimos, mas não resultou.
- Não resultou, como?
- Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.
- Mas porquê?
- Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não 'pendula'; e, quando 'pendula', enjoa de morte. Não há sinal de telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto e, de facto, o único sinal de 'modernidade' foi proibirem de fumar em qualquer espaço do comboio. Por isso, as pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os anos.
- E gastaram nisso uma fortuna?
- Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a viagem há cinquenta anos...
- Estás a brincar comigo!
- Não, estou a falar a sério!
- E o que fizeram a esses incompetentes?
- Nada. Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa... e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.
- Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo?
- Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km.
Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.
- Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?
- Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.
- Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa?
- Isso mesmo.
- E como entra em Lisboa?
- Por uma nova ponte que vão fazer.
- Uma ponte ferroviária?
- E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa.
- Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!
- Pois é.
- E, então?
- Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.
Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.
- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta...
- Não, não vai ter.
- Não vai? Então, vai ser uma ruína!
- Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína - aliás, já admitida pelo Governo - porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar.
- E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?
- Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!
- E vocês não despedem o Governo?
- Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo...
- Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?
- Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.
- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?
- A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.
- Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?
- É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade.
Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:
- E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?
- O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa.
- Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?
- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.
- Não me pareceu nada...
- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.
- Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?
- Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.
- E tu acreditas nisso?
- Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo?
- Um lago enorme! Extraordinário!
- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.
- Ena! Deve produzir energia para meio país!
- Praticamente zero.
- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!
- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.
- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar - ou nem isso?
- Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.
- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?
- Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor.
Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:
- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?
- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez.
Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou:
- Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal! Olha-me só para esta auto-estrada sem ninguém!


por Miguel Sousa Tavares

7 de julho de 2009

Rui Effe - Hand Job



Rui Effe

Galeria Fábulas

As obras de Rui Effe em “Hand Job”, embora sejam uma continuação dos seus anteriores trabalhos, demarcam-se claramente destes, revelando maturidade e evolução. Effe utiliza a figura humana como vulto, de forma não representativa em sobreposições sobre tela ou em desenhos sobre papel que se transformam em alguns casos em dípticos e múltiplos.

Embora menos ousadas, estas peças são mais emotivas e revelam um aprofundar do conceito artístico, que será talvez menos freudiano do que as anteriores mas mais frontal nas questões que lança.

A mutilação do corpo é substituída por indícios de que a mutilação é emocional. Onde anteriormente o artista era explícito, agora é insinuante, ambíguo. Rui Effe nasceu em Braga há apenas 34 anos, mas a sua obra forma já um conjunto profícuo e consistente. Formado em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, desde 2001 que participa em exposições colectivas e individuais. “Hand Job” fala de masturbação, própria e de outrém, mas sem qualquer carácter pornográfico. Isto quer dizer que pode levar as crianças! O que o artista quer despertar é a consciência do outro. Através de colagens e sobreposições, é-nos apresentada uma personagem que se desdobra em várias.

As figuras de “Hand Job” não estão sozinhas. Há sempre um outro que dialoga com elas, uma mão, a sombra de um toque, de uma carícia. Effe cria analogias entre a expressão artística, o prazer que daí tiramos quer como espectador, quer como artista e o prazer físico, sexual. A arte como prazer físico, imediato, que pode ser ou não auto-infligido.

É pena que o artista opte por não dar títulos às obras, visto os seus textos revelarem também grande talento. Veja-se o blogue esteeomeucorpo.blogspot.com.

Bárbara Valentina - terça-feira, 7 de Julho de 2009 - in time out lisboa

Rui Effe- Hand Job

por Miguel Matos


«É através de um outro que me torno um eu livre. Eu descubro-me como um eu livre através da sapiência do outro» - Rui Effe

Se até ao presente projecto, o trabalho de Rui Effe denotou sempre uma tendência para discursar sobre a dor física e emocional, sempre num registo metafórico em que o corpo e as suas incapacidades e/ou limitações eram omnipresentes, desta vez, o artista muda a sua entoação. É agora o conhecimento próprio através de uma ligação a um outro que está em questão.

