11 de fevereiro de 2010

Nelson Mandela: 20 anos depois...



Desigualdades e segregação racial ainda são uma realidade



A libertação de Nelson Mandela a 11 de Fevereiro de 1990, após 27 anos de prisão, colocou em marcha uma transformação política que culminou com a histórica eleição multi-racial de 1994 e empossamento do próprio Mandela como primeiro presidente negro do país. Hoje, a África do Sul é uma democracia forte, mas ainda assolada por desigualdades, pobreza e desemprego.

Nelson Mandela, primeiro presidente da África do Sul após o Apartheid, e um dos ícones mundiais, é o exemplo certo de que quem luta com garra, um dia vence e canta vitória. Actualmente com 91 anos de idade, 27 dos quais passados na prisão, sob o regime do apartheid, Mandela sempre fez do combate à desigualdade e segregação racial o seu pão de cada dia.

Foi na base da sua determinação e persistência que, depois da sua libertação a 11 de Fevereiro de 1990, Madiba, como é carinhosamente tratado, começou a desenhar a queda do regime do apartheid na África do Sul. Aliás, a sua libertação, comemorada a nível mundial, contribuiu para o fim do apartheid, abrindo assim espaço para a instauração da democracia naquele país.

Hoje, 20 anos depois, o prémio Nobel da Paz fez questão de celebrar esta data ao lado dos seus antigos amigos de cadeia, nomeadamente, Christo Brand, um dos carcereiros e Robben Island. Ontem foi organizado um jantar na sua residência, com a presença da sua família e amigos, onde os colegas de prisão de Mandela relembraram grandes momentos que passaram juntos.

NOVA ERA NA RAS

A libertação de Nelson Mandela e 1990 despertou no seio dos sul-africanos e do mundo em geral uma grande esperança de uma nova era para o povo da África do Sul, o que de facto aconteceu. A nível político, depois da libertação de Mandela, todas as leis de segregação foram abolidas, assim como foi adoptado um sistema democrático multi-racial, propiciando assim o surgimento de uma nova constituição, vista na altura como uma das mais liberais do mundo.

Eleito como primeiro presidente sul-africano após o apartheid, Nelson Mandela, no seu primeiro e único mandato, fez da República da África do Sul um novo Estado - livre do regime racista do Apartheid (segregação racial), onde a liberdade e a igualdade entre os cidadãos sul-africanos é princípio “sine qua non” da nova constituição.

De acordo com Moeletsi Mbeki, do Instituto Sul-Africano de Relações Internacionais, esta nova visão política de Mandela fez com que aquele país registasse grande crescimento económico, político e social. O país transformou-se num gigante económico do continente negro, permitindo a criação de programas sociais que hoje beneficiam 13 dos 48 milhões de sulafricanos.

VINTE ANOS DEPOIS

Volvidos vinte anos, a República da África do Sul continua, através dos ideais de Mandela, a lutar contra situações de desigualdades, assim como a impaciência que domina aquele país, com maior impacto nos bairros suburbanos, vulgarmente conhecidos por “township”.

Segundo Moeletsi Mbeki, ao longo do tempo, o optimismo sobre os ideais do presidente Mandela “diminui muito”. Mbeki diz que, com o tempo, o processo de redistribuição de renda naquele país começou a registar algumas irregularidades, abrindo espaço para que alguns dos excluídos do antigo regime pudessem melhorar a sua situação.

Para secundar a tese de Mbeki, um relatório recentemente divulgado pelo próprio governo sul-africano afirma que, actualmente, as disparidades entre os sul-africanos brancos e negros não param de crescer. De acordo com o relatório, a renda média mensal dos negros aumentou 37,3% desde 1994, no entanto, no caso dos brancos, o salto foi de 83,5%.

Frans Cronje, do Instituto sulafricano de relações entre raças, afirma que, ao longo deste período, o ANC desenvolveu um grande trabalho, mas os sectores considerados seus pontos fortes, como a melhoria das condições de vida das populações, a educação e a luta contra a criminalidade, foram um autêntico fracasso.

Em consequência, “a cólera nas comunidades negras pobres aumentaram rapidamente, e os resultados do partido no poder decepcionam cada vez mais”, acrescentou Cronje, repisando que diante desta situação é preciso que o actual presidente sulafricano, Jacob Zuma, aproveite o vigésimo aniversário da libertação de Nelson Mandela para reafirmar a sua determinação de transformar a RAS.


O País