14 de agosto de 2010

Sonhar é afinal... entrar em Soul Kitchen






O que temos de mais parecido com "sonhar" é, sem dúvida, ir ao cinema. Quando fechamos os olhos para dormir e vemos todos aqueles filmes criados pela nossa imaginação, trazidos pelo nosso subconsciente ou de um lugar mais profundo que poucos sabemos exactamente onde fica, trata-se, afinal, de uma forma complexa (mas grátis) de nos sentarmos comodamente (ou de nos deitarmos até) com os olhos postos numa enorme tela de cinema que se situa dentro da nossa própria cabeça.


Os cineastas tem esse dom de exteriorizar uma capacidade intrínseca ao ser humano e de nos fazer, no fundo, partilhar um mesmo sonho e mergulhar numa outra realidade, embora de uma forma passiva, na qual apenas temos o privilégio de assistir desde fora...



No filme "A Origem" (Inception), de Christopher Nolan, usam-se demasiados meios e efeitos especiais para, no fundo, passar uma ideia muito simples. Literalmente, andam para ali mais de duas horas, com muitas explosões e tiros, imagens espectaculares em super slow motion, com um argumento labiríntico, nem sempre eficaz nas relações causa-efeito, nem esteticamente inovador, mas em que que no final se consegue "introduzir" uma ideia (que germina numa acção) dentro da cabeça de alguém. É uma metáfora desta sociedade. Uma sociedade em que, já não bastava que nos roubassem os sonhos, também são capazes (esses "outros" que nunca conhecemos mas que sabemos que existem) de os manipular para que actuemos seguindo uma qualquer ideia original que nos levam a acreditar que nos pertence e que é criada dentro da nossa cabeça, livremente. 

A minha pergunta é: isto não é afinal o que o Homem já faz há milhares de anos? A própria religião não é essa manipulação do nosso subconsciente, dos nossos sonhos, para que quando nos "despertemos" nos comportemos de acordo com uma determinada ideia, de uns determinados valores, juízos, etc.? Os vários "ismos" que o Homem foi criando, sejam ideologias, sejam sistemas político-económicos, não têm também em grande parte essa procura sistemática de uma "origem" das coisas, de uma verdade única que se procura introduzir nas cabeças dos maus incautos?

Este tipo de cinema, como em "A Origem", apesar da espectacularidade das sequências de imagens, dos efeitos especiais, do esplendor de técnica, da tentativa de nos fazer acreditar que um argumento desestruturado é mais complexo do que realmente é, e por isso mais rico, não me dá o que mais procuro no Cinema (ou nos sonhos): aquele conjunto de sensações, não necessariamente novas (quase nunca o são, apenas as revivemos de uma outra forma) e de exposição de sentimentos, que nos fazem despertar desse limbo de monotonia que é o dia-a-dia...

Esse verdadeiro despertar é algo que encontro no cinema de Fatih Akin, como nesta excelente comédia "Soul Kitchen" (também nome de uma música dos The Doors) que, com uma inesquecível banda-sonora, um argumento bastante menos "complexo" e poucos ou nenhuns efeitos especiais (a não ser, talvez, aquela erecção durante uma das cenas com a fisioterapeuta), consegue ser muito mais rico e, seguramente, mais eficaz na sua capacidade de penetrar os nossos sonhos e de nos deixar a sua "ideia", a sua semente...