6 de março de 2010

Ressaca de uma semana inesquecível...



Aviso à navegação: o texto que se segue está cheio de adjectivos...


Há semanas que parece que não terminam. E ainda bem que assim é...


Esta que agora termina começou com uma ida de carro a Montpellier, no Sul de França, para visitar alguns amigos dos tempos de Pemba, em Moçambique. Entre voltas pela bela cidade branca de perfume francês, muito mediterrânico, mas também magrebino e africano. De ruas estreitas e praças a cada esquina. É uma cidade monumental, com as suas igrejas de Saint Roch e de Saint Anne, palácios, escadarias, estátuas, com o seu Arc du Triomph, mas relativamente pequena e tranquila.


É, sobretudo a cidade das várias universidades, institutos e escolas superiores. A Université Montpellier 1 é uma das universidades mais antigas da Europa e não é por acaso que o Departamento onde está inserida é apelidado como um dos principais e mais avançados centros em França de ciência e investigação.


Nalgumas das típicas bodegas, casas de queijos, crêperies, croissanteries e restaurantes, onde o Divine et Sens faz jus ao nome, de tudo um pouco provámos nestes dois dias, incluindo um petit-dej dominical preparado por uns colegas libaneses, como forma de retribuir a hospitalidade de há umas semanas atrás em Barcelona.


Mas, também é cidade desse descomunal Quartier Antigone, projectado pelo arquitecto Ricardo Bofill e construído sob as ordens do Maire da cidade, nos anos 70/80, época em que já parecia quase ofensivo empreender estes colossais e despesistas projectos, mas que só a longo-prazo poderemos de facto entender e avaliar...


Destaco nesta curta passagem por Montpellier, a descoberta de uma das obras do projecto 7eme Sens, com os seus frescos/murais hiper-realistas que nos deixam sempre imersos numa incerteza entre realidade e ficção que os nossos olhos não acabam nunca de resolver.


E, por fim, esse intento de submergir no mundo da noite de Montpellier que tem um pouco de tudo, mas onde destaco o bar La Pleine Lune, para ouvir os irreverentes, criativos e geniais Zykatok.


A volta de Montpellier para Barcelona teve uma paragem na vila piscatória de Sète, mais uma vila com canais, a que os franceses também chamam "La petite Venice française", como a todas as outras em França ou no resto do mundo, que insistimos comparar (desfavoravelmente) à verdadeira Veneza.

O caminho até Sète foi feito pela costa, por uma estrada que parecia querer irromper pela praia e brigar com as ondas... Uma estrada que me fez lembrar a zona de onde sou natural, com os seus pinheiros que tentam empurrar as dunas para dentro do mar, mesmo que sempre protegidas e com estrados de madeira que permitem aos devotos das passeatas ziguezaguiar nesses divãs imaginários...

Quase a chegar a Sète foi a paisagem surpreendente dos campos de sal com esse manto arrosado de flamingos... que presumo estarem de volta da sua longa jornada por África... talvez os mesmos que poderemos ver lá para o Sul da Namíbia noutra época do ano...


Mas Sète tem também a sua própria beleza e motivos para descobrir. Parece quase uma ilha mediterrânica, tipo Baleares, onde aproveitámos para descobrir as Tielles (falo mais uma vez de gastronomia...), tomar uma cervejinha numa esplanada solarenga, e para respirar um pouco desse cheiro do Mediterrâneo, a tentar descobrir (e recordar) algum aroma mais longínquo...


E a semana continuou, claro, nesta Barcelona que se despe vagarosamente do Inverno e anseia deitar-se ao Sol dessa Primavera por quem todos suspiramos, e que este ano nos parece um pouco mais preguiçosa... Não, não é apenas uma impressão deste mal-acostumado habitué dos trópicos...


Entre as aulas e o trabalho, numa cada vez mais difícil conciliação (há casamentos mesmo muito difíceis), que felizmente não se estenderá por muito mais tempo, foi crescendo esse nervosismo contido para chegar à quinta-feira passada, o dia mais português entre todos os que passei em Barcelona.


O Consulado de Portugal em Barcelona lá fez o habitual convite à comunidade presente para estar no Hotel Magestic, recebida de forma elegante, cordial e no seu estilo sempre formal e reservado, com aquele sorriso que parece que sempre o atrapalha, do nosso Presidente da República, o Professor Aníbal Cavaco Silva, de visita oficial à Catalunya e ao Principado de Andorra.


No vídeo disponível na cada vez mais moderna e dinâmica página oficial da Presidência da República, lá apareço em algumas fracções de segundos, com uma camisola cor-de-laranja (que nem para os aficionados de "Onde está o Wally? será fácil descobrir), que nada tem que ver com as minha convicções políticas nem com nenhuma simpatia particular pela sua figura como político. Essa simpatia deixo-a, sem dúvida, para a sua esposa, a Dra. Maria Cavaco Silva. A pesar de tudo, não posso deixar de reconhecer que é uma das principais personagens da nossa história política recente, e uma das quais com quem tive o prazer de partilhar o mesmo espaço... físico. Reconheço, sobretudo, o seu inegável sentido de Estado e um amor sincero pela causa pública e pelo serviço a Portugal. Estas são qualidades que qualquer português reconhecerá em Cavaco. E também reconhecerá que é, no fundo, um homem simples que subiu na vida por mérito próprio e que como político nunca abandonou o barco, ao estilo da Corte de D. João VI e de muitos dos nossos governantes, também mais recentes... É uma sina do nosso país: toca-nos quase sempre sermos governados por incompetentes e cobardes e só nos resta ir aguentando com aquela criatividade de desenrasca, que não sei até quando nos manterá à tona...


