30 de janeiro de 2014

A urgência da Literatura...


Literatura e Ensino

Ao abordar o Ensino da Literatura, temos de enquadrar a sua inserção sociológica: 1º Determinar se é útil, necessário ou dispensável esse ensino; 2º Como se deve proceder para o efectivar: deverá ser programático, curricular, disciplinar, sócio-cultural, tudo isso –  ou privilegiar-se-ão alguns desses veios?; 3º Como se ensina Literatura, entre o ensinar a ler e o ensinar a redigir? – partindo do princípio que se aceita a metalepse: ensinar Literatura não é ensinar a escrever Literatura, é ensinar a ler, criticamente e esteticamente, o tipo de textos que se apresentam com essa designação.

Temos também de reparar na sua inserção política, pois que se invocam certos lugares-comuns quando são propostas novas metodologias para o ensino: que é preciso submetê-las a debates, ouvir os professores,  correlacionar categorias de docentes, etc. O que decerto importa em democracia, mas, se funcionar como ‘efeito de assembleia’, em termos de rejeição/aprovação, leva a correr o risco de substituir as competências convocadas  (se o são!) pela decisão arbitral que, sem procedimento de colegialidade, pode desconjuntar as propostas e anular o seu sentido.

Verifica-se também que as circunstâncias em que o Ensino da Literatura se insere são diferenciadas segundo as as épocas. Nos últimos 40 anos elas têm divergido de acordo com regimes políticos, sendo que, em relação ao s. XX (quando a Literatura emerge como disciplina curricular, e a sua designação inicial como História da Literatura decorre da prevalência do historicismo então corrente), a sua efectivação antes da Revolução de Abril foi quase massivamente reconhecida como sendo de proscrever. Contudo, é bizarro que, no Pós-Abril, não seja  tanto o facto de existirem erros ou linhas defeituosas nos Programas e metodologias que leva a maioria dos cidadãos concernentes a tomarem posição sobre eles, mas principalmente o facto de esses Programas ou Orientações serem emitidos por entidades tuteladas por Governos que não são da preferência de quem se manifesta! Isto é: medidas oriundas de um Governo ao qual eu não sou ideologicamente afecta, e no qual portanto não votei nem tenciono vir a votar, espera-se de mim que eu seja contra essa medida (mesmo que ela seja correcta!), para que eu não esteja a apoiar o Governo, e contribua até para que ele venha a cair. Assim se tem procedido, dizendo e apoiando o que convém partidariamente, e calando o que não convém, mesmo que isso desfavoreça o ensino e prejudique gerações de cidadãos. Tal atitude releva de uma concepção serventuária da Política, e prejudica o cidadão e o país.

Não se estranhe pois que, agora que a Literatura está a reentrar nos programas de modo nobre, se oiça ou leia afirmações de que, por ex., não será porque os alunos se vão especializar em Camilo ou em Saramago (enfim, em Saramago já supostamente o eram) que irão no futuro ensinar melhor a ler! Ora o que aqui se está de facto a dizer é que ensinar Literatura é indiferente, e se quem o diz é inteligente, e portanto alcança a enormidade do que diz, então o que na realidade diz é «fora com este Ministro» e «fora com este Governo»! E provavelmente concordamos!. Mas é eticamente reprovável, e científicamente errado, dizer «fora com o Programa porque é mau!», se o programa for bom! É uma pena não ter sido outro Governo a fazêr-lo… Mas não foi.

Com isto quero dizer que a Literatura, sendo uma forma ideológica, ao ser introduzida nos programas de modo abrangente e qualitativo (e por isso com representatividade estética nos programas, e não em completude – que é inalcançável!), não vem ideologizar parcialmente autores ou leitores, antes abre a potencialidade da reflexão ideológica sem proceder a escolhas da sua avaliação, o que seria «dirigismo». A opinião «política» não é uma opinião «educativa»: ambas se interpenetram, mas não são forçosamente coincidentes! Um correcto ensino da Literatura sugere isso mesmo.

E um dos efeitos positivos que o Ensino da Literatura pode ter é o de levar os cidadãos a não serem sectários, a verem o que é positivo onde de facto está, e, em vez de aprovarem o que os partidos lhes dizem que é bom porque eles, partidos, acham que assim é, os cidadãos com aprendizagem correcta dirão eles-próprios aos seus partidos o que de facto está bem ou não, em matéria que não é deles, partidos, é deles, cidadãos!

É a isto que se chega quando se lê Camilo em A Queda dum Anjo e se vê Calisto Elói a actuar no Parlamento como num circo (será por isso que o PNL não aprova certos livros de Camilo Castelo Branco?), ou quando se assiste em Saramago, no Ensaio sobre a Lucidez, à sugestão da eficácia do voto em branco. Não será conveniente para certas formações partidárias, mas isso também Salazar achava, porque decretou, não o voto facultativo, mas o voto obrigatório.

Quanto às características epocais do ensino, lembre-se ainda que o salazarismo apresentava manuais imutáveis de selecção de textos obediente à expansão da Fé e do Império e à glorificação do Governante, nos quais, porém, a qualidade literária em pelo menos 50% desses textos fazia jus a génios do passado: em 5 anos do Secundário tinha de ler-se Camões, Gil Vicente, Júlio Dinis, partes de Vieira, Bernardes, Camilo e Eça, havendo até um livro de leitura integral obrigatória em cada um dos 3 últimos anos. Mas ignorava-se o s. XX. E recorde-se que no pós-Abril as opções políticas também imperavam: Mário Dionísio, então responsável por alterações aos programas, acabou por se demitir ao notar a existência de compromissos dúbios que o desgostaram, cf. Autobiografia. Quer dizer que espíritos sérios chegam a ver-se «em maus lençóis» (às vezes, achincalhadas, até  ameaçados!) se tentam mudar certas situações institucionais, as quais,  mesmo em épocas clarividentes, se mantêm inalteráveis, ou por sectarismo político, ou por inconfessáveis interesses empresariais.

Isto significa que a Literatura, além se ser ideológica, sofre a acção político-económica. E a acção comercial, que domina a própria política. Ora o ensino, devendo sobrepôr-se a TODAS as divisões de ideias, não pode pactuar com essa dominação:  mau grado ser de natureza ideológica, o seu funcionamento correcto tem de agir supra-ideologicamente (por isso não é fácil ensinar… nem é fácil viver, no mundo de hoje!). Mas é mister separar as convicções pessoais dos parâmetros de exercício da profissão. No processo pedagógico, a tomada de posição é inevitável e benéfica, se se aliar à lisura de procedimentos, não aceitando a conivência de interesses, como as que se detectam em torno de Programas de Ensino e Manuais Escolares, interesses esses que ficam na sombra e o público desconhece.

