22 de setembro de 2012

Queres ajuda, Maria?



Vi chegar a Maria numa tarde de Outono, quando o Sol já se despedia, calcorreando a aldeia, como o sorriso de um gaiato que se esconde em cada esquina, antes de desaparecer atrás do monte, para lá dos pinheiros da Tia Eulália. Chegou com roupas de Verão, indiferente ao frio que, de imediato, se levanta de cada pedra do chão, quando o Sol se vai. Esse frio que percorre as paredes das casas e as veias desta gente que o recebe como um pequeno sobressalto na sua letargia permanente. Como se dele dependesse para abandonar a rua e voltar a casa, ao seu mundo impenetrável, só aparentemente...

A Maria não veio só. Parecia ter uma criança nas costas, agarrada com um trapo, mas não a consegui ver. Juro que era uma criança! E nas mãos levava uma mochila pequena e uma mala grande, com rodas. Quê? Não me viu. Já te disse que não, a Maria, digo, a Maria não me viu. Não, não a fui ajudar. Para quê? Não sei, se calhar já nem me conhece.

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Já sabes quem é que chegou ontem, Zé? Pois foi, quem é que te contou? O meu sobrinho Pedro viu-a chegar ao fim da tarde. E disse que está gorda. Grávida? Isso não sei, só me disse que estava gorda e que vinha com uma criança agarrada às costas. Não se falaram, ele diz que ela não o viu, mas já sabes como é o meu sobrinho, sempre tão "conas" para falar com as mulheres. Só espero que não me saia como o filho da Ti Júlia, pobre desgraçada! Se fosse meu, tinha-lhe dado um enxerto de porrada antes de o mandar para fora de casa.
Sim, estudaram juntos na primeira classe, devem ter a mesma idade, já nem sei. Mas, depois ele repetiu o ano. Diz que ela não o viu e ele não a quis estar a incomodar, já sabes como é o meu sobrinho, sempre tão prudente...
Em Outubro sê prudente: por onde sopra o vento, vai atrás o teu dente!

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E não foi a casa da madrinha? Se calhar, já nem se lembra que tem uma madrinha. Com tanto que esta desgraçada ajudou os pais dela, coitada!
Não importa, devia ter ido ver a madrinha, que ainda não era tarde e a velhota não devia estar deitada a essa hora. Ainda por cima, à terça-feira, a mulher vai jogar com as amigas e volta sempre por volta das dez, que eu bem a ouço a subir a rua com a bengala.
Pois, está bem. Isso ela não sabe, claro. Se não andasse lá por não-sei-onde há tantos anos, se calhar agora sabia que a madrinha joga às cartas todas as terças-feiras. Esta gente de agora não quer saber dos velhotes para nada, só querem é o dinheiro. Se calhar, é isso que vem cá fazer ao fim de tantos anos.
Não digo isso, o quê? Tu é que estás mal da cabeça, pá! Então não foi isso que aconteceu à outra velhota, a Dona Manuela. Lembras-te daquele neto dela? Apareceu aqui num dia, vindo sabe-se lá de onde, e limpou tudo o que a mulher tinha. Coitada! E nunca mais se soube nada desse sacana. Nem veio ao funeral da velha, esse bandido! Se fosse comigo, tinha-lhe partido a tromba, mas eu não sou de me meter em assuntos que não me digam respeito, não sou dessas coisas.
Já sabes, dinheiro e santidade, depende da vontade!

