16 de agosto de 2012

A Porta



Era uma vez uma porta que, em Moçambique, abria para Moçambique. Junto da porta havia um porteiro. Chegou um indiano moçambicano e pediu para passar. O porteiro escutou vozes dizendo:


 - Não abras! Essa gente tem mania que passa à frente!


 E a porta não foi aberta. Chegou um mulato moçambicano, querendo entrar.  De novo, se escutaram protestos:

 - Não deixa entrar, esses não são a maioria.


 Apareceu um moçambicano branco e o porteiro foi assaltado por protestos:
 - Não abre! Esses não são originais!


 E a porta não se abriu. Apareceu um negro moçambicano solicitando
passagem. E logo surgiram protestos:
 - Esse aí é do Sul! Estamos cansados dessas preferências...


 E o porteiro negou passagem. Apareceu outro moçambicano de raça negra, reclamando passagem:
 - Se você deixar passar esse aí, nós vamos-te acusar de tribalismo!
 

O porteiro voltou a guardar a chave, negando aceder o pedido.

Foi então que surgiu um estrangeiro, mandando em inglês, com a carteira cheia de dinheiro. Comprou a porta, comprou o porteiro e meteu a chave no bolso.


Depois, nunca mais nenhum moçambicano passou por aquela porta que, em tempos, se abria de Moçambique para Moçambique.

Mia Couto