Que há então com a Literatura, genericamente apetecida (veja-se a quantidade de livros de criação que regularmente se publicam) mas pedagógica, editorialmente, e politicamente maltratada? E como é que autores talentosos mostram defeitos graves de redacção, construção da frase, até erros de ortografia? Bem, que a ortografia, hoje, não interessa. Vem um revisor, e emenda! Em muitos casos, emenda mal… Mas… para que se há-de ralar um aspirante a escritor, se há correctores ortográficos? Se a máquina substitui o pensamento? Ou antes: se a máquina OBRIGA o pensamento? Hall, o computador de “2001, Odisseia no Espaço”, que nos dava pesadelos só de pensarmos que um dia poderia ser assim, não supunha afinal que iria ter descendentes tão pouco à sua altura.

Que há, pois, com a Literatura, por um lado tão secundarizada que dir-se-ia não merecer vigorar no Ensino, e por outro lado tão ‘acautelada’ que até parece constituir… uma ameaça?

O que há é que a Literatura consiste no uso estético da Linguagem, daí resultando pelo menos 2 consequências:

1ª - a de se tornar um aparelho de sedução, com ideias poéticas que  são simultaneamente críticas, sendo por isso factor de desenvolvimento e actuação intelectual, tomando consciência dos valores do mundo em que o leitor se insere: o aluno, futuro adulto, cidadão do amanhã. Ela não combina com interesses dos aparelhos que  consentem oposições ‘intra-muros’ mas as ejectam, se elas põem em questão o próprio aparelho;  

2ª - a de permitir à criança (ao adolescente, ao leitor), de modo insensivel (portanto também ideológico), tornar-se progressivamente um cidadão lúcido, na medida em que se vai munindo de materiais de raciocínio colados à sensibilidade, e por isso mais actuantes, em sectores  humanos e cívicos decisivos.
Ora esses sectores que a Literatura condiciona são os seguintes:

1. A educação estética, que permite, a quem aprende, entender que a Literatura é uma arte e não um mero amontoado de palavras, e por isso difícil, mas estando ao alcance de qualquer um através da tentativa própria – contradição que se anula pela conceptualidade da noção de «prática»;

2. A educação linguística, que familiariza o aluno com os usos da palavra e sua organização na composição do pensamento, sob formas de comunicação que se ligam ao usual quotidiano mas a ele não pertencem, pois induz a concepção dos ‘mundos possíveis’ que a Literatura confabula numa generalizada experiência do mundo e da vida, tanto quanto dos mundos transactos, da História, ou de mundos de suporte criativo original;

3. a educação cívica, política e, em especial, ética e filosófica (e estas últimas podem subsumir a cívica e a política), educação esta que se processa na leitura por efeito mimético de cenas, discursos, práticas, actuações, e até pela sua contra-mimese (em registos do fantasioso: fantástico, feérico,  sobrenatural, supra-mundano, e todos aos quais se alce a imaginação), criando uma experiência de diálogo com o texto e no texto, susceptível de desenvolver a vida em consciência e em convívio, com as suas componentes participativa, crítica e pragmática;
4) a educação retórica, que habilita o aluno (e todo o leitor) a desconstruir os mais variados discursos, nos mais diversos sectores, e lhe permitirá resistir ao uso e abuso que da retórica mundanamente se faz, usualmente em seu prejuízo (em prejuízo dos futuros cidadãos e da orgânica social no seu todo);

5) a educação do raciocínio, do qual, com a Matemática e a  Filosofia, a Literatura lança bases, fazendo de todo o profissional, não um mero ‘executante’, mas um fautor de sucessos, desde o simples passo em equipa ao salto de juízo próprio, consciente do papel da sua integração nas mais vastas comunidades, e consistente em resultados. Isto, a partir da sintaxe interiorizada e do uso de frases logicamente vertebradas, que incorporam segmentos narrativos, da sua própria e singular existência até à ficção, ou vice-versa, criando uma imagística particular que é coadjuvante da forma  mental de estar no mundo: porque poetizar é «pensar com uma imaginação ordenada», não é usar palavras ao acaso – e ele-próprio, acaso, quando usado em Literatura, conhece leis;

e 6)  a educação  histórica, pela observação dos vários tempos e épocas que os livros que se lhe facultam proporcionarão, e que, aliada ao estudo de Línguas Clássicas (o Latim, ao menos, é essencial), dá ao aluno a sua consciência reflectida de ser humano no mundo estratificado em  tempo e não apenas em espaço, o qual espaço se lhe apresenta tendencialmente uno, pese embora a diversidade, até no campo das linguagens; esse é outro tipo de educação, a espacial-geográfica, ainda integrável em Literatura.

Enunciados estes 6 sectores, dos quais o Ensino da Literatura promove a configuração, acrescento que há 3 componentes centrais na constituição da sociedade justa: Saúde, Educação e Ambiente –  as únicas  que NUNCA é possível secundarizar em política, sob pena de a própria noção de política se abastardar, e que mantêm o ser humano em equilíbio consigo mesmo, com os seus semelhantes e com o universo. Se forem asseguradas como necessidades prioritárias, as restantes, que actualmente absorvem atenções e despesa, verão a sua necessidade assaz diminuída. E não é uma questão de meios, mas de prioridades! De entre elas, a que agora nos ocupa, a Educação, tem como trave mestra a ‘Linguagem Em Acção’ (que é uma espécie de vertente pragmática do dizer e do escrever), a qual se encontra figurada nos ‘mundos possíveis’ que a Literatura encena, em especial no romance, teatro, poesia e ensaio. Encontra-se ainda, essa Linguagem Que Age, na interlocução (mental, imagética ou relacional) que o aluno estabelece com a própria Literatura: a qual lhe surge como apelativa, superior, inalcançável, mas lhe traça afinal os intimismos do ser corrente, trivialidades do sucesso costumeiro, tanto como a excepcionalidade heróica e o poder da divindade. Fixando-se nela, o aluno, futuro cidadão, pode constituir a sua ponte comunicativa com os outros e o mundo, e com o Ideal do Eu.

Então, o que é que impede que a Literatura seja o que é: um factor excepcional de Educação? O lugar escasso nos curricula, a concepção desinformada de um papel tido como decorativo, numa sociedade que, mercê da deseducação e da ganância, vive (até nos melhores casos…) para armazenar proventos e proceder a efeitos de visualização: os chamados interesses económicos e mediáticos.

Ora o que fazem os professores por isto, ou contra isto? Quando não querem introduzir-se, também eles (muitos querem!, alguns estão lá!), nos tais «interesses», de que necessitam eles para pôr em prática isto, que é simples: ler textos e comentar com correcção aspectos do seu significado  literário? De que precisam os professores para leccionar adequadamente? Precisam só de 4 coisas:

A. Antes de mais, os professores precisam de ser professores, com um lugar para ensinar e tendo compertência lectiva. E nem todos o podem fazer, devido a sucessivos desgovernos e deficiente formação; e porque a Universidade tem atravessado uma das suas maiores crises, ligada às falhas de financiamento e a outros factores até hoje incontroláveis – e as ESEs, de vocação mal interpretada, surgiram a substituir o papel das Humanidades, em prol de um tecnicismo que não sabe lidar com a Pedagogia.

