10 de outubro de 2012

Uma semana difícil



 
por MÁRIO SOARES

1 - VIVA A REPÚBLICA! O Povo português é esmagadoramente republicano. Viu-se durante as cerimónias do Centenário da República, 2010 e 2011, em que todo o País vibrou, de norte a sul, manifestando o seu amor pela República. Durante os longos anos da ditadura, sempre os republicanos festejaram o aniversário da I República, não obstante o regime não gostar nada das manifestações repu-blicanas, que eram igualmente antifascistas. Eu próprio fui uma vez preso pela PIDE, por ter acompanhado o general Humberto Delgado, depois de o Governo lhe ter roubado a vitória eleitoral, que efetivamente teve, no encontro que tivemos depois de sairmos, confusamente, aos encontrões da polícia, do Alto de S. João e de nos reunirmos em casa do arquiteto Keil do Amaral, que era ao lado do monumento a António José de Almeida. Quando se juntaram bastantes populares, Humberto Delgado, Jaime Cortesão e o prof. Azevedo Gomes, entre outros, descemos para a estátua onde Delgado começou a discursar. Então a polícia política carregou sobre nós e além dos encontrões e bastonadas lançou gases lacrimogéneos. Ficámos todos a chorar, mas quem mais sofreu foi o historiador Jaime Cortesão que, tendo sido gaseado na 1.ª grande guerra, sofreu imenso. Vem isto a propósito da cerimónia do 5 de Outubro, de há dias. Ao que parece, o Presidente Cavaco Silva teve a peregrina ideia de excluir o Povo da cerimónia. As ruas que dão acesso à Praça do Município estavam todas cortadas, por barreiras de polícias e de segu-ranças, não deixando passar ninguém, à exceção dos convidados. E para maior controlo, a cerimónia teve lugar no Pátio da Galé, um recinto fechado, onde só os convi-dados puderam entrar. Mas tudo correu mal. O primeiro-ministro estava ausente em viagem, ao que se diz, de trabalho, em países do Leste europeu e em Malta. A bandeira nacional, com o nervosismo, foi posta ao contrário. E, no fim da cerimónia, surgiram duas senhoras - não se sabe como -, uma que começou a gritar por ter fome e outra a cantar. Foram ambas empurradas e a primeira espancada pelos seguranças, com as televisões a darem conta do desagradabilíssimo espetáculo. Por meu lado, quando tive a notícia de que o Povo de Lisboa era obrigado a estar ausente, neste 5 de Outubro (que o Governo diz ser o último feriado, mas não será seguramente) resolvi não estar presente. Um 5 de Outubro sem Povo, não faz sentido nenhum. É próprio de uma Ditadura, não de um regime que ainda se diz democrático. Felizmente que na noite do dia 5 houve um jantar republicano e socialista, na Ota, no Concelho de Alenquer, como era tradicional no tempo da ditadura, organizado pelo saudoso Teófilo Carvalho dos Santos, onde participaram, desta vez, mais de 2000 republicanos e socialistas. Lá estive, com a minha Mulher e com muito gosto. Quando os governantes (quer sejam ministros, secretários de Estado ou o Presidente da República) manifestam medo do Povo - e fogem dele - algo vai muito mal. Porque não aprenderam com a Revolução dos Cravos que "o Povo é quem mais ordena". Que tristeza! Eis onde chegámos...

2 - A TAXA SOCIAL ÚNICA E OS IMPOSTOS Quando Pedro Passos Coelho, no Conselho de Estado, resolveu dizer que desistia da ideia, tão inoportuna, da chamada taxa social única, julguei, sinceramente, que depois da colossal e espontânea manifestação popular, que trouxe à rua gente de todo o País, em 15 de setembro último, a protestar, tinha finalmente compreendido que era ne-cessário mudar de rumo. Mas não! Pelo contrário. Resolveu pôr o ministro das Finanças a dizer na Assembleia, com a sua voz tão peculiar, que os impostos vão aumentar imenso e em conjunto a vida dos portugueses - com destaque para a classe média - ia piorar muito. Que falta de sensibilidade política e de vergonha! Como é natural, os portugueses - e os próprios deputados, mesmo alguns do PSD e do CDS - ficaram alarmados e mais desesperados do que antes estavam. A própria troika teme, seriamente, pelo que pode acontecer ao nosso País, no plano social, dado o desespero e a violência crescente dos portugueses. O CDS-PP que, desde a campanha eleitoral, repetidamente proclamou, pela voz do seu líder, que não haveria mais impostos, ficou sem saber o que dizer e fazer. Daí o silêncio a que se remeteu... Paulo Portas, que tem andado pelo estrangeiro a fazer negócios - a que chama "diplomacia económica" - sem se ocupar da política interna e externa do Governo, ficou sem fala, literalmente. O espetáculo do seu silêncio envergonhado vale a pena ser visto e voltar a ser passado pelas televisões... Sobretudo quando o deputado comunista, Honório Novo, criticou o silêncio enigmático de Portas, em função da carta que escreveu aos seus militantes, e tanto Passos Coelho como Relvas (que reapareceu!) se puseram a rir às gargalhadas, em relação à situação de Portas. Foi um vexame nunca visto! Portas, por mais que goste de ser ministro, e ao que parece gosta muito, não pode continuar a sê-lo, sem perda total da sua dignidade e prestígio. Deve demitir-se quanto antes. As sondagens mostram o seu partido a descer, abaixo do PCP e do Bloco de Esquerda e ele próprio, antes tão popular, a descer igualmente nas sondagens. Nos Açores, com eleições à vista, o CDS-PP punha a maior esperança num bom resultado, mas tudo indica, igualmente, ser mais uma derrota. Aliás, as últimas sondagens nacionais mostram os dois partidos da Coligação a descer. Em conjunto valem menos que o PS sozinho. Ora, se a Coligação se desfizer, como parece inevitável, se houver vergonha, como poderá aguentar--se o Governo? Como irá subsistir no estado atual das coisas? Alguns comentadores falam em remodelação. Mas será Passos Coelho capaz de arranjar substitutos capazes, no sentido de competentes, para substituir Portas, Cristas e Mota Soares? Para além de outros, como Relvas, Álvaro Pereira e Paula Teixeira da Cruz? Será o fim de um desastre que desde o início está anunciado e não tem remédio. Pelo menos, assim parece. Porque o medo mudou de campo, quando os responsáveis políticos de hoje manifestam medo do Povo e fogem dele, sem vergonha!

