7 de julho de 2009

Rui Effe - Hand Job



Rui Effe

Galeria Fábulas

As obras de Rui Effe em “Hand Job”, embora sejam uma continuação dos seus anteriores trabalhos, demarcam-se claramente destes, revelando maturidade e evolução. Effe utiliza a figura humana como vulto, de forma não representativa em sobreposições sobre tela ou em desenhos sobre papel que se transformam em alguns casos em dípticos e múltiplos.

Embora menos ousadas, estas peças são mais emotivas e revelam um aprofundar do conceito artístico, que será talvez menos freudiano do que as anteriores mas mais frontal nas questões que lança.

A mutilação do corpo é substituída por indícios de que a mutilação é emocional. Onde anteriormente o artista era explícito, agora é insinuante, ambíguo. Rui Effe nasceu em Braga há apenas 34 anos, mas a sua obra forma já um conjunto profícuo e consistente. Formado em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, desde 2001 que participa em exposições colectivas e individuais. “Hand Job” fala de masturbação, própria e de outrém, mas sem qualquer carácter pornográfico. Isto quer dizer que pode levar as crianças! O que o artista quer despertar é a consciência do outro. Através de colagens e sobreposições, é-nos apresentada uma personagem que se desdobra em várias.

As figuras de “Hand Job” não estão sozinhas. Há sempre um outro que dialoga com elas, uma mão, a sombra de um toque, de uma carícia. Effe cria analogias entre a expressão artística, o prazer que daí tiramos quer como espectador, quer como artista e o prazer físico, sexual. A arte como prazer físico, imediato, que pode ser ou não auto-infligido.

É pena que o artista opte por não dar títulos às obras, visto os seus textos revelarem também grande talento. Veja-se o blogue esteeomeucorpo.blogspot.com.

Bárbara Valentina - terça-feira, 7 de Julho de 2009 - in time out lisboa

Rui Effe- Hand Job

por Miguel Matos


«É através de um outro que me torno um eu livre. Eu descubro-me como um eu livre através da sapiência do outro» - Rui Effe

Se até ao presente projecto, o trabalho de Rui Effe denotou sempre uma tendência para discursar sobre a dor física e emocional, sempre num registo metafórico em que o corpo e as suas incapacidades e/ou limitações eram omnipresentes, desta vez, o artista muda a sua entoação. É agora o conhecimento próprio através de uma ligação a um outro que está em questão.

A série Hand Job começou com um conjunto de experiências em colagens sobre recortes/silhuetas sob o tema da masturbação. A masturbação entendida como “modalidade” de extracção daquilo que está dentro de nós. A masturbação como exploração, não apenas auto-exploração como também exploração do prazer do “eu” através de um outro – a mão do outro. Um outro indefinido, uma entidade que não vemos, que não se deixa ver. Apenas a mão, o instrumento exploratório, simbólico. O corpo que vemos em silhuetas é sempre o corpo próprio, nas suas múltiplas dimensões, personalidades. O corpo social, o corpo psicológico, um corpo carnal, o corpo das emoções. Muito embora nunca nos seja dado a ver algum traço identificativo ou pessoal da personagem, aqui e além vemos um coração, um órgão vital, elementos dos quais não sabemos a proveniência, poucos, mas que nos indiciam uma orientação pessoal. Em todo o caso, há nesta série um claro afastamento plástico, técnico e psicológico em relação à sua anterior exposição individual, Circo Completo, na Galeria Bernardo Marques. O corpo fragmentado que Rui propõe em Hand Job não o é pela mutilação mas sim pelo explorar de diferentes realidades dentro de uma mesma. Ecos de obras e séries mais afastadas no tempo como na exposição My Poche and My Pocket, apresentada no Porto e em Braga.

A um nível meramente plástico/estético, existe uma aproximação inconsciente aos universos visuais de um António Palolo (em inícios de anos 80), em período constituído por telas que representavam a figura humana através dos seus contornos. De facto, nesta fase, encontrar o seu “eu” era também a demanda deste pintor, uma chadada “metafísica pessoal” repleta de figuras que questionam o “eu” e evocavam uma ancestral memória colectiva. Contudo, sabemos que Rui Effe não teve contacto prévio com estas obras de Palolo e, para além disso, os diferentes rostos que nos aparecem em contornos incertos são sempre alter-egos do artista, sendo apenas as mãos os elementos pertencentes a um outro elemento humano. Por outro lado, se quisermos encontrar mais analogias, o desenho de contorno, o decalque, a cópia anatómica praticada por Rui Effe encontra ecos no trabalho de Lourdes Castro que trabalhava a sombra de seus amigos, tal como Effe retrata-se através de corpos de seus conhecidos, contornando-os no papel como Lourdes Castro contornava os seus em lençóis de sombras. Em ambos, os corpos unidos. Ou a ausência deles testemunhada pelos seus traços. Em todo o caso, há que realçar que o desenho pelo contorno é o sinónimo de corpo desnudado. «Toda esta redundância tem a ver com o facto de procurarmos incessantemente o nosso próprio prazer, o prazer da própria imagem e dar aos outros aquilo que realmente entendemos, julgando sempre que o que nos preocupa é uma inquietação comum», explica o artista.

Não sabemos se este é um registo de work in progress, sabemos ser um projecto livre e impulsivo, de contornos autobiográficos. Hand Job é, certamente, um ponto de viragem.


Radiografia

Rui Effe nasceu em Braga em 1974. É licenciado em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto com pós-graduação em Direcção Artística pela Escola Superior Artística do Porto. Pós-Graduação em Estudos da Criança – Comunicação Artística e Expressão Plástica no Instituto de Educação da Criança da Universidade do Minho. Foi o Director Artístico do projecto/exposição Este é o Meu Corpo (2006), no Museu dos Biscainhos, Braga. Fez as ilustrações do livro São Salvador do Mundo (2007), com texto de valter hugo mãe para o projecto Pintar de Verde o Douro, Ministério da Cultura. Expõe desde 2000, salientando-se as seguintes individuais: Ma Poche and my Pocket (2000), no Museu Nogueira da Silva, Braga, Disconnected (2005), na Casa das Artes do Porto, Circo Completo (2008), na Galeria Bernardo Marques, em Lisboa. Das exposições colectivas salientam-se o Projecto IMAN (2007), no Festival de Arte Experimental, Casa das Artes de Famalicão e 7 Projectos Individuais (2008), na Cidadela de Cascais. Participou na Arte Lisboa 2008.

O projecto Hand Job, de Rui Effe, está patente na Galeria Fábulas (Calçada Nova de São Francisco, nº14) ao Chiado. De segunda a sábado das 10h às 24h. Uma exposição Umbigo, com curadoria de Miguel Matos e Elsa Garcia. Até 20 de Julho.

in UMBIGO MAGAZINE



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