Sofre assim o ensino de um didactismo despersonalizado (não distingue entre Pedagogia e Didáctica), pelo fito de concorrer com tecnologias de ponta (em vez de as entender como complementares!), sujeitando o indivíduo à massificação e agindo com erros crassos, ex. «dobrar» a palavra falada ou lida por visualizações de «power point» (o que seria patético se não fosse ridículo!), acto que é o emblema ignaro da comunicação falhada. Porque a acção da palavra (dita, ouvida ou escrita-lida) é a comunicação em significação pura mas directa (ao mesmo tempo simbólica e precisa), e o digitalismo, a formatação, o «dictat» mediático nela vêem (e com razão!) o inimigo nº 1, a originalidade que descarta a sua cópia, e daí o quererem secundarizã-la.

B. Os professores precisam de saber que ensinar Literatura (isto é, a Língua numa das suas acções fulcrais) é um acto pedagógico, o didactismo só lhe estabelece nexos. E, quando  os professores conseguem ser professores, aquilo de que mais precisam é de saber o que é uma aula, como a devem dar, como proceder para manter o seu espaço-aula em forma produtiva, agradável, disciplinada e eficaz.

Há meio-século, dizia-se que os professores tinham vida regalada: aulas ou de manhã ou de tarde, umas reuniões, direcções disto ou daquilo, e pronto. Mas nos estágios, a que, como aluna de estagiários, eu assistia, e dos quais muito aproveitei, percebi que a relação professor-aluno se baseia  na grande exigência de pensar o modo como se dá uma aula: com empenho e cálculo quanto ao modo de se transmitir a matéria, que NUNCA pode ser igual ao que vem nos livros – para isso é que se é professor: para explicar MELHOR, e de várias maneiras, o que os livros contêm. De modo que os bons alunos nem liam tais livros: só as selectas de textos e os apontamentos das aulas, alguma bibliografia, e muitas leituras livres!

Ora para configurar as aulas, os professores precisam de  Programas que lhes permitam ensinar bem. Ensinar Português na sua relação com a enunciação imaginada que é a Literatura. Em vez de arrazoados de matéria lateral e tecnicista, em linguagem confusa e aberrante, hoje podem ter, ao menos, articulados decentes na programação, equilíbrio Linguística/ Literatura, Listas de Leituras onde se efectuam escolhas, proporcionando textos adequados ao que disse atrás. E que tornem os alunos aptos para a vida, com uma cultura de consciência.

         C. Os professores precisam de Livros, obras de apoio, e não necessariamente de tipo ‘escolar’, que fazem da Literatura uma «instrumentação», e ela é o contrário disso. Não falo, pois, de Manuais, que são uma espécie de edições adulteradas da Bíblia (do Livro!), os Manuais são «vademecum»s onde se supõe que os meninos têm «o que é preciso» para saber o essencial da matéria, e os professores têm também «guias» para as suas lições. «GUIAS??!!!» Os professores, que, por definição, são «os que sabem», precisam de guias em que os autores são colegas orientados por editores??? Eu pensava que os editores é que precisavam de ser guiados por quem sabe ensinar… Um manual serve para fazer carpintaria, enfim, tudo o que se faz «com a mão», não é para «estar à mão»… que, neste caso, nem será ‘à mão de semear’, pois nada há neles que se semeie, e por isso a seara é sáfara. Olha, olha… um Manual para colocar a Literatura «à mão» dos professores, tinha graça!!! E os modelos de aulas?? HÁ PROFESSORES QUE SEGUEM MODELOS DE AULAS FEITOS POR OUTREM??? Aceitam ser formatados, e, em consequência, formatar os alunos??? São todos resultado de um acto de carimbar??? Porque, se é assim, então não são professores… É necessário, sim, na parte do Português prático, ensinar a fazer um relatório, um memorandum, uma petição, uma memória descritiva… Distinguir entre uma narração e uma descrição, mas não é o Manuel que ensina, é o Professor e a própria Literatura em si, em exemplos a analisar – e a análise de texto, não se esqueça, é o coração do ensino da Literatura! Sem ela, haverá muitos estudos sobre Literatura, mas não há estudos DE Literatura.

É para aí que tem de apontar o Professor, de modo a suscitar no Sujeito do conhecimento na relação pedagógica (que é o aluno!) as ideias latentes para a apreensão da realidade, através da comunicação de modos de apreensão do texto literário, na linguagem e pela linguagem. Essa é a actividade do Professor na aula de Português, com a Literatura, agindo com originalidade  (com estilo!), competência, inventiva e senso.
Podemos até prescindir dos Manuais, não são precisos para nada! Os editores são necessários em outros tipos de obras: Textos Seleccionados de escritores do Programa, boas Gramáticas escritas em Português de Lei (e não «da» Lei…), edições cuidadas de obras sugeridas para as leituras do programa – edições ‘cuidadas’ significa: preparadas segundo critérios pedagógicos, que vão do rigor intelectual e crítico à concepção física do livro: em material leve e resistente, com boa mancha tipográfica, de custos acessíveis! Nada de peso, de carestia, de elocubrações gráficas de estética duvidosa.

TERMINO: de que mais precisam os professores para o serem?  
D. Os professores precisam de Tempo! - condição para que o Professor ensine bem: o tempo! O professor precisa de ter tempo para preparar a aplicação do Programa à sua Turma, de tempo para preparar as aulas, de tempo para se actualizar. De ter tempo para pensar! Uma profissão que requer muita leitura, reflexão sobre ela, ideação de modelos originais de aulas, adaptação de problemas lectivos a casos discentes especiais, não se compadece com o dia de profissionais que o passam inteiro na Escola. A mente brilhante que entendeu que o professor devia estar na Escola a tempo inteiro, como os demais funcionários públicos, terá sido acometida por um ataque de estultícia!  Dos outros professores, não sei – mas um professor de Letras, de qualquer disciplina e nível, NÃO É um funcionário do Ensino, é um funcionário público dedicado a uma «causa» específica: a de, no sector social central que é a Educação,  preparar mentalmente  o futuro cidadão para o manejo da Língua, para as representações do mundo circundante, através da correcta utilização da Linguagem Quotidiana e Literária, da Linguagem Que Age – e isso implica trabalho de preparação que ocupa muito tempo, em casa, e só na Escola se esta puder oferecer gabinetes, bibliotecas adequadas e um sossego propício à reflexão. Tem sido este o caso? Se não, e sendo esta questão crucial, pergunto: como exigir aproveitamento visível a alunos de professores que não podem estar aptos a leccionar?

