10 de março de 2010

Cabo Verde. Grogue, mornas e cachupa para aquecer as noites de Lisboa





Numa discoteca ou num restaurante, a festa é onde um cabo-verdiano quiser

Arlindo, ex-porteiro do B.Leza, nunca foi a Cabo Verde. Mas não é isso que o impede de ser um embaixador da noite cabo-verdiana em Lisboa. "Sou um cabo-verdiano do Saldanha", apresenta-se à entrada da discoteca RibeirArte, no Mercado da Ribeira, onde há quase um ano organiza noites africanas. "Os meus pais são de São Vicente e sempre vivemos num terceiro andar do Saldanha como se vive em Cabo Verde", conta. Nessa altura, a polícia já se habituara às queixas dos vizinhos do prédio. "Muitas vezes já nem apareciam", recorda Arlindo. "Sabiam que era a minha avó a bater com o pilão no milho para preparar a cachupa. Aquilo fazia um barulho..." Hoje em dia, a música da sua discoteca não incomoda ninguém. Mornas, coladeiras e funanás ecoam pelas bancas vazias do Mercado da Ribeira. No primeiro andar, a RibeirArte torna-se pequena para tanta gente com vontade de dançar e o ar é tão quente que é fácil acreditar que estamos na ilha do Sal.

"Estava a ver que hoje não dançava uma como deve ser", suspira ofegante uma mulher loira de meia-idade quando a música acaba. Mas nem tem tempo para se sentar. Assim que se ouvem os primeiros acordes do funaná seguinte, já tem mais uma mão mulata estendida e um novo convite para dançar. Quem não está na pista de dança está desesperadamente à procura de parceiro. "Até eu próprio estou disponível para ensinar quem quiser dançar estas músicas", diz Arlindo, que explora o espaço desde Abril do ano passado. "Tentei criar aqui um ambiente tipo B.Leza. É importante que na cidade existam espaços para divulgar a cultura cabo-verdiana. Eu nunca lá fui, mas conheço-a bem."

B.LEZA ÀS COSTAS

Na pequena discoteca, uma banda de "pulas" - brancos, em crioulo -, os Vira Lata, toca êxitos africanos. "Este espaço veio preencher uma lacuna muito grande desde que o B.Leza fechou", afirma o baterista Ivo Costa, um dos músicos da banda das sextas-feiras. "Não há muitos sítios assim, onde se pode dançar com música ao vivo... pelo menos este tipo de música."

Madalena Saudade e Silva, antiga gerente do B.Leza, é da mesma opinião: "Poucas são as casas de música ao vivo onde artistas africanos podem falar, cantar, expor ou criar." Até fechar, no fim de Junho de 2007, a discoteca B.Leza era uma delas. Funcionou durante 11 anos num palácio em Santos, que entretanto foi vendido pelo proprietário. "Queríamos muito reabrir, mas ainda estamos à espera que a Câmara nos proponha um espaço", explica Madalena.

Para "a ideia não morrer", Madalena realiza algumas festas intituladas B.Leza Itinerante, em espaços como o Cabaret Maxime, o Music Box ou o Teatro São Luiz. Alcides, filho do músico Bana, também ele ex-gerente do B.Leza, seguiu-lhe o exemplo: Praça Nova é o nome da sua produtora que até ao fim de Março convida artistas cabo-verdianos a tocarem às segundas-feiras no Maxime.

CANTAR À MESA

"Eu só canto depois de beber uns grogues", diz Susana, enquanto se aproxima dos músicos que, assim que pousaram os garfos, começaram a afinar as guitarras. Às sextas-feiras, no restaurante Estrela Morena, é sempre assim. Amigos cabo-verdianos e portugueses reúnem-se à volta de uma cachupa ou de um bife de atum e acabam a cantar, mesmo depois de o restaurante fechar portas, à meia-noite. O dono Vítor Santos trabalhava na secretaria de uma universidade até decidir que precisava de "mudar de ares". Há 3 anos, abriu o restaurante com a irmã, que é a cozinheira, e tem as mesas quase sempre cheias. "A Cesária Évora já alugou o restaurante quando veio cá", conta Vítor.

Tito Paris também é fã da cachupa da casa, embora tenha o seu próprio restaurante, a Casa da Morna, em Alcântara, onde não se come por menos de 15 euros.

Às quintas-feiras, Tito costuma tocar e as muitas mesas enchem-se até às duas da manhã, quando fecha o bar. "Hoje foi um dia fraco", confessa Dina Paris, mulher de Tito, que também gere o espaço. Ajuda a pôr as mesas para o jantar do dia seguinte e apresenta os empregados: "Este já veio do tempo do En'Clave", diz enquanto abraça o chefe de sala. O restaurante na Rua do Sol ao Rato, fundado por Bana em 1976, é o africano mais antigo de Lisboa e também já foi gerido por Tito Paris.