19 de novembro de 2012

Andrew Bird: viagem ao coração americano



 Andrew Bird na Aula Magna
Sílvia Lopes


Foi numa varanda do bairro da Graça que Andrew Bird compôs uma das canções de Break it Yourself. Foi no Castelo de S. Jorge que pediu a sua mulher em casamento. Daí que, mal o seu vulto atravessa o palco da Aula Magna, percebe-se que não é apenas o público que está disponível para amar desde o primeiro segundo. É também o protagonista da noite que nos aparece antecipadamente conquistado.

Mas nem por isso o concerto deste sábado resvalou para o desleixo. Ao segundo tema da noite, o compassado blues Why?, o músico mostraria como os anos fizeram dele um contador de histórias mais polido, tendo, nesse movimento, conseguido esgravatar mais fundo. À superfície, a tentação é a de ouvir em Bird um Rufus Wainwright ou um Jeff Buckley de violino em riste, quando, na verdade, debaixo de cada canção está quase toda a tradição da canção norte-americana. 

Por isso, desviando Wainwright e Buckley, não demoramos a avistar Billie Holiday, Blind Lemon Jefferson ou até um Tom Waits cuja voz foi no sentido do chá de limão e não no sentido do bourbon.

Após provar que sozinho consegue soar a um pequeno ensemble de câmara, chamaria ao palco uma excelente banda com a qual viajaria até ao deserto do Arizona (via Giant Sand) em A Nervous Tic Motion of the Head to the Left. Mas se a banda lhe permitiu esses momentos mais rockeiros, estendeu-lhe igualmente um tapete para viagens ao coração musical americano. Foi nesse registo mais propício a avistamentos folk que apareceu Lusitania, a canção que não era mas podia ser sobre Portugal (a imagem do navio a afundar-se galga obviamente a leitura de ruína conjugal), a magnificência simples de Solvay ou o blues-bluegrass de Mx Missiles, "sobre a tentativa de sobreviver no intervalo 14-22 anos". E, já em encore, a bela e delicada versão de Townes van Zandt, If I Needed You, costurando mais uma insígnia à sua galeria de influências.

Andrew Bird estava em casa. E nada mais claro nessa conclusão do que a naturalidade com que se seguiram as repetidas falsas partidas de Eyeoneye. O final, perfeito de arrebatamento, fez-se com Fake Palindromes, canção-casamento entre o psicadelismo dos Flaming Lips e Bollywood em estado de sobreexcitação.