A propósito da fuga da corte portuguesa para o Brasil, com medo de ser guilhotinada pelas tropas francesas de Napoleão, Junot e companhia, foi um absoluto e delicioso prazer a leitura deste imprescindível "Meu Portugal Brasileiro", de José Jorge Letria, publicado pela Oficina do livro. É daqueles livros que deveríamos oferecer a muitos dos nossos políticos (e a todos aqueles que o pretendem ser)... Mas, desconfio, que a alguns talvez fosse melhor que simplesmente o atirássemos com força suficiente para lhes racharmos a cabeça ao meio, numa espécie de evolução do estilo jacobino da guilhotina...


O dia terminou com o momento mais alto da semana, aliás Momentos... de Dulce Pontes. Mas já lá vamos...


Antes, foi a contemplação quase-infantil dessa torrente de pormenores, de cor, de formas e de loucura arquitectónica que é o modernista Palau de la Música Catalana. Só de entrar já nos sentimos arrepiados. Não posso imaginar o que sentirá um artista neste palco...


A noite começou com uma verdadeira (mas anunciada) surpresa neste concerto, parte integrante do extraordinário ciclo de espectáculos do 11º festival mil·leni. Essa surpresa, de origem catalã, tem 27 anos e dá pelo nome de Sílvia Pérez Cruz. Nos próximos anos, vamos ouvir muito sobre esta "menina", com uma voz poderosíssima e multifacetada quando canta, mas tão terna e doce quando nos fala...


Enamorou com a sua voz o sempre exigente e conhecedor público (na sua esmagadora maioria local) do Palau... que ia, no entanto, para ver Dulce Pontes, nessa alargada segunda parte.


E não há palavras para descrever o que foi a actuação desta portuguesa que nos honra e que se esforça sempre por encurtar uns centímetros mais essa longa distância de desconhecimento, ignorância, desfasamento, desinteresse e preconceito que muitos dos países têm sobre Portugal. Não será por acaso que na imprensa catalã e espanhola que pude pesquisar não havia quaisquer referências dignas de registo sobre a visita oficial do Chefe de Estado de Portugal à Catalunha e ao Principado de Andorra. Algo que não é de estranhar pelo habitual desinteresse que causamos neste país que apenas nos conhece (para a maioria da sua população) pelos atoalhados baratos, pelo "triste" fado, por sermos mais pobres e por termos alguns futebolistas e treinadores, tão talentosos como arrogantes.


Felizmente, pessoas como Dulce Pontes, com um talento que trasvasa as fronteiras do rectângulo e abraça outras culturas como a mediterrânica e a africana, naquela maneira tão tipicamente portuguesa de absorver dos outros e de sermos, vivermos e morrermos sempre algo mais que simples portugueses que somos... porque somos afinal de todas as partes.


O concerto de Dulce Pontes no Palau, onde apresentou o seu mais recente disco "Momentos", numa retrospectiva de uma carreira já com 20 anos (parece mentira), foi indescritível. Para um quase "veterano" da Diáspora portuguesa, era difícil não emocionar-me e não deixar de chorar nalguns momentos, tamanha é a Saudade que quase me sufoca. Mas, ver todo o público do Palau de pé a aplaudir várias vezes a "nossa" Dulce, a trautear e a acompanhar com palmas algumas das canções, já foi demasiado intenso para poder ser descrito por palavras...


Ela sim, faz parte dessa "guarda avançada" que referia o Presidente quando se dirigia à comunidade portuguesa de Barcelona. É verdade que muitos portugueses incógnitos fazem muito pelo país cá fora, mas a maior parte de nós (comigo incluído) faz mais, sobretudo, por si próprio, neste nosso jeito de sobrevivência que nos obriga a saltar fronteiras...


Ontem à noite foi a vez de voltar ao bar das gloriosas noites encarnadas desta época 2009/2010, o Olavjoe, onde pude conhecer a voz de Bino Barros e matar uma vez mais saudades de falar/ouvir em português... mesmo sendo acrioulado ou com sotaque brasileiro, cabo-verdiano ou espanhol... Ou tudo junto! Hoje o Olavjoe cumpre 2 anos de existência (Parabéns!) e espero poder ainda passar para dar um abraço ao grande Zé de Barcelona, que ontem quase nos matava com aquela tequila final que provocou esta literal ressaca!


A semana, porém, reservou-me mais emoções, não relatáveis num blog público, mas que comprovam que "na medicina como na vida, 2 mais 2 não são 4..." Mas, sobre isso, tentarei aguardar com o coração aberto, paciência e perseverança... e se possível com uma garrafa de vinho em alerta máximo!