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Bom dia vizinha! Cá vamos, sabe como é. É da idade. Não perdoa!
Quem? A IDADE, vizinha! A cidade não, A IDADE!
Fui buscar a receita no outro dia e sabe quem é que eu encontrei, vizinha?
Essa, a nova. Nova, nova já não é.
Parece que os anos não passaram por ela, deve ser dos ares lá desses sítios por onde andou. Está jeitosa, a moça!
Sim, também a vi mais gorda. Mas, muito jeitosa! Até me cumprimentou, filha!
É verdade, vizinha, eu também o vi. É pretinho, coitadinho. Levava-o ao Doutor Sampaio para lhe ver a garganta.
Parece que sim, queixou-se do frio. Já sabe, nesses sítios têm Verão o ano inteiro. Deus lhes perdoe!
A criança nem falava, devia estar a arder de febre, o desgraçado! Ouvia-a chamar-lhe Ismael. Bonito nome!
Ó vizinha, não diga isso, então não é melhor estar aqui na nossa terrinha? Sabe Deus o que nos pode acontecer lá por esses sítios. Já me basta com a minha filha Carla. Deus me perdoe, nem gosto de falar nisso vizinha, isto é uma dor que trago no peito todos os dias. Onde é que já se viu? Divorciada, sozinha a cuidar de dois filhos! Com aquele moço aqui da terra que era tão bom rapaz. Até me dá vergonha cumprimentar os meus compadres!
Sim, vizinha. Mas, para mim, serão sempre os meus compadres. Que só a morte nos separa, como a mim e ao meu João, que Deus o tenha bem guardadinho.
Santos da Terra não fazem compadres.
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Estou? Estou? Carlos? Vai lá chamar a tua mãe, filho! Sim, meu Amor, a avó está melhor, minha riqueza. Já chegarás à minha idade, se Deus quiser. Tens tomado o xarope que a avó te enviou com o Senhor Mário? Ai meu sacaninha, vai lá tomar duas colheres e chama a tua mãe, anda! Um beijo, minha ternura! E, porta-te bem!
Está feito um homem, filha! Não digas isso, filha, que há coisas piores na vida.
Estou melhor, filha. Estou melhor... Não te preocupes, filha.
Quando vires o Senhor Mário, pede-lhe que me traga aquelas sementes como da outra vez. Sim, se o vires... Está bem, filha. Se não, já lhe peço à Matilde que também sabe quais são.
Ó filha, não digas isso, eu estou bem aqui. Já sabes que não gosto de deixar aqui a casa abandonada. Nunca se sabe!
Também já te contaram? Quem? A tua prima Odete? Sim, essa sabe sempre tudo. Eu nem sou de contar a vida dos outros, mas é que não se fala de outra coisa, filha!
As notícias correm depressa, mais depressa que a Morte, filha!
Parece que sim, o garoto é adoptado ou lá como se diz. Trouxe-o de África, lá da terra dos pretos, coitadinho.
Já sei, filha. Não tem a culpa, coitadinho! Mas, já sabes como é a gente. E as outras crianças não param de lhe chamar torrado. Torrado para aqui, torrado para acolá. Sim, são más. As crianças são muito más entre elas. Só a Margarida, a filha do António e da tua prima Cristina, é que fala com ele, coitadinho!
Ela nem sai muito de casa, ainda só a vi lá no posto médico. E, de vez em quando, vejo-a subir com a bicicleta. Onde é que já se viu? Com estas ruas, anda sempre com a bicicleta para cima e para baixo. Até leva as compras na bicicleta!
Sim, assim faz exercício, que está gorda, isso dizem! E sem marido...
Quem não tem marido, só tem umbigo.

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Cajó, vem, vem! Olha a gaja da bicicleta, grandes mamas que a gaja tem! Enfiava-o todo entre aquelas mamas!
Vai-te lixar! Queres ver? Tu é o que precisas da lupa, paneleiro!
Sim, está gorda, nem se vê o selim debaixo do cu dela.
É isso, se calhar nem tem selim, prefere outra coisa! Por isso, anda sempre com a bicicleta para cima e para baixo.
É isso, deve ser de ter levado tanto dos pretos. O meu avô que esteve por lá na guerra diz que a têm assim... Assim, pá!
Foda-se, não exagero!? O meu avô é que diz, que esteve lá e viu.
Como é que achas que apareceu o torrado?
Isso diz ela, pá! Achas mesmo que o gajo é adoptado, até é mais clarito, tem a cara dela, porra! Deve ser filho dela, foda-se. Grande vaca! Ou, se calhar, é como a Carla, a fufa que deixou o marido.
Isso não sei, nem quero saber, que eu cá não me chego ao pé deles. O meu avô diz que estão cheios de doenças e que são uns ladrões, piores que os ciganos! Tens que avisar a Margarida, lá na Escola!
Pais galegos, filhos pretos ladrões.