A série Hand Job começou com um conjunto de experiências em colagens sobre recortes/silhuetas sob o tema da masturbação. A masturbação entendida como “modalidade” de extracção daquilo que está dentro de nós. A masturbação como exploração, não apenas auto-exploração como também exploração do prazer do “eu” através de um outro – a mão do outro. Um outro indefinido, uma entidade que não vemos, que não se deixa ver. Apenas a mão, o instrumento exploratório, simbólico. O corpo que vemos em silhuetas é sempre o corpo próprio, nas suas múltiplas dimensões, personalidades. O corpo social, o corpo psicológico, um corpo carnal, o corpo das emoções. Muito embora nunca nos seja dado a ver algum traço identificativo ou pessoal da personagem, aqui e além vemos um coração, um órgão vital, elementos dos quais não sabemos a proveniência, poucos, mas que nos indiciam uma orientação pessoal. Em todo o caso, há nesta série um claro afastamento plástico, técnico e psicológico em relação à sua anterior exposição individual, Circo Completo, na Galeria Bernardo Marques. O corpo fragmentado que Rui propõe em Hand Job não o é pela mutilação mas sim pelo explorar de diferentes realidades dentro de uma mesma. Ecos de obras e séries mais afastadas no tempo como na exposição My Poche and My Pocket, apresentada no Porto e em Braga.

A um nível meramente plástico/estético, existe uma aproximação inconsciente aos universos visuais de um António Palolo (em inícios de anos 80), em período constituído por telas que representavam a figura humana através dos seus contornos. De facto, nesta fase, encontrar o seu “eu” era também a demanda deste pintor, uma chadada “metafísica pessoal” repleta de figuras que questionam o “eu” e evocavam uma ancestral memória colectiva. Contudo, sabemos que Rui Effe não teve contacto prévio com estas obras de Palolo e, para além disso, os diferentes rostos que nos aparecem em contornos incertos são sempre alter-egos do artista, sendo apenas as mãos os elementos pertencentes a um outro elemento humano. Por outro lado, se quisermos encontrar mais analogias, o desenho de contorno, o decalque, a cópia anatómica praticada por Rui Effe encontra ecos no trabalho de Lourdes Castro que trabalhava a sombra de seus amigos, tal como Effe retrata-se através de corpos de seus conhecidos, contornando-os no papel como Lourdes Castro contornava os seus em lençóis de sombras. Em ambos, os corpos unidos. Ou a ausência deles testemunhada pelos seus traços. Em todo o caso, há que realçar que o desenho pelo contorno é o sinónimo de corpo desnudado. «Toda esta redundância tem a ver com o facto de procurarmos incessantemente o nosso próprio prazer, o prazer da própria imagem e dar aos outros aquilo que realmente entendemos, julgando sempre que o que nos preocupa é uma inquietação comum», explica o artista.

Não sabemos se este é um registo de work in progress, sabemos ser um projecto livre e impulsivo, de contornos autobiográficos. Hand Job é, certamente, um ponto de viragem.


Radiografia

Rui Effe nasceu em Braga em 1974. É licenciado em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto com pós-graduação em Direcção Artística pela Escola Superior Artística do Porto. Pós-Graduação em Estudos da Criança – Comunicação Artística e Expressão Plástica no Instituto de Educação da Criança da Universidade do Minho. Foi o Director Artístico do projecto/exposição Este é o Meu Corpo (2006), no Museu dos Biscainhos, Braga. Fez as ilustrações do livro São Salvador do Mundo (2007), com texto de valter hugo mãe para o projecto Pintar de Verde o Douro, Ministério da Cultura. Expõe desde 2000, salientando-se as seguintes individuais: Ma Poche and my Pocket (2000), no Museu Nogueira da Silva, Braga, Disconnected (2005), na Casa das Artes do Porto, Circo Completo (2008), na Galeria Bernardo Marques, em Lisboa. Das exposições colectivas salientam-se o Projecto IMAN (2007), no Festival de Arte Experimental, Casa das Artes de Famalicão e 7 Projectos Individuais (2008), na Cidadela de Cascais. Participou na Arte Lisboa 2008.

O projecto Hand Job, de Rui Effe, está patente na Galeria Fábulas (Calçada Nova de São Francisco, nº14) ao Chiado. De segunda a sábado das 10h às 24h. Uma exposição Umbigo, com curadoria de Miguel Matos e Elsa Garcia. Até 20 de Julho.

in UMBIGO MAGAZINE



http://esteeomeucorpo.blogspot.com/