3 - QUE FUTURO PARA UM GOVERNO EM TÃO GRANDE DESCRÉDITO? Trata-se, sem dúvida, de uma questão complexa. O Governo está moribundo e ninguém o toma a sério. Nem os empresários nem os trabalhadores. Nem gente do Povo nem intelectuais, professores ou cientistas. Contudo, os impostos continuam a crescer, sempre a crescer. De momento, pensar em eleições é completamente inconveniente. Sou democrata, e sei bem que não há democracia sem eleições. Mas há momentos em que as eleições não se justificam porque não resolverão nada e podem antes complicar muito a situação. É o caso atual. Estou certo de que, na complexa situação que vivemos, nem as instituições do Estado nem os partidos as desejam. Julgo que os partidos têm no seu conjunto, necessariamente, esta perceção. Não podem deixar de ter. Basta pensar que a União Europeia está em mudança e importa ver o que vai suceder nas próximas semanas. Por outro lado, temos o exemplo da Itália, onde o Presidente da República, Giorgio Napolitano, conseguiu, com a habilidade política e a inteligência que toda a gente lhe reconhece, ver-se livre de Berlusconi e conseguir nomear um primeiro-ministro, Mario Monti, com o acordo do Parlamento, mas sem eleições. E a verdade é que tem realizado um trabalho notável para a Itália e em favor dos países vítimas dos mercados usurários. É certo que o nosso Presidente está longe de ser Napolitano. Mas aproxima-se o momento em que não pode continuar a fazer discursos vazios e que será obrigado a tomar decisões. A não ser que se demita também. Dada a crise profunda do Governo é ao Presidente que compete atuar, por muito que lhe custe. E espero que não deixará de o fazer. Como? Isso será com ele. Para isso foi eleito. As eleições virão depois, no momento oportuno, porque são essenciais em democracia. Por outro lado, a campanha sistemática antipolítica e antipartidos, a que temos assistido, tem de ser combatida a sério. Sem partidos não há democracia. E os movimentos cívicos, por mais responsáveis que sejam, não podem substituir-se aos partidos, como se tem visto. Pelo contrário, devem ajudá-los a melhorar a sua ação, para poderem combater a sério, ao lado dos partidos, a crise do euro e evitar a desagregação do projeto europeu. No que se refere ao Partido Socialista, Seguro já por várias vezes declarou que só aceitará ir para o Governo se e quando os eleitores se pronunciarem nesse sentido. Ora há hoje o movimento socialista europeu, que está em marcha e nos vai dar - espero - surpresas agradáveis. A própria chanceler Merkel, como se viu, vai nesse caminho. Quem tal diria? E há ainda a vitória no segundo mandato de Barack Obama - continuo a pensar que será um facto - em 6 de novembro próximo, que seguramente ajudará, com um grande empurrão, a relançar o projeto eu-ropeu. É do interesse americano e ocidental! Repito: é o Povo quem mais ordena. Não é uma simples frase. E agora que se habituou a ir à rua - e o medo mudou de campo, como disse - é preciso que continue nos seus protestos pacíficos e não deixe de lutar por mais democracia, mais dignidade no trabalho, maior intervenção social, apontar os corruptos, de modo a não ficarem impunes, exigir uma justiça eficaz e rápida, e, sobretudo, reclamar contra a austeridade, que não tem sentido, lutar contra o desemprego, esse flagelo do nosso tempo, e combater a pobreza e os salários de miséria. Portugal, ao longo da sua história, teve sempre uma tradição de intervenção popular. Foi o Povo - e Nuno Álvares Pereira - que venceram os castelhanos em Aljubarrota, após a primeira revolução burguesa da história europeia. Foi o Povo que transformou a Monarquia absoluta em Monarquia liberal, que fez a República e que, ao longo dos anos, lutou contra a ditadura. O nosso Povo é um grande Povo - até o ministro das Finanças teve a inteligência de o reconhecer -, tenhamos pois confiança, apostemos no Povo e sejamos solidários nesta complexa luta - tão séria e urgente - em que todos devemos participar.