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Boa tarde, Senhor Padre! Boa tarde!
Espere, já sei que não tem tempo...
Mas, tem que saber... a fulana... espere, homem, desculpe, Senhor Padre, por favor!
Já sei que tem nome, coitadinhos dos pais que o puseram... Que Deus Nosso Senhor os guarde em Paz!
Pois, se não quer saber, já nos encarregamos nós de falar com algum superior seu!
Que não vale a pena?
Então, mas não vê que isto é uma vergonha para a terra!?
Eu não, mas aqui a Dona Ermelinda e a Ti São viram-nos várias vezes. Na outra semana, foi o Jorginho que entrou... E agora, parece que anda metida com o marido da Senhora Juliana, coitadinha, que está tão doentinha e nem pode sair de casa.
Mas, como é que não lhe importa? Que estamos mal informadas? Onde é que isto já se viu? Não leva aqui nem dois anos e não se fala de outra coisa. Eu é que não vou ficar quieta à espera que esta puta venha a minha casa roubar-me o homem. Pode estar velho e careca, mas é meu! É uma sem-vergonha, devia voltar para a terra de onde veio, sem-vergonha! Lá é que estava bem, rodeada de tanta imundice.
Estes padres de agora! Se calhar, também está interessado, Deus me perdoe...
De médico, padre e advogado, as putas recebem bocado.

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Se não há mais perguntas, quero agradecer a todos a vossa presença nesta assembleia e dou por terminada a sessão. Muito obrigado!
Ah, outra coisa, aqui a Sara vai redactar a acta da assembleia e podem vir aqui consultá-la à Junta... Quê? A partir de segunda-feira, Sara? Obrigado, Sara!
Pronto, se não há mais... Sim? Joaquim?
Diga lá, homem!
Mas, se não o diz, não podemos saber se é assunto ou não para trazer aqui à assembleia. De quem?
Desembuche, homem!
Vamos lá ver, vamos ter calma. Deixem o Joaquim falar, que foi ele que começou!
Se falam todos ao mesmo tempo, acabou-se já aqui a reunião. Vamos lá, que eu tenho pressa, tenho ainda muito que fazer, que por isso sou eu o Presidente!
Mas, o que é que me está a contar? Mas, isso é tema para se discutir aqui na Junta? Vamos lá ver, não admito que me fale assim nesses termos. Vamos lá ver, um de cada vez... A vida privada dessa senhora não me diz respeito, nem é assunto de uma Assembleia da Junta! Mas, onde é que isto já se viu?
Mas, o que é que está a dizer? Tenha um pouco mais de respeito, se faz favor! Cuidado com o vocabulário, que isto aqui não é a rua! Já lhe disse, não é assunto para se discutir aqui. A senhora está no direito dela de ver quem quiser, isso são tudo assuntos de alcovas, que não são para aqui chamados, por amor de Deus!
COPULANTE!? Não, homem! Essa é boa... COOPERANTE... em África, até apareceu na televisão, não se lembram? Já sei que não vêem essas coisas, mas deviam ver.
Já lhe disse, não posso fazer nada. Não me diz respeito, nem tenho autoridade para essas coisas. A casa é dos pais dela, foi herdada, e ela está no direito de ali viver, ou onde quer que lhe apeteça. Ora essa, era o que mais faltava! E não serei eu, nem vocês, ouçam-me bem... que a vão mandar de aqui para fora! Não quero passar por essa vergonha. Queremos aqui gente nova, com ideias, porra! Desculpem... com ideias!
Terminou, quero-vos todos daqui para fora. Sara, isto não ponhas isto na acta!
Não, mulher, toda esta conversa que tivemos aqui sobre a… Sim, essa! Espere, o que eu disse sobre as ideias, sim!
Bom político, pouco tostão...


