19 de novembro de 2013

JFK: Que lugar na história?





Foi há, precisamente, 50 anos que ocorreu um dos mais importantes e trágicos acontecimentos na história dos EUA: o assassinato do Presidente John F. Kennedy. A efeméride motiva um artigo de opinião do especialista em relações internacionais e docente no Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro, Miguel Estanqueiro Rocha.

Esta semana ocorre a efeméride do quinquagésimo aniversário do assassinato do Presidente americano John F. Kennedy, em Dallas, a 22 de Novembro de 2013. A morte trágica do mais jovem presidente eleito da história americana transformou-o num dos mitos mais poderosos do século XX. O assassinato posterior do seu irmão, Robert F. Kennedy, aquando da sua candidatura à presidência, em 1968, engrandeceu ainda mais a lenda que rodeia esta dinastia americana – a mais famosa e também a mais trágica –, representando os dois irmãos assassinados a ilusão de um amanhã imaginário.

O desaparecimento do Presidente Kennedy colocou um problema, ainda não totalmente clarificado: como avaliar historicamente um mandato tão curto – menos de três anos -, mas tão promissor, num dos períodos mais conturbados da Guerra Fria e de profundas transformações na sociedade americana? O assassinato de Kennedy levou, numa fase inicial, à sua “santificação”, tendo evoluído para um período de revisitação crítica da presidência, com menção aos aspectos menos positivos da sua personalidade e da sua família; nos últimos anos, os estudos apontam para uma abordagem mais justa: a de um Presidente que soube preservar a paz, evitando a eclosão de um conflito nuclear; no plano doméstico, apoiou, após algumas hesitações, a luta pelos direitos civis e propôs legislação inovadora no plano social e na emigração, mas que só seriam aprovadas durante a presidência de Lyndon Johnson.

Primeiro católico e único, até hoje, a chegar à Casa Branca, a sua eleição contribuiu para uma maior tolerância religiosa, como hoje é reconhecido nos Estados Unidos. O mandato presidencial de Kennedy tornou-o num modelo: no seu recente trabalho sobre o Presidente, o reputado professor Larry Sabato salienta o impacto que Kennedy teve nos seus sucessores, destacando como Ronald Reagan se inspirou na retórica do Presidente desaparecido. No plano interno, a sensibilidade social de Kennedy e o contacto que teve com a pobreza existente na América durante a sua campanha, em 1960, fez da sua Presidência um combate constante pela protecção social dos mais fracos, confrontando-se com a oposição do Congresso face aos seus planos inovadores. A sua hesitação inicial em relação aos direitos civis evoluiu, na fase final, da sua presidência, para um apoio activo aos afro-americanos; ao classificar a luta dos afro-americanos como “uma questão moral”, Kennedy colocou a Presidência americana na liderança pela eliminação de uma das “chagas” clamorosas da sociedade americana: a descriminação dos afro-americanos e o racismo existente na sociedade americana.

No plano internacional, o grande legado histórico do Presidente foi o de manter a paz, no auge da Guerra Fria: mesmo nos períodos críticos da Crise dos Mísseis de Cuba, soube resistir às pressões dos militares para que se iniciasse um ataque a Cuba, privilegiando um diálogo com Moscovo e encontrando soluções diplomáticas. O seu discurso na Universidade Americana de Washington, em 10 de Junho de 1963, é um documento notável da preocupação do jovem presidente em iniciar uma nova era nas relações com o Kremlin: o Tratado da Interdição Parcial de Ensaios Nucleares, em 1963 e a sua proposta de uma expedição conjunta americano-soviética à lua, após ter defendido que os Estados Unidos colocassem um homem na lua até ao final da década de sessenta, são outros exemplos dessa vontade. Uma análise mais cuidadosa da sua presidência faz-nos concluir que Kennedy não se teria comprometido no Vietname do mesmo modo que Johnson. Entusiasta da integração europeia, destacou-se pelo apoio à luta pela justiça social na América Latina e pela independência das colónias.

Os apelos ao excepcionalismo americano, ilustrados na criação do Peace Corps, mostram-nos um Presidente com capacidade para inspirar os seus concidadãos. Se é difícil catalogá-lo como Presidente liberal ou conservador, o seu estilo presidencial elevou-o à categoria de Presidente inesquecível, um digno representante das melhores tradições que os Estados Unidos ofereceram à história.

Miguel Estanqueiro Rocha
Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da UA


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NOTA: Por preferência do autor, este texto não segue as normas do Acordo Ortográfico.


Outro artigo do autor sobre o mesmo tema: http://iscia.edu.pt/ocri/jfk-50-anos-depois/