         É preciso pensar em tudo isto quando se regulamenta o ensino. É preciso pensar em tudo isto quando queremos ensinar. É preciso pensar em tudo isto se não queremos a sociedade dominada pela ignorância e pela iniquidade – e agir em conformidade, custe o que custar. Repito: custe o que custar, em todas as acepções da palavra «custar», e eu sei o que me tem custado, moralmente e materialmente, a mim. Mas sou Professora…

Universidade de Lisboa, Centro de Estudos Comparatistas
11 de Janeiro de 2014


Maria Alzira Seixo

Obama Speeches Are A Lot Like Sex...

28 de janeiro de 2014

Concurs “RECreactiva’t. Projectem per Àfrica”


Cerquem activistes pel dret a la salut!


Des de la campanya Dret a la Salut a l'Àfrica fem una crida a tots els joves entre 14 i 18 anys a través de Centres de Lleure, Instituts de Secundària i Batxillerat de Catalunya, a participar al nostre concurs RECreactiva't: projectem per Àfrica.

Un concurs que premia la recerca, creativitat i implicació social per a augmentar el coneixement de la ciutadania, així com una actitud crítica i propositiva dels joves cap a les principals problemàtiques per garantir i defensar el dret a la salut a l’Àfrica, i al món. En un moment com l'actual on els drets socials es vulneren cada cop més arreu del món, creiem fermament que només des d'una ciutadania empoderada podrem avançar cap a un món més just i equitatiu.

Per això, us oferim una eina atractiva de participació per als joves, amb la que fer-los pensar, reflexionar i actuar en la defensa de la #SalutperalsDDHH.

IMPORTANT: Les inscripcions finalitzen el 31 de gener!

Us informem dels PREMIS que s'entregaran en aquesta edició:

  • Premi al millor curtmetratge per votació del jurat: Equip de grabació format per una càmera Casio Exilim + 1 trípode Benro + 1 antorxa Led per a grabació de vídeo Sonnon de Pixel + funda de càmera.
  • Premi al millor curtmetratge per votació online: Equip de grabació format per una càmera Casio Exilim + 1 trípode Benro + 1 antorxa Led per a grabació de vídeo Sonnon de Pixel + funda de càmera.
  • Premi a l'acció de sensibilització més innovadora per votació del jurat: Càmera Casio Exilim + pressupost de fins a 300 € per a executar l'acció.
  • Premi a l'acció de sensibilització amb més impacte social per votació del jurat:Lot de productes de comerç just + pressupost de fins a 300 € per a executar l'acció.
  • NOVETAT! Premi a la participació: en aquesta edició, s'entregarà un premi per a tots els grups que s'hagin inscrit i hagin entregat la/les proves on s'hagin inscrit.

Tot això serà possible gràcies a la col·laboració de:
               

I alguna sorpresa més que descobrireu molt aviat!

Per als qui encara no sabeu en què consisteix el concurs, us ho expliquem breument:

Hi ha dues categories (els grups poden inscriure en una sola o en les dues proves):
A) Realitzar un curtmetratge

Els grups han d'estar formats per un mínim de 3 persones. I cal tenir un professor o professora, monitor o monitora, com a responsable del grup per a l'activitat.

La inscripció és gratuïta i l'ha de fer el o la responsable del grup, emplenant el següentformulariRecordeu! La data límit és el 31 de gener de 2014.

Podeu llegir tota la informació detallada a les bases del concurs, i el dossier amb tota la informació.

Si teniu qualsevol consulta, escriviu-nos a activitats@dretalasalutalafrica.org, o al telèfon de la campanya 679464812.

20 de janeiro de 2014

Acordo ortográfico: das fraudes de uma missiva


Por Rui Miguel Duarte
16/01/2014

“Atenienses, de quão grandes têm sido as diligências e as manobras partidárias em torno do presente debate, suponho bem que quase todos já vos tendes apercebido, ao verdes ainda agora aqueles que, quando eram os vossos nomes escrutinados, vos vieram perturbar e assediar. Pedir-vos-ei, a todos vós, aquilo que é justo colocar ao dispor mesmo de quem o não pede: que não tenhais em maior apreciação nem o favor nem o factor pessoal do que a justiça e o juramento que cada um de vós pronunciou ao entrar neste lugar.”
Demóstenes, Discurso sobre a embaixada fraudulenta, 19.1 (proémio)

