24 de agosto de 2009

Um sítio de ninhos


A minha casa fica no ar.

No Verão, abro as janelas o dia inteiro.

A minha casa fica na copa de uma velha árvore alta, entre ramos e folhagem, para que eu exista no mundo como se não lhe pertencesse.

Hoje, ao anoitecer, uma andorinha-bebé entrou pela janela da sala e ficou voando aos círculos, perdida, sem compreender por onde entrara.

Escondeu-se na estante, num vão entre livros, local onde fui resgatá-la, fechando-a muito de leve na concha das mãos, olhando-lhe o biquinho, a ponta da cauda, só um instante, a medo.
Assustava-se.

Como pensa uma andorinha-bebé que ainda não conhece a vileza?

"Estou neste lugar; não é o meu; quero sair deste lugar."

Mais nada. Quando me aproximei, terá pensado, "um bicho grande e feio: não quero ser apanhada. Bato as asas."

Pousei-a no rebordo da janela, e abri as mãos, com pena; percebeu-se livre e voou em direcção ao Mar da Palha. Perdi-a de vista muito antes.


Um dia a minha casa será um pombal, um sítio de ninhos, e quem chegar não me encontrará, porque estarei a catar as outras aves da minha espécie...


(Via facebook Joana Duarte)