3 de dezembro de 2013

As secas e os tufões...



por MÁRIO SOARES


1- Há meses li um livro que depois comentei num artigo, por me ter impressionado muito. Intitulava-se: "Dez mil milhões, enfrentando o nosso futuro", cujo autor Stephen Emmott, é um reputado cientista que chefia um grupo de novos cientistas que trabalham em Cambridge num laboratório sobre a Terra. E que chegaram à conclusão de que em cerca de cinquenta anos, a Terra pode implodir, por culpa dos humanos.

Curiosamente, na quinta-feira última, a Televisão TVI 24/7 passou um longo e muito interessante documentário sobre o que está a acontecer no nosso planeta, com os mais variados desastres climáticos. Têm dado origem a tsunamis, secas, tufões e inundações. Estão a destruir o Ártico e o Antártico, a perder o gelo e, em consequência, a aumentar o nível dos oceanos.

E mais: a revista Courrier International na sua última edição de 24 de novembro de 2013, intitula-se: "O tempo das catástrofes", sublinhando: tufões, secas, inundações e interrogando-se: "Em que medida o aquecimento da Terra é responsável por tudo o que está a acontecer?"
Mas ficou-se pela capa sem ir mais longe. Os mercados usurários não deixam, nem isso lhes importa... 

No final do século passado falou-se muito do perigo do aquecimento da Terra. A ONU organizou sessões entre os grandes Estados do nosso planeta - da América do Norte à China, ao Japão à Rússia, ao México, ao Brasil e América do Sul, à União Europeia e mesmo ao Universo Muçulmano e à África.

Mas de repente, depois do fracasso da última reunião da ONU, que teve lugar na Dinamarca, e que foi totalmente sabotada pelas grandes potências - os Estados Unidos, a China, a Rússia e o Japão - os mercados usurários calaram a comunicação social, que em grande parte dominam, e a ONU com o atual presidente, que não gosta de sarilhos, calou-se igualmente.

Entretanto, as desgraças climáticas surgem e desenvolvem-se por toda a parte. O que se passou recentemente nas Filipinas e também nos Estados Unidos devia obrigar-nos a refletir. Mas não. A comunicação social é cada vez mais dominada pelos mercados e os jornalistas e os políticos independentes, que deviam dizer o que pensam, e não o que lhes mandam, têm vindo a diminuir. Por isso, os jornais e as revistas vendem-se cada vez menos...

Claro que a internet é uma poderosíssima rival, visto que as pessoas escrevem no Facebook e noutras redes sociais e dizem o que pensam. É o que de algum modo nos vale. Embora para os velhos, como eu, o hábito da leitura dos jornais e das revistas continue a impor-se, ao contrário dos mais novos.

Voltando a este nosso tempo das catástrofes climáticas - e o que dizem os cientistas acerca do que pode acontecer ao nosso planeta -, impõe-se-nos a necessidade de refletir a sério. São os nossos filhos e netos que vão pagar mais duramente aquilo que de pior pode vir a acontecer.
Para que serve hoje a ONU, se continua a calar-se perante os desastres climáticos, cada vez mais graves, que o nosso planeta está a viver, por culpa exclusiva dos humanos e que está já a refletir-se nas várias espécies animais, nas árvores e em certos vegetais? Para que serve o dinheiro - que é hoje o que conta - perante as catástrofes ecológicas a que hoje impunemente estão a assistir?

Temos hoje dois homens de excecional qualidade, de inteligência e de ética, que nos dão alguma esperança para o futuro: Sua Santidade o Papa Francisco e o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Têm atacado a crise financeira, social, ética, política e ambiental, bem como a famigerada austeridade, de que tantos países, como Portugal, têm sido as grandes vítimas. O capitalismo selvagem e a ganância de certos políticos que só falam do que lhes interessa: do dinheiro. Mas, atenção, é importante que pensem também no destino da Terra e dos humanos que podem desaparecer, bem como os filhos e netos, uma vez que estão a destruir o nosso planeta. Serve-lhes para alguma coisa o dinheiro a que estão tão agarrados? Porque fecham os olhos ao que dizem os cientistas sobre o que pode acontecer ao nosso planeta? Como fizeram ao aquecimento da Terra, em que nunca acreditaram e que parece agora ser já uma evidência?

