18 de agosto de 2009

Palavras mágicas


"Isto do amor e da paixão é tudo uma grande maçada para a qual não fomos preparados!

A cultura ensinou-nos a desgostar, trair, a dissimular; treinou-nos para a melhor aparência de sensatez e de modéstia, não a verdadeira sensatez ou modéstia; a melhor forma de falar e nada dizer.

Em alternativa, não falar. E é nisso que somos peritos.

O que interessa é chegar à hora de fechar os olhos, passe o eufemismo, sem ter sido inconveniente, sem ter pronunciado uma palavra comprometedora. Como se fôssemos ingleses.

Álvaro de Campos explica isto maravilhosamente no Poema em Linha Recta.

No Reino Unido não sei como é (o mais próximo que daí estive foi em transfer, no aeroporto de Gatwick, entre funcionários de origem paquistanesa).

Não sei se se chamam “you, son of a bitch”, a cada esquina, mas, em Portugal, chamar a alguém filho da puta é cool; “ó meu grande cabrão”, por exemplo, é uma expressão de ternura.

Inversamente, dizer “meu amor” é absolutamente ridículo.

Os amantes mimoseiam-se com ternuras como “és um estúpido” ou “ó minha gorda”, em lugar de “amo-te” e “ó minha querida”.

As pessoas tratam-se tão mal que nem dão por ser maltratadas.

E vivem assim, sem nunca chegar a perceber por que são infelizes, uma existência de generalizado amor-tabu.

De horror à expressão amorosa.

O verbo amar é o exemplo gramatical usado para se ensinar toda a primeira conjugação, nomeadamente nas línguas românicas, mas é um verbo parecido com o Latim: morto; não se fala, logo, esquece-se.

Usa-se apenas a título de exemplo.

Não passa pela cabeça de ninguém afirmar, a meio de uma conversa de café, “eu cá, amo a minha irmã”! Muito menos, “amo o meu cão, as roseiras do meu jardim ou as paredes da casa que construí”.

Não faltava mais nada. Aqui ninguém ama nada nem ninguém. Quanto muito, “gosta-se de”....

No auge da paixão, “adora-se”. Mas adora-se sem se saber o que significa adorar, apenas porque parece um bocado mais forte, mas não mete ao barulho a palavra interdita: amor.

Amor, assim mesmo, um “amo-te” redondo, só nós, meninas, é que ainda nos aventuramos.

Os homens dão-nos o desconto, porque somos assim, ou seja, mulheres, e trazemos acoplado o problema do excesso de expressão: se não falamos, rebentamos. Mas não são eles que se vão habilitar a devolver “amo-te” a torto e a direito. Porque isso do “amo-te” é um grande compromisso.

Portanto, como resposta, ouvimos o habitual “também gosto muito de ti” ou “és muito especial para mim”.

Sinceramente, tenho algumas saudades das fotonovelas da minha infância, o Corin Tellado, se não me engano, e outras, com histórias sempre iguais.

Acreditei piamente naquilo; convenci-me que um dia também me haviam de dizer, como lhes diziam a elas, e quero lá saber se era para as convencer, se era lamechas e ridículo “amo-te como nunca amei ninguém!”

E, sou sincera, até lá..."


por Isabela Figueiredo
(via Joana Duarte, Facebook)