Estava agendada, para o passado dia 20 de Dezembro, para plenário na Assembleia da República a apreciação da Petição n.º 259/XII/2 “Pela desvinculação de Portugal do ‘Acordo Ortográfico’ de 1990”. Na véspera, foi a apreciação cancelada, a pedido dos Deputados José Ribeiro e Castro e Michael Seufert (CDS), que apresentaram na mesma data, em conjunto com o Deputado João B. Mota Amaral (PSD-A) um projecto de resolução n.º 890/XII/3.ª. Este projecto recomenda ao Governo a criação urgente de um Grupo de Trabalho sobre a Aplicação do Acordo Ortográfico. O propósito é de fazer acompanhar a apreciação da Petição (que fica adiada, faltando agendar nova data) de uma iniciativa que force os Deputados a pronunciar-se por meio de votação, porquanto a mera apreciação de uma Petição não implica votação, tornando-se ineficaz jurídica e legislativamente.
No mesmo dia, envia o Director Executivo Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), sediado na Praia, Cabo Verde, o Doutor Gilvan Müller de Oliveira, uma carta aos Deputados (alojada aqui: http://www.ciberduvidas.com/acordo.php?rid=2850). Basicamente, a carta procura contestar alguns fundamentos da Petição e os Peticionários que a elaboraram, de modo a influenciar a decisão dos Deputados. Manobra de assédio político exterior na relação que um órgão de soberania do nosso país deve manter com os seus cidadãos, ao caber-lhe o mister de apreciar uma petição subscrita por milhares destes?
Como peticionários, admitimos o contraditório, que o IILP é parte interessada e vamos a jogo, com destemor. Nada devemos. Já a carta muito deve. É um exercício falacioso, frustre e fraudulento. A carta padece toda ela de inúmeros erros, vários deles crassos. A argumentação expõe dados falsos, generalizações rápidas sem a devida atenção aos factos e sem a imprescindível actualização da informação.A carta é um exercício a que nenhum académico se pode prestar, sob pena de constituir um defeito curricular maior.
Praticamente tudo quanto é nela alegado está a priori refutado na Petição, seu anexo e pareceres adjuntos. Todavia, porque os Peticionários têm um sentido mínimo da seriedade e competência científica e jurídica, decidiram responder à carta ponto por ponto, com extensa argumentação e documentação, tendo enviado o todo para os Srs. Deputados. Deter-nos-emos aqui num único ponto da carta. Tal permitirá perceber quão arenosos são os fundamentos desta.
Reza assim o ponto 1 da carta:
"Os dois professores brasileiros que estiveram em Portugal não são "representantes do Senado", como se tem tentado fazer crer em alguma imprensa. São dois cidadãos individuais, ligados a iniciativas privadas (sobretudo do ensino), que foram ouvidos por uma comissão no Senado Brasileiro no âmbito de uma sua proposta de revisão radical da ortografia portuguesa e enviados a Portugal para conhecerem a situação no país quanto à aplicação do Acordo Ortográfico."
Os Professores Ernani Pimentel e Pasquale Cipro Neto (os dois cidadãos referidos), representantes do Grupo de Trabalho Técnico do Senado Federal da República Federativa do Brasil (GTT), criado no âmbito da Comissão de Educação, Cultura e Esporte, foram recebidos em audiência conjunta das 8.ª e 2.ª Comissões da AR (respectivamente, de Educação, Ciência e Cultura e dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas) no passado dia 27 de Novembro (cf. gravação áudio em http://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalheAudiencia.aspx?BID=96404). Na segunda parte da audiência, de carácter técnico e destinada aos Deputados do ex-GTAAAO, os Professores fizeram críticas contundentes ao Acordo Ortográfico e apresentaram, por intermédio de Ernâni Pimentel, as linhas gerais de uma proposta de simplificação deste acordo. Pretendem levar a proposta aos responsáveis políticos e académicos dos países lusófonos com vista à recolha de contributos para essa simplificação, a serem congregados no Seminário Internacional Linguístico-Ortográfico da Língua Portuguesa, promovido pela Academia de Letras de Brasília, no próximo dia 10 de Setembro. Até Outubro, os participantes de cada país lusófono levariam às respectivas autoridades competentes a mesma proposta geral, como subsídio para implantação das simplificações.
O que daqui resultou é claro e nunca é demais repeti-lo (retomando o que foi exposto em escrito anterior, como balanço da audiência aos Professores brasileiros): o ACORDO ORTOGRÁFICO DE 1990 MORREU. MORREU NO BRASIL.
Na nossa resposta ficou cabalmente provado que estes dois Professores são representantes do senado. Ora, o Presidente da Comissão de Educação, Cultura e Esporte, Senador Cyro Miranda, enviara, a 19 de Novembro, uma carta ao Presidente da 8.ª Comissão, Deputado Abel Baptista (CDS), recomendando os Professores brasileiros.
Esta carta (cuja cópia nos foi gentilmente fornecida pela Secretaria da Presidência da referida Comissão do Senado brasileiro da República, por correio electrónico, e que anexámos à documentação enviada, pela mesma via, aos Srs. Deputados) é a prova acabada da autoridade com que foram recebidos na Assembleia da República.
Citamos os parágrafos 6 a 8, suficientemente eloquentes a este título.
"6. Com o intuito de colaborarmos com o aperfeiçoamento e simplificação do complexo acordo, o plenário da Comissão aprovou a criação de um grupo de trabalho técnico (GTT) destinado a colaborar subsídios e contribuições assim como consultar e auscultar os segmentos envolvidos no Brasil e nos demais países. Ao fim de um ano a intenção é propor um documento com sugestões ao texto já conhecido.
7. Em virtude do exposto, solicito ao eminente Presidente da Comissão Co-irmã, o apoio necessário aos ilustres professores, Ernâni Pimentel e Pasquale Cipro Neto (Coordenadores do Grupo Técnico) para as conversações a serem desenvolvidas por ambos os especialistas, entidades e outros interessados em contribuir com o Acordo Ortográfico.
8. Aproveito para submeter a vossa análise a sugestão de reunir nossas Comissões conjuntamente, ou representantes designados, no Brasil e em Portugal, para avaliarmos o andamento do Acordo Ortográfico.”
Fica manifesto que estes Professores brasileiros foram recebidos na Assembleia da República no exercício do cargo de Coordenadores do GTT de uma Comissão senatorial, com uma missão oficial bem definida. Diversamente do que o Doutor Gilvan de Oliveira assevera, não se trata de informação errónea “de alguma imprensa”, nem os “Ilustres professores” seus compatriotas foram a Lisboa enquanto “cidadãos individuais”. É possível ser mais claro?
É urgente, aquando da discussão da Petição em Plenário, que os Deputados apresentem um Projecto de Resolução que suspenda a aplicação do AO90 no nosso País; ou que, no mínimo, recomende que se retire de circulação o conversor “Lince”, produzido pelo ILTEC, por, como já foi demonstrado, violar o AO90.

Doutorado em Literatura, Investigador do Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa, poeta

Acordo ortográfico: acabar já com este erro antes que fique muito caro


18/01/2014

Passado um período de transição, pode voltar-se rapidamente à norma ortográfica vigente e colocar o acordo na gaveta das asneiras de Estado, junto com as PPP e os contratos swaps e muita da “má despesa”.

O acordo ortográfico é uma decisão política e como tal deve ser tratado. Não é uma decisão técnica sobre a melhor forma de escrever português, não é uma adaptação da língua escrita à língua falada, não é uma melhoria que alguém exigisse do português escrito, não é um instrumento de cultura e criação.
É um acto político falhado na área da política externa, cujas consequências serão gravosas principalmente para Portugal e para a sua identidade como casa-mãe da língua portuguesa. Porque, o que mostra a história das vicissitudes de um acordo que ninguém deseja, fora os governantes portugueses, é que vamos ficar sozinhos a arcar com as consequências dele.
O acordo vai a par do crescimento facilitista da ignorância, da destruição da memória e da história, de que a ortografia é um elemento fundamental, a que assistimos todos os dias. E como os nossos governantes, salvo raras excepções, pensam em inglês “economês”, detestam as humanidades, e gostam de modas simples e modernices, estão bem como estão e deixam as coisas andar, sem saber nem convicção.
O mais espantoso é que muitos do que atacaram o “eduquês” imponham este português pidgin, infantil e rudimentar, mais próximo da linguagem dos sms, e que nem sequer serve para aquilo que as línguas de contacto servem, comunicar. Ninguém que saiba escrever em português o quer usar, e é por isso que quase todos os escritores de relevo da língua portuguesa, sejam nacionais, brasileiros, angolanos ou moçambicanos, e muitas das principais personalidades que têm intervenção pública por via da escrita, se recusam a usá-lo. As notas de pé de página de jornais explicando que, “por vontade do autor”, não se aplicam ao seu texto as regras da nova ortografia são um bom atestado de como a escrita “viva” se recusa a usar o acordo. E escritores, pensadores, cronistas, jornalistas e outros recusam-no com uma veemência na negação que devia obrigar a pensar e reconsiderar.
Se voltarmos ao lugar-comum em que se transformou a frase pessoana de que a “minha pátria é a língua portuguesa”, o acordo é um acto antipatriótico, de consequências nulas no melhor dos casos para as boas intenções dos seus proponentes, e de consequências negativas para a nossa cultura antiga, um dos poucos esteios a que nos podemos agarrar no meio desta rasoira do saber, do pensar, do falar e do escrever, que é o nosso quotidiano.
Aos políticos que decidiram implementá-lo à força e “obrigar” tudo e todos ao acordo, de Santana Lopes a Cavaco Silva, de Sócrates a Passos Coelho, e aos linguistas e professores que os assessoraram, comportando-se como tecnocratas – algo que também se pode ter do lado das humanidades, normalmente com uma militância mais agressiva até porque menos "técnicas" são as decisões –, há que lembrar a frase de Weber que sempre defendi como devendo ser inscrita a fogo nas cabeças de todos os políticos: a maioria das suas acções tem o resultado exactamente oposto às intenções. O acordo ortográfico é um excelente exemplo, morto pelo  “ruído” do mundo. O acordo ortográfico nas suas intenções proclamadas de servir para criar uma norma do português escrito, de Brasília a Díli, passando por Lisboa pelo caminho, acabou por se tornar irritante nas relações com a lusofonia, suscitando uma reacção ao paternalismo de querer obrigar a escrita desses países a uma norma definida por alguns linguistas e professores de Lisboa e Coimbra.
O problema é que sobra para nós, os aplicantes solitários da ortografia do acordo. O acordo, cuja validade na ordem jurídica nacional é contestável, que nenhum outro país aprovou e vários explicitamente rejeitaram, só à força vai poder ser aplicado. A notícia recente de que, nas provas – que acabaram por não se realizar – para os professores contratados, um dos elementos de avaliação era não cometerem erros de ortografia segundo a norma do acordo mostra como ele só pode ser imposto por Diktat, como suprema forma de uma engenharia política que só o facto de não se querer dar o braço a torcer explica não ser mudado.