Reparem nos oceanos, que vão crescer muito - e inundar a Terra - dada a situação de degelo do Ártico e do Antártico que, por causa do aquecimento, estão a ser destruídos... Como é possível que os humanos, de tantos Estados, que parecem cultos e inteligentes, fechem os olhos, cegos, ao que se passa hoje na Terra, que a sua inteligência tanto desenvolveu e agora, pela ganância, estão, sem se aperceberem, a destruir?

Atenção. A nossa Madeira está a ter frequentes chuvadas que arrasam casas e estradas. É urgente estudar esse fenómeno e tomar as devidas precauções.

2 - A AFLIÇÃO DE VIANA DO CASTELO

Não era minha intenção escrever hoje qualquer texto de natureza política. A política portuguesa vai péssima, todos o sabemos, mas não é do meu agrado repetir-me, insistindo no já dito.

Claro que, com o atual Governo, todos os dias há novas políticas desastradas, que empobrecem mais os portugueses e os levam ao desemprego e ao desespero por não terem dinheiro sequer para dar de comer aos filhos.

Com a chamada austeridade e enquanto a mesma subsistir, como é o caso, tudo será cada vez pior. 

Desta vez a culpa voltou a ser do ministro da Defesa, Aguiar-Branco, que só tem criado problemas e nada feito. Que o digam os militares do Exército, da Força Aérea ou da Marinha, que o têm aturado, com muita paciência, mas começam a estar a fartos, como se tem visto...

Agora resolveu atacar os Estaleiros Navais de Viana do Castelo e pôr na rua, como se fossem coisas, 600 trabalhadores. Fez isso de um jato, depois de lhes ter prometido salvar os Estaleiros e garantir o maior número possível de postos de trabalho. Mas, claro, não cumpriu.

Conheci os Estaleiros de Viana do Castelo na altura em que tive responsabilidades de Estado e, depois de ser deputado ao Parlamento Europeu, quando, a pedido dos trabalhadores, fui com o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, visitar os Estaleiros em que ele estava muito interessado. Depois disso a Venezuela enviou barcos para reparação e manifestou a intenção de encomendar a construção de novas unidades.
Mas agora, subitamente, Aguiar-Branco foi dizer aos trabalhadores que os Estaleiros vão ser entregues a uma empresa, que dizem falida, que eles serão despedidos e depois se verá se alguns poderão voltar a trabalhar.

Imagine-se o impacto negativo que as palavras de Aguiar-Branco tiveram nos trabalhadores dos Estaleiros e nas suas respetivas famílias e amigos. Toda a Viana do Castelo se está a manifestar contra, a começar pelo presidente do Município, José Maria Costa, que é um socialista muito moderado e respeitado. Mas sabe, como poucos, a desgraça que tudo isso representa não só para a população de Viana do Castelo mas sem dúvida também para toda a região do Minho.

O presidente da central sindical CGTP, Arménio Carlos, com o seu dinamismo habitual, foi logo a Viana, para se informar e valer aos trabalhadores. Os jornais pouco escreveram, mas algumas televisões e rádios deram em direto as suas palavras. Ouvi-o e gostei do que disse. Não se pode, com tanta incompetência - e sem qualquer critério válido - tentar destruir uma cidade capital. Seria mais um caso de incapacidade e de impotência em que por causa de uns milhares de euros, se destruiria um distrito, que está na origem da nossa nacionalidade... Será que o ministro terá consciência disto? Desconfio que não! 

3- A VIZINHA ESPANHA

Sou um amigo de Espanha, de que sempre gostei e conheço bem. Desde jovem vivi a guerra civil de Espanha, que segui, pela Rádio Madrid, e assisti (lembro-me bem) à entrada dos nacionalistas, como eram chamados os fascistas, ou franquistas e os próprios marroquinos trazidos por Franco para lutar contra os espanhóis republicanos.

Meu pai foi um amigo e admirador de Azaña e, durante a segunda República espanhola, foi muito ajudado pelos republicanos espanhóis na luta contra a ditadura salazarista. Apesar de Salazar e Franco nunca se terem dado bem. Sentiu-se isso nos poucos encontros que tiveram e, sobretudo, depois do 25 de Abril.

