30 de janeiro de 2014

A urgência da Literatura...


Literatura e Ensino

Ao abordar o Ensino da Literatura, temos de enquadrar a sua inserção sociológica: 1º Determinar se é útil, necessário ou dispensável esse ensino; 2º Como se deve proceder para o efectivar: deverá ser programático, curricular, disciplinar, sócio-cultural, tudo isso –  ou privilegiar-se-ão alguns