Porém, começa a haver um outro problema: os custos de insistirem no acordo. A inércia é cara e no caso do acordo todos os dias fica mais cara. A ideia dos seus defensores é criar um facto consumado o mais depressa possível. É esta a única força que joga a favor do acordo, a inércia que mantém as coisas como estão e que implica custos para o nosso défice educativo e cultural.

É o caso dos nossos editores de livros escolares que começaram a produzir manuais conforme o acordo e que naturalmente querem ser ressarcidos dos seus gastos. Mas ainda não é um problema insuperável e, acima de tudo, não é um argumento. Passado um período de transição, pode voltar-se rapidamente à norma ortográfica vigente e colocar o acordo na gaveta das asneiras de Estado, junto com as PPP e os contratos swaps, e muita da “má despesa”. Porque será isso que o acordo será, se não se atalhar de imediato os seus estragos no domínio cultural.
O erro, insisto, foi no domínio da nossa política externa com os países de língua portuguesa, e esse erro é hoje mais do que evidente: os brasileiros, em nome de cuja norma ortográfica foram introduzidas muitas das alterações no português escrito em Portugal, nunca mostraram qualquer entusiasmo com o acordo e hoje encontram todos os pretextos para adiar a sua aplicação. No Brasil já houve vozes suficientes e autorizadas para negar qualquer validade a tal acordo e qualquer utilidade na sua aplicação. Os brasileiros que têm um português dinâmico, capaz de absorver estrangeirismos e gerar neologismos com pernas para andar muito depressa, sabem que o seu “português” será o mais falado, mas têm a sensatez de não o considerar a norma.
Nós aqui seguimos a luta perdida dos franceses para a sua língua falada e escrita, também uma antiga língua imperial hoje em decadência. Querem, usando o poder político e o Estado, manter uma norma rígida para a sua língua para lhe dar uma dimensão mundial que já teve e hoje não tem. Num combate insensato contra o facto de o inglês se ter tornado a língua franca universal, legislam tudo e mais alguma coisa, no limite do autoritarismo cultural, não só para protegerem as suas “indústrias” culturais, como para “defender” o francês do Canadá ao Taiti. Mas como duvido que alguém que queira obter resultados procure no Google por “logiciel”, em vez de “software”, ou “ordinateur”, em vez de “computer”, este é um combate perdido.

Está na hora de acabar com o acordo ortográfico de vez e voltarmos a nossa atenção e escassos recursos para outros lados onde melhor se defende o português, como por exemplo não deixar fechar cursos sobre cursos de Português nalgumas das mais prestigiadas universidades do mundo, ter disponível um corpo da literatura portuguesa em livro, incentivar a criatividade em português ou de portugueses e promover a língua pela qualidade dos seus falantes e das suas obras. Tenho dificuldade em conceber que quem escreve aspeto – o quê? – em vez de aspecto, em português de Portugal, o possa fazer.

Tenham vergonha


por NUNO SARAIVA (DN)

Portugal, teima em dizer-se, é um país de brandos costumes. Tolerante, liberto de preconceitos, evoluído, civilizado. Enfim, moderno.

Abertos, porém, os olhos, verificamos que não é bem assim. À laia de exemplo, veja-se o que um militante do CDS, Nuno Lobo, em pleno século XXI, defendeu em texto de moção apresentada ao congresso do partido há uma semana: "As realidades familiares naturais são compostas por um homem e uma mulher e orientadas para o nascimento e a boa educação dos filhos. O bem comum é prejudicado pela existência de famílias não convencionais." E, não satisfeito, acrescentou: "Os filhos são a finalidade do casamento que deve ser orientado por normas de estabilidade, permanência e fidelidade conjugal. Assim, é possível formar-se pessoas decentes, cumpridoras das leis e das normas sociais."

Em coerência com esta visão troglodita, aberrante e passadista, em que a base do casamento é a procriação e não o amor ou os afetos, talvez fosse legítimo concluirmos que, por exemplo, todos aqueles que cometem a indecência de cortar pensões e salários não passam de um "bando de maricas". Que quem foge aos impostos apresenta orçamentos que vão contra a Constituição, propõe referendos que não são cumpridores da lei - como é o caso daquele que ontem foi aprovado - ou comete outro tipo de ilegalidades, ou faz porque ou é "bicha" ou foi formado num contexto de "família não convencional", portanto, homossexual. Como é óbvio, nada disto é verdade. Mas desenganem--se todos aqueles que acham que o senhor Lobo está sozinho. Há por aí muito tacanho à solta que ainda vê o mundo a preto e branco.

Fosse esta a cartilha aceite e lá teria alguém de inventar também uma brigada de costumes que se encarregaria de, em casa de uma família monoparental - fosse por viuvez, separação ou apenas porque sim -, pespegar um homem ou uma mulher. E, para respeitar o figurino do senhor Lobo, impusesse pela força aquilo a que Natália Correia chamaria o "truca-truca procriativo".