Espanha sempre me encantou pela sua cultura e pintura. A cultura é o que faz uma Nação. O Museu do Prado, que visitei muitas vezes, sempre me fascinou, mas autores como Miguel de Unamuno, José Ortega y Gasset, Salvador de Madariaga, García Lorca, António Machado, Tierno Galván, e tantos outros, para não falar de Cervantes e outras grandes figuras do passado, cujos livros me honro de ter, foram para mim um alimento cultural de primacial importância. Como aliás a História de Espanha. A música, em que sempre fui fraco, por falta de ouvido, nunca me deslumbrou particularmente. À exceção do flamenco, de que sempre gostei.

Aliás foi a literatura espanhola que me conduziu a ler e a conhecer excelentes e grandes escritores latino-americanos. Conheci alguns pessoalmente, como: Jorge Luís Borges, Gabriel García Márquez, Vargas Llosa, Octavio Paz, Isabel Allende, etc.

Conheci o conde de Barcelona, pai do Rei Juan Carlos, que Franco nunca deixou entrar em Espanha e que viveu muitos anos exilado em Portugal. E sempre espiado por Salazar, porque dele desconfiava.
Depois do 25 de Abril e da transição democrática espanhola, as coisas mudaram radicalmente. Fui amigo de Adolfo Suarez e dos líderes dos diferentes partidos que então vieram à luz do dia, como os comunistas. Por exemplo a Pasionaria (que conheci em Milão) e Santiago Carrillo, um eurocomunista que se tornou um querido amigo, Tierno Galván e Raul Morodo, que foi um grande embaixador em Lisboa, e para mim como um irmão, e Felipe Gonzalez, que aliás conheci numa reunião da Internacional Socialista quando tinha o pseudónimo de Isidoro.

Quando era primeiro-ministro fiz uma grande amizade com Adolfo Suarez, que também o era. Mudámos o Tratado de Amizade e Não Agressão Luso-Espanhol e estabelecemos o Tratado de Amizade e Cooperação entre os dois Estados democráticos ibéricos (1977).

Foi nesse tempo que conheci, em Londres, pela mão de Fernando Morán, um grande amigo, galego como Franco, Manuel Fraga Iribarne, que era embaixador. Eu era então ministro dos Negócios Estrangeiros e tinha receio de que pudessem surgir de novo as incursões militares, apoiadas por Espanha, como houve na I República portuguesa (1910-1926). E foi isso que lhe perguntei. Respondeu-me, sem pestanejar: "Será algo que Franco nunca consentirá. Não se esqueça que ele é galego como eu." 

Realmente quando, bastante tempo depois, Ford, o presidente dos Estados Unidos, e Kissinger, com medo do comunismo, vieram a Espanha, para pedir a Franco autorização para que marines americanos atravessassem a Espanha para acabar com o comunismo em Portugal, país da NATO, Franco, não hesitou e disse: "Nem pensar." O texto dessa conversa está hoje à disposição. Como se sabe, trinta anos depois, é aberto ao público.

Mas tudo isso pertence ao passado e a Espanha de hoje - como Portugal - estão mal com a crise europeia, financeira, económica, ética, social, política e ambiental que ambos os países sofrem, porque ambos aderiram, por serem Governos da direita populista, à austeridade que, por onde passa, destrói os países que dela são vítimas. Rajoy, é verdade, teve a lucidez de não deixar entrar a troika em Espanha, mas adotou também a famigerada austeridade, o que veio a dar no mesmo.

Amigo de Espanha e da sua cultura, a que tanto devo, tenho uma grande vergonha que os dois Estados ibéricos, estejam como estão, perto de ditaduras, enquanto todos os Estados latinos e o nosso querido Brasil são hoje democracias consolidadas. É triste para a Ibéria e, em especial, para Portugal, Estado independente desde 1143, sempre com as mesmas fronteiras, mas também para Espanha, com as suas 17 autonomias, numa situação que para os dois Estados ainda não é de ditadura, mas estão próximos. Porque os Estados sociais estão a desaparecer e os sindicatos a não serem ouvidos, como nas democracias é de regra.

Uma desgraça contra a qual é necessário lutar. Claro, pacificamente.