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Bom dia!
Bom dia! Sim? Posso entrar? Venho trazer uma encomenda e recolher uma outra aqui nesta aldeia. Na mesma casa. Ando à procura da Senhora... Sim, essa, exactamente, como sabe?
É verdade, já não é a primeira vez, mas das outras vezes vinha um colega meu e eu ainda não sei onde vive, é a primeira vez que cá estou.
Ah, obrigado, mas não é necessário. Se é aqui perto, eu dou com a casa e não preciso ajuda, que para isto me pagam. Obrigado, na mesma.
Ou seja, viro na próxima à direita e meto-me pela ruela que está por trás da mercearia. Obrigado... Sim... Já estou a ver, obrigado! Não se preocupe, obrigado! Cuidado!? Então, mas porquê?
Não, minha senhora, não a conheço! Sou só quem distribui as encomendas da empresa.
Não, minha senhora, não a conheço... Desculpe? Não, não sei o que é e... se soubesse, não lhe poderia dizer nada... Nada, não quis dizer isso, desculpe! Não sei se é hippie, minha senhora! Tenho pressa, que tenho que entregar mais encomendas aqui pela zona, antes de voltar à cidade.
Não, minha senhora, nós só transportamos as encomendas, não sabemos o que está dentro. Não, minha senhora... Asseguro-lhe que não transportamos essas coisas!
Desculpe, tenho que ir!
Raio da velha, eu quero lá saber se esta fulana se droga! Drogada anda a velha!
Pouco a pouco fia a velha o troco...

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É outra vez numa tarde de Outono que a vejo. Desta vez, com o filho pela mão e uma série de malas e caixas que aguardam a sua vez para serem enfiadas na bagageira do velho Panda 4x4 que a trouxe há cinco anos. Sei que se vai, desta vez para sempre. Conseguiu vender a casa a uns alemães que querem montar um turismo rural ou coisa parecida. Nestes anos, fomos íntimos amigos, como agora se diz. Fui várias vezes a sua casa. Mas, juro por Deus, que só fui lá conversar, jantar, passar o tempo. Contou-me como era a vida em África e noutros sítios por onde andou. E o catraio dela, como delirava com as estórias que a sua mãe contava! Punham-se-lhe os olhos brilhantes. E a mim também... Eu chamava-a “coleccionadora de estórias”, porque tinha sempre umas quantas, todas diferentes, que me contava, acompanhadas de uns doces maravilhosos, que ela própria fazia e vendia desde casa por internet e também para uma loja gourmet lá da cidade, dizia-me ela. E pedia-me que lhe contasse estórias da aldeia e eu contava o que sabia, como era a vida presente, como tinha mudado. Ela dizia que não tinha mudado assim tanto, mas eu não percebia. Eu insistia que agora tínhamos até rotundas, não-sei-quantos canais de televisão e até internet. Também lhe contava o que diziam dela por toda a aldeia. E ela dizia-me que não se importava com essas coisas. Que o único que lhe importava é que não tratassem mal o Ismael e que ele fosse feliz. O resto, dizia-me ela, são coisas sem importância, em comparação com tudo o que viu nos anos em que foi cooperante. E até me dizia que lhe chamasse “coleccionadora de homens”, e não de estórias, que assim as mulheres andariam mais arranjadas e preocupadas consigo próprias. E os homens, andariam de sorriso de orelha a orelha, porque poderiam inventar as suas façanhas com a Maria, para dar inveja aos amigos. Seria bom para toda a aldeia, afinal! Mais importante que criar projectos para atrair os “novos rurais”, os deserdados das cidades falidas, os líricos do decrescimento; mais importante que o ecoturismo ou o turismo rural e afins; mais importante que estar no mapa, inclusivé! Ah, como se divertia, quando me dizia estas coisas. Ainda por cima, parece que se entretinha a escrever. Escrevia contos para se alimentar e manter-se sã, dizia-me. E, também os punha na internet. E eu não entendia porquê, se os contos só servem para contar. 
Se calhar, a Vida é afinal esse conto onde cada qual (se) acrescenta (n)um ponto...
Queres ajuda, Maria?

Por Vasco Coelho