Aberração é, em pleno ano da graça de 2014, haver ainda quem assim pense. Aberração foi aquilo que ontem se passou na Assembleia da República. Um grupo de deputados do PSD, a meio de um processo legislativo próprio de uma democracia representativa como é a nossa, decidiu torpedear e brincar com as expectativas criadas em inúmeras famílias, inviabilizando a possibilidade de o Parlamento legislar sobre a coadoção de crianças por casais de pessoas do mesmo sexo, aprovada em maio na generalidade.

Além do enorme desrespeito pela instituição parlamentar que isto significa - com precedente aberto em 1998 pelo então primeiro-ministro socialista, António Guterres, quando impôs um referendo sobre a despenalização do aborto, aprovada um ano antes pela Assembleia -, esta lamentável decisão é também uma colossal falta de respeito pelas pessoas. Sim, ao contrário do que pensam os senhores Lobos que por aí uivam, os homossexuais são pessoas como eles. São decentes, cumpridores das leis e das normas sociais. E, no limite, também pelos eleitores que, como mostra a estatística histórica, pouco ligam aos referendos porque agradecem, como é próprio das democracias representativas, que os eleitos decidam por eles.

Mas é também uma gigantesca falta de respeito pelas crianças, que os fundamentalistas não hesitam em utilizar despudoradamente como argumento. É assustadora a quantidade de idiotas que enchem a boca para falar no "superior interesse das crianças". São os mesmos que preferem mantê-las em camaratas de uma qualquer instituição, por mais respeitável que seja, a conceder-lhes o direito universal e inalienável de dispor de uma família, a menos que seja a dita convencional, que as ame, que as eduque, que as proteja. Enfim, que as forme. Ignorando esta gente que isto já acontece. Que existem famílias compostas por dois pais ou duas mães e respetivos filhos, a quem o Estado, ao não as reconhecer juridicamente, está a expor à maior crueldade que se pode infligir a uma criança: a falta de segurança nos afetos.


Os afetos, tal como a consciência, não são referendáveis. Por isso, como diria o Papa Francisco, tenham vergonha!

Ler aqui.

ATTAC: con OSCAR CARPINTERO en PALENCIA


El próximo jueves día 6 de febrero a las 19 horas tenemos la suerte de tener con nosotros a OSCAR CARPINTERO, en el salón de actos de laBiblioteca Pública de Palencia (C/ Eduardo Dato). Nos hablará sobre el tema "Pensar en la transición de sistema económico: ideas e instrumentos"

Oscar Carpintero es Doctor en Economía y Licenciado en Ciencias Económicas y Empresariales. Es profesor de Economía Aplicada de la Universidad de Valladolid y Postgraduado en Economía de los Recursos Naturales y del Medio Ambiente por la Universidad de Alcalá.

Durante los últimos años ha escrito más de una treintena de trabajos sobre economía ecológica, sostenibilidad ambiental de la economía española, o comercio y medio ambiente.


15 de janeiro de 2014

35 anos…


1 casamento
1 salto de paraquedas
2 filhas
2 funerais de familiares directos
2 depressões
2 acidentes de automóvel
2 oceanos
2 continentes
2 desertos
2 grutas profundas exploradas
2 trabalhos a tempo parcial
2 mergulhos com golfinhos
2 dunas gigantes subidas
2 eleições como candidato perdidas
3 operações
3 tratamentos de fisioterapia
3 entrevistas nas televisões
3 entrevistas nas rádios
3 títulos universitários

3 anos com palmilhas ortopédicas
4 países como residente
4 mergulhos com garrafas
4 motas conduzidas
4 finais europeias perdidas pelo Benfica choradas
4 grandes desilusões amorosas
4 cicatrizes com pontos
4 anos com botas ortopédicas

5 artigos publicados em jornais
5 passaportes
5 entrevistas nos jornais
5 idiomas aprendidos (uns melhor que outros)
5 trabalhos durante férias/fins-de-semana
6 meses de aulas de guitarra (sem resultados)
6 meses de aulas de alemão (sem resultados)
6 rios parcialmente descidos em canoa/kayak/rafting
7 trabalhos a tempo inteiro
7 contas bancárias abertas
7 domos de catedrais visitados

7 parques/reservas naturais visitados em África
8 poemas publicados numa antologia
8 ilhas visitadas
9 montanhas percorridas
9 títulos de campeão nacional do Benfica celebrados
9 contas de e-mail abertas

9 números de telemóvel
10 anos acumulados a trabalhar
10 cidades como residente
12 meses com aparelho nos dentes

13 meses acumulados de tratamentos capilares sem sucesso
15 amizades perdidas
16 carros conduzidos

20 anos acumulados a estudar
21 amores passageiros
23 casas como morador
26 países visitados
27 noites dormidas em autocarros/comboios/aviões

33 letras formam o meu nome
33 é a soma dos algarismos da minha data de nascimento
33 é a soma dos algarismos do meu BI
33 é a soma dos algarismos do meu NIF
35 anos menos por viver
40 aeroportos/aeródromos utilizados
50 amigos/as para toda a vida (em actualização)
70 concertos assistidos aproximadamente
80 exposições/museus visitados aproximadamente
90 noites dormidas em tendas aproximadamente
280 CDs acumulados aproximadamente
400 livros lidos aproximadamente
5475 cafés tomados aproximadamente
7300 horas de sofá e de dolce far niente aproximadamente
360.000 cabelos menos aproximadamente

1 livro por escrever e dedicar às minhas filhas
1 árvore por plantar com as minhas filhas
10 viagens de sonho por realizar (em actualização)
500 vinhos por provar (em actualização)
780 pizzas por fazer com as minhas filhas (em actualização)
19.710 horas por brincar com as minhas filhas (em actualização)
1.000.000 de beijos por dar e receber das minhas filhas, mulher, familiares e amigos/as...

8 de janeiro de 2014

Semillas de guerra




Solo seis empresas controlan un mercado donde hay mucho en juego


MIGUEL ÁNGEL GARCÍA VEGA
Madrid 5 ENE 2014


Quien controle las semillas controlará el mayor mercado del mundo: el de
los alimentos. Este axioma es tan cierto que ha calado como el orvallo en
el sector agrícola. Y esa lluvia ha creado dos torrenteras que se miran
con la desconfianza de viejos púgiles. De un lado, los productores de
semillas comerciales -que incluyen las simientes convencionales y las
controvertidas transgénicas-, y de otro, aquellos agricultores que plantan
y defienden las variedades autóctonas. Pero la pelea se complica, pues las
semillas tradicionales también buscan su espacio frente a las
transgénicas. ¿Todos contra todos?

Eso parece, ya que la importancia de los números de esta industria va más
allá de simples cifras anotadas en un balance. "Hablar de semillas no es
un debate agrario reducido a técnicos que buscan soluciones en
reglamentos; no es un arma geopolítica que se quiere controlar desde los
despachos financieros; es hablar de nuestra propia existencia, porque en
la libertad de las semillas germina la libertad de las comunidades",
desgrana Gustavo Duch, coordinador de la revista Soberanía alimentaria.

