20 de janeiro de 2010

Madrid-Málaga em alta velocidade mostra o que acontecerá em Portugal



No dia 24 de Dezembro de 2007, o comboio de Alta Velocidade Espanhol (AVE) chegou a Málaga, o que possibilitou a sua ligação a Madrid em 2 horas e 30 minutos, sendo o modo de transporte mais competitivo entre aquelas duas cidades. É interessante observar o que ocorreu, passados 2 anos e determinar, com rigor, a percentagem de tráfego que foi retirado ao avião.

Rui Rodrigues
Email: rrodrigues.5@netcabo.pt
Site: www.maquinistas.org

Em 2007, segundo a AENA - Aeropuertos Españoles y Navegación Aérea -, antes da chegada do AVE, o tráfego aéreo na rota Madrid-Málaga foi de 1 milhão e 554 mil passageiros. Em 2009, no segundo ano de existência do AVE, o tráfego aéreo caiu para 788 mil passageiros.

Em 2008, o AVE transportou 2 milhões de passageiros e, em 2009, o número foi de 1,94 milhões, tendo perdido 60 mil passageiros relativamente ao ano anterior (fonte Renfe). A taxa de ocupação média foi de 68% tendo sido utilizados, por dia, 12 comboios por sentido, que tiveram uma pontualidade de 97%. Outro dado interessante é verificar que 80% dos clientes do AVE viajaram em classe turística e os restantes 20% optaram pelas classes “Preferente” e “Club”.

Em dois anos, o AVE praticamente manteve o tráfego de passageiros e, na rota aérea Málaga-Madrid, esse valor caiu para metade.

Considerando a repartição de tráfego entre os dois modos de transporte, na rota Málaga-Madrid, em 2009, o avião ainda possuía uma quota de 29% e o AVE de 71%, o que parece ser semelhante ao que se verificou na via Madrid-Sevilha, isto é, a maioria dos passageiros preferiram o AVE. que passou a deter 85% do mercado e o avião só 15%. A transferência de passageiros do avião para o comboio foi aumentando ao longo dos anos, o que também deverá acontecer entre Málaga e Madrid.
O tráfego aéreo entre Sevilha e Madrid de 1999 e 2009 é o mesmo, ou seja, aquela que era a principal rota do aeroporto de Sevilha não só estagnou como deixou de contribuir para o crescimento de tráfego.

No corredor Lisboa-Madrid, quando a nova ligação ferroviária for uma realidade, a viagem será efectuada em 2 horas e 45 minutos, o que é semelhante ao tempo de ligação de 2 horas e 30 minutos do AVE Madrid-Málaga.

Os aeroportos de Málaga e Lisboa têm diferenças no tipo de tráfego, mas também apresentam algumas características análogas. O primeiro é uma base da Ryanair e o segundo uma base da TAP. Ambos servem cidades que estão situadas no limite da Península Ibérica mas, enquanto o primeiro está situado a Sul, o segundo está a Oeste desta zona da Europa.


SEMELHANÇAS ENTRE PORTELA E MÁLAGA

Ambas as cidades são terminais e, em Málaga, o tráfego é sobretudo turístico, como o de Lisboa, ligando-se semanalmente com 17 cidades espanholas e 60 capitais europeias e alguns destinos da América, Ásia e África. O destino mais importante, para Málaga e Lisboa, é a União Europeia (UE). Existem outras semelhanças entre Málaga e a Portela. Em 2007, o principal destino das partidas daquela cidade da Andaluzia era Madrid com um tráfego de 1,55 milhões de passageiros enquanto que, na Portela, o tráfego para a capital espanhola, no mesmo ano, atingiu 1 milhão, sendo certo que, em 2009, também era o principal destino do aeroporto de Lisboa, dada a taxa de crescimento nessa viagem.

O que já aconteceu em Sevilha e está a ocorrer em Málaga, obviamente também vai ocorrer em Lisboa: aquela que ainda é a principal rota da Portela, ou seja Lisboa-Madrid, vai ter uma forte redução e vai deixar de contribuir para o aumento de tráfego, o que diminuirá a taxa de crescimento na Portela.

O principal aeroporto de Barcelona tem visto o seu tráfego diminuir não só devido ao AVE e à crise económica mas, também, devido à existência de dois aeroportos secundários para as ‘Low-cost’, em Girona e Reus-Tarragona, que estão localizados junto à nova rede ferroviária de bitola europeia e à rede convencional. Brevemente existirá um terceiro aeroporto secundário na Catalunha.

A nova rede ferroviária de Alta Velocidade (AV) vai permitir uma maior concorrência entre aeroportos por aumentar substancialmente a sua área de influência. A futura linha Lisboa-Madrid de AV vai ter uma estação intermédia em Badajoz, cidade onde está a ser modernizado o aeroporto para receber as ‘Low-cost’ com baixas taxas aeroportuárias, uma vez que só vão ser ali investidos 12 milhões de Euros. Com a nova rede ferroviária, Badajoz ficará a cerca de 1 hora de Lisboa.

Tendo em conta que o projectado aeroporto de Alcochete está previsto ter um custo superior a 5 mil milhões de Euros, esse valor torna impossível a concorrência com as baixas taxas de Badajoz. A melhor opção para evitar tal situação e que poderia dar origem a um gigantesco “elefante branco” é continuar a rentabilizar a Portela que está a ser modernizada e, caso seja necessário, complementá-la com a base aérea do Montijo, que poderia receber as ‘Low-cost’.

O tráfego ferroviário do AV Lisboa-Madrid vai ser menor do que o de Madrid-Málaga pela simples razão de que estas cidades pertencem ao mesmo país. O que mais irá justificar a nova via entre Madrid e Lisboa será o transporte de mercadorias, em bitola europeia, pois vai permitir a ligação dos portos de Sines e Setúbal à UE. A nova rede ferroviária permitiria assim à Auto-Europa exportar os seus veículos terminados directamente e sem transbordos para a Europa.

Fonte: Público