2 de dezembro de 2009

Jeffrey Sachs: "Deveríamos taxar os bancos e assegurar receitas para a sociedade"



por Bruno Faria Lopes, I-online


Estoril, Cimeira Ibero-Americana. Jornalistas e repórteres de imagem acotovelam-se à volta de Shakira para saber o que pensa a cantora pop colombiana da pobreza infantil na América Latina e no mundo. Ao lado, sozinho e empurrado para trás do palco, está Jeffrey Sachs, um dos economistas mais influentes do mundo e líder no combate ao subdesenvolvimento. "Acha que foi ela que trouxe algumas daquelas pessoas aqui?", atira com humor em entrevista ao i. "Uma vez fui visitar o Papa João Paulo II com o Bono [líder da banda U2] e, quando saímos pelos portões do Castelo Gandolfo, milhares de miúdos começaram a correr atrás da carrinha. Eu virei-me para o Bono: "Sabes, eles fazem sempre isto quando vêem macroeconomistas."

Sachs, 55 anos, não inveja o foco mediático sobre as celebridades com que costuma viajar pelo mundo para promover projectos de desenvolvimento - são elas, as estrelas, que vêm ter com o director do Earth Institute, da Universidade de Columbia em Nova Iorque, com acesso garantido aos principais líderes políticos.

"A Shakira é que veio ter comigo e disse: 'Vamos focar-nos na educação pré-escolar para crianças dos países subdesenvolvidos', uma ideia que achei óptima", afirma Sachs sobre o projecto que co-apresentou no início da semana aos governos latino-americanos, à margem da cimeira do Estoril.

Jeffrey Sachs é focado em resultados e o que o perturba é a falta de progressos dos países ricos no combate à pobreza e alterações climáticas (ver textos ao lado), sobretudo nos Estados Unidos, paralisados económica e politicamente. "Temos um défice orçamental enorme [10% do PIB] e os americanos não querem pagar mais impostos, mesmo que seja para financiar despesa social vital", aponta. Enquanto isso, diz Sachs, a taxa de pobreza na maior economia do mundo continua a subir - uma em cada cinco crianças cresce sem meios, outras tantas vivem de senhas de alimentação do Estado. "Penso que não dar dinheiro a áreas cruciais é um erro enorme: deveríamos começar por taxar os bancos, que receberam biliões para salvar o sistema, e assegurar que temos as receitas para pagar as necessidades básicas da sociedade", propõe.

A situação - que não pode deixar de sugerir um paralelismo com Portugal - é agravada pela cada vez maior polarização na política e sociedade americana. "Estamos perante um grande fosso: o presidente Obama quer fazer mais, mas os republicanos estão absolutamente unidos contra tudo, por razões políticas", diz Sachs, que veste a camisola dos democratas. Tudo num contexto, sublinha, em que a recuperação do crescimento nos Estados Unidos será uma tarefa de longo prazo.

Ainda assim, Sachs mantém um optimismo militante numa era marcada, acusa, pelo cinismo. Apesar das barreiras pela frente, a economia mundial deverá contar em 2010 com a ajuda da Ásia e América Latina, prevê o economista. E os riscos ambientais e de pobreza no futuro? "Viajo muito e vejo sucessos reais. As pessoas são cínicas porque quando se está sentado em casa há de facto muito para se ser cínico. Mas se saírem e virem o que trabalho duro e criatividade conseguem mesmo fazer deixam de ser cínicos."

A opinião de Jeffrey Sachs sobre 4 cantos e questões do mundo:

1. Estados Unidos
“Mesmo durante o boom económico os países desenvolvidos, como os EUA, foram algo egoístas. Numa altura de crise como esta, é ainda mais importante que o dinheiro não vá apenas para os banqueiros, mas para as pessoas que estão a sofrer. Os países ricos prometeram em 2005 que até 2010 duplicariam a ajuda a África. Não o fizeram. A cada seis meses disseram que o fariam, mesmo na cimeira do G20 em Abril. Agora estamos a semanas do prazo. Os canadianos vão receber o G8 em 2010 e querem que esta seja uma cimeira de responsabilização. Isto é o mais importante e tenho falado com o governo canadiano para cumprir a agenda. Frustra--me que alguns bancos dos EUA atribuam tanto dinheiro em bónus como o que os EUA doam a África por ano. E a ironia é que o mundo desenvolvido prometeu só 1% do seu rendimento. Não é muito, mas para as pessoas na pobreza é uma diferença entre vida e morte.”

2. América Latina
“As economias emergentes continuam fortes”, considera o economista que preside ao Earth Institute. Mas avisa: “Em 2010 a recuperação da economia mundial tem ressaltos pela frente. Os EUA estão numa situação de grande desequilíbrio neste momento: enormes défices orçamentais, grandes divisões políticas. Não é uma situação feliz, com choques para os restantes países. E não vejo uma recuperação rápida na economia dos EUA, simplesmente porque isto vai além de uma cura no curto prazo. Diria que o mundo entrou num período de alguma instabilidade em que primeiro temos de aprender a trabalhar de forma mais colectiva na liderança política. Há 30 anos os EUA coordenavam quase tudo e isso não é mais possível, nem o G8, por isso avançámos para o G20. Felizmente algumas partes do mundo estão a recuperar. Na Ásia a recuperação é real e vai ajudar à retoma na América do Sul, devido à procura por matérias-primas. O impulso das economias emergentes continua forte.”

3. Copenhaga e ambiente
“Na Cimeira de Copenhaga não vamos ter o tipo de acordo de que precisamos e vamos entrar noutro ano de negociações. É uma situação complicada. Os líderes políticos já disseram que não poderemos ter um tratado, mas, sim, um comunicado. E mesmo esse comunicado não está garantido, porque coisas básicas como quem irá pagar [as reduções das emissões de CO2] estão longe de estar acertadas. Os países ricos dizem: ‘Eu pago um bocadinho e vocês devem aceitar isso.’ Mas o mundo em de-senvolvimento responde: ‘O nível dos mares está a subir, temos secas, os nossos glaciares estão a desaparecer e vocês querem dar-nos pouco e esperam que assinemos felizes.’ Ainda vejo muita irrealidade nesta área. E a menos que consigamos acertar uma estratégia para as alterações climáticas e as questões energéticas isto vai pesar porque não teremos investimentos em novos sectores, nem a transformação nos transportes para chegar a veículos eléctricos. É preciso um acordo negociado globalmente.”

4. Ajudas a África
“Dambisa Moyo não sabe do que fala.” Segundo Sachs, os “críticos [do sistema de ajudas financeiras a África], como a Dambisa Moyo, não sabem realmente do que estão a falar. Ela era uma trader de obrigações na Goldman Sachs, em Londres. Essa é a sua formação. Tem de se estudar estes assuntos, viver com as pessoas nas aldeias e saber o que tem de ser feito. Eu vi com os meus próprios olhos e a minha equipa [no projecto Milennium Villages, em África] é feita por agrónomos, especialistas em malária, especialistas em educação, hidrologia e negócios. Eles viram, sabem o que pode de ser feito, como duplicar a produção de comida, como baixar a malária, como melhorar as escolas. Isto é tão prático. Essas críticas são compreensíveis porque vêm de pessoas que não têm conhecimento prático. Esses são profissionais das queixas, não profissionais que resolvem problemas.”