Esta es la posición de partida de una industria que crece con una fuerza
inaudita si la comparamos con otros sectores. Sostiene la consultora
Transparency Market Resarch que el mercado de semillas comerciales moverá
en 2018 unos 53.320 millones de dólares (38.750 millones de euros). Hoy en
día supera los 35.000 millones de dólares. O sea, el negocio de las
simientes crece a tasas cercanas a los dos dígitos al año. Incluso, las
genéticamente modificadas. De hecho, su mercado pasará de 15.600 millones
de dólares en 2011 a 30.210 millones durante 2018. ¿Cómo entenderlo?
¿Arraigan los transgénicos, a pesar de la contestación social que generan?

El ejercicio 2012 fue récord para la industria de los cultivos
genéticamente modificados. Más de 17,3 millones de agricultores, en 28
países, cultivaron 170,3 millones de hectáreas. Cien veces más superficie
que durante 1996. "Esto convierte a los campos biotecnológicos en la
tecnología de cultivo de más rápida adopción en la historia reciente",
relata Carlos Vicente Alberto, director de Sostenibilidad en Europa de
Monsanto.

La organización no gubernamental ETC Group denuncia que las seis grandes
(Syngenta, Bayer, Basf, Dow, Monsanto y DuPont) manejan el 59,8% del
mercado de las semillas del mundo y el 76,1% de agroquímicos. "Es un
oligopolio", enfatiza, desde México, Silvia Ribeiro, directora en América
Latina de la ONG. "Hace 30 años ninguna empresa semillera controlaba más
del 1% de todas las simientes comerciales que se vendían en el planeta.
Ahora tener un control tan elevado de las semillas resulta muy
preocupante, porque son la llave de la cadena alimentaria", dice Ribeiro.

Y esa es una pelea que afecta a todos los países, sobre todo a los que
tienen muchas bocas que alimentar. En diciembre pasado, científicos
agrícolas de origen chino fueron detenidos en un centro de biotecnología
de Arkansas (EE UU) acusados de haber tratado de sacar semillas de las
instalaciones para entregárselas a una delegación china de visita por el
país. Inquieta una historia que mezcla espionaje industrial y seguridad
alimentaria, pero también evidencia que las simientes son materiales cada
vez más valiosos y caros.

ETC Group calcula que aprobar una variedad genéticamente modificada exige
una inversión de 136 millones de dólares. Algo que solo se halla al
alcance de unos pocos. En 2007, las seis grandes invirtieron nueve veces
más en I+D en cosechas y cultivos que el Departamento de Agricultura
estadounidense. De ahí que sean tan celosas con sus patentes (provocando
un aluvión de denuncias contra los agricultores que las infringen). Lo
que, sin embargo, nos les impide firmar cada vez más acuerdos de licencias
cruzadas entre ellas. Entonces, ¿en manos de quiénes reposa el futuro de
nuestra alimentación? "Bayer, Monsanto, DuPont, Dow y Basf, y sus
inversionistas financieros, son como orcos y trasgos tras un anillo.
Desean controlar la alimentación de la Tierra", explica Duch.

El problema es que, cada vez más, los cultivadores utilizan la radiación y
los genes químicamente alterados para mutar semillas y plantas e
introducir mayor variabilidad genética. La mutagénesis la emplean, entre
otros, Basf o Dupont con el fin de desarrollar cultivos destinados a
mercados que rechazan la ingeniería genética. "Es la manera, por ejemplo,
en la que se crean limones o uvas sin pepitas", analiza Antonio
Villarroel, secretario general de la Asociación Nacional de Obtentores
Vegetales (Anove). Además, suma dos ventajas frente a la ingeniería
genética. Es más barata y pocos dudan de sus bondades. "El uso de luz
ultravioleta, rayos X y procesos químicos se ha venido aplicando de manera
segura durante décadas", señala un portavoz de Basf, quien recuerda que el
primer cultivo comercial (la planta del tabaco) bajo esta luz data de
1934.

Aunque suene a contrasentido, la industria de las semillas es una de las
que incorporan más tecnología a sus productos. Las empresas españolas
destinan el 20% de la facturación a I+D. Hablamos de un porcentaje muy
alto para un sector que mueve 500 millones de euros en España. Y con un
efecto maltusiano. Un informe de 2010 referido al Reino Unido revela que
por cada libra invertida en esta industria se genera un retorno de 40. Y
eso en un país con un peso agrario inferior al español. Aquí, las cuentas,
y la competencia, son mayores. Por eso, "a veces, la coexistencia entre
productores de semillas españoles y las grandes multinacionales no resulta
fácil, ya que chocan en la visión de la propiedad intelectual de las
simientes", según Villarroel.

Quizá sea una buena forma de recordarnos que la alimentación en el mundo
es la historia de una pérdida. En el comienzo de nuestra civilización
había unas 10.000 especies, pero hoy se cultivan solo entre 150 y 200. En
la India, a principios del siglo XX, se catalogaban 30.000 variedades,
ahora, en el 75% del país se plantan únicamente 12. ¿Y en España? En los
años setenta encontrábamos 350 tipos de melones distintos, y ahora apenas
hay diez.

José Esquinas, ex alto cargo en la Organización de las Naciones Unidas
para la Alimentación (FAO, por sus siglas en inglés), cree que detrás de
esta merma se ocultan, en parte, los grandes productores de semillas, los
cuales "han entendido que la forma más fácil de controlar el mercado es
estandarizarlo y uniformizarlo". "La estrategia", incide Henk Hobbelink,
coordinador de la ONG Grain, "es manejar pocas variedades e implantarlas
de forma masiva". Tanto es así, que los cultivos transgénicos se
concentran en 12 especies, mientras que las redes campesinas han cultivado
miles. "El siglo XXI será el de la diversidad, o no veremos acabar el
siglo", advierte Esquinas. "¿Cómo vas a afrontar un problema como el del
cambio climático con variedades uniformes?", pregunta.

Esta pregunta ha llegado hasta Tierra de Campos (Palencia). Una comarca de
clima extremo en la que Jerónimo Aguado tiene plantadas ocho hectáreas de
cereales. Su "agricultura", cuenta, "es del recuerdo". Recuperar las
semillas de sus padres y abuelos. La cebada caballar o el trigo candeal.
Esas son las especies con las que trabaja este agricultor. Antes había
cien variedades autóctonas, ahora han dejado de plantarse bajo la
polvareda de las simientes que imponen las multinacionales. "Te venden
semillas homogéneas. ¡Cómo si fuera lo mismo plantar aquí o en la rivera
del Guadalquivir!", zanja Aguado.