16 de fevereiro de 2010

Sócrates contra-ataca: governo lança ofensiva para repor confiança


O governo pôs em marcha uma ofensiva ao nível da comunicação para mudar a imagem de Portugal nos mercados financeiros internacionais. A prioridade era acabar com a colagem das finanças públicas nacionais às gregas e mudar a percepção que se estava a criar de que Portugal era a nova Grécia.

A face mais visível deste plano foi o conjunto de entrevistas e declarações dadas por altos responsáveis portugueses aos principais órgãos de informação internacionais, soube o i, junto de fonte próxima do governo. Mas a estratégia terá também passado por acções mais discretas de comunicação e até de lobby junto dos decisores, quer ao nível do investimento, mercados e agências, quer ao nível da comunicação social.

Segundo uma outra fonte do governo, o executivo está mesmo a negociar um contrato com uma agência de comunicação e relações públicas internacional que já terá ajudado nas entrevistas transmitidas pela CNN e outros órgãos.

Secreta espanhola investiga No olho do mesmo furacão que Portugal, a Espanha terá ido mais longe na reacção.

Segundo a edição de ontem do "El País", os serviços secretos estão a investigar o papel de alguns investidores e meios de comunicação social nas "pressões especulativas" que afectam também a dívida pública espanhola.

O jornal, citado pela Lusa, adianta que a divisão de inteligência económica do Centro Nacional de Inteligência está a indagar "se os investidores e a agressividade mostrada por alguns meios de comunicação anglo-saxónicos obedece à dinâmica do mercados e aos desafios que enfrenta a economia espanhola, ou se há algo mais por trás dessa campanha". O ministro do Fomento, José Blanco já tinha denunciado "manobras algo turvas" de especuladores financeiros contra a Espanha.

Foi a declaração do comissário europeu Joaquim Almunia , a 3 de Fevereiro, que incendiou os mercados financeiros. Os investidores internacionais já estavam desconfiados em relação à situação das finanças públicas nacionais. Primeiro foram os alertas de altos responsáveis das agências de rating, depois as notícias de primeira página e editoriais de jornais de referência internacionais como o "Financial Times". A gota de água foi a declaração do comissário Almunia de que Portugal e Espanha partilhavam alguns dos problemas da Grécia. As bolsas de Lisboa e Madrid afundaram mas de 5%, arrastando os mercados europeus, e a imprensa internacional chegou mesmo a falar em receios de um tsunami ao estilo Lehman Brothers.

O preço da dívida pública portuguesa derrapou e a remuneração das obrigações do tesouro, (yelds) subiu. Esta tendência atraiu movimentos especulativos, com os investidores a realizarem operações de venda a descoberto (short--selling), a apostar numa queda mais acentuada do valor da dívida, o que ainda ampliou o fenómeno. Para Portugal, isto significa maiores encargos no financiamento do Estado, uma factura que acaba também por chegar aos bancos e a toda a economia nacional.

Desde quarta-feira passada, dia em que as bolsas europeias viveram o dia mais negro do ano, que o primeiro-ministro e o ministro das Finanças se desdobraram em entrevistas a vários órgãos internacionais. José Sócrates falou com o "New York Times", o "Libération", com a Reuters em Bruxelas e ainda manteve um encontro com os correspondentes estrangeiros em Portugal de jornais como o "Financial Times". O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, deu entrevistas à CNN e à BBC.

Seja coincidência ou eficácia, a verdade é que no final da semana passada, os mercados já davam sinais de desanuviamento com a descida das yelds das Obrigações de Tesouro (OT). O discurso das agências de rating também se suavizou. A Fitch informou que o risco de incumprimento de Portugal era próximo de zero e a Moody's reconheceu que Portugal e a dúvida pública nacional não eram comparáveis à Grécia. O IGCP (Instituto de Gestão do Crédito Público) conseguiu colocar uma tranche de OT no valor de três mil milhões de euros. Com a ajuda de uma elevada taxa de rentabilidade, a procura superou em quatro vezes a oferta.

Sócrates toca a reunir o PS O partido estava parado, o secretariado não reunia. A crise das escutas e o início do debate interno sobre a sucessão levou Sócrates a reagir: ontem, de uma assentada, foram marcadas reuniões do secretariado nacional (quarta-feira), do grupo parlamentar com o primeiro-ministro (quinta-feira) e da Comissão Nacional (sábado). É o regresso ao partido para recolher apoios políticos, num momento em que está sob violenta contestação por causa do escândalo PT/escutas e internamente já se começa a discutir a sucessão. "Esta reunião servirá para desmentir todos os boatos de divisão interna do partido", disse ao i uma fonte próxima do secretário-geral. "O PS vai cerrar fileiras em torno de José Sócrates", afirma outro dirigente - com "o secretário-geral de rastos" ninguém se irá atrever a contestar a gestão política do partido e do governo. É à comissão nacional de sábado que Sócrates espera buscar o "ânimo" partidário. E conta que os mais altos dirigentes do partido apareçam para lhe manifestar o apoio. "É óbvio que existe preocupação no partido sobretudo quando se trata da liberdade de expressão, um tema que está ligado à nossa história. O PS é um partido que lutou por esse direito", afirma o ex-porta-voz do PS, Vitalino Canas, que acha ser necessário "desfazer uma certa imagem [na opinião pública] que não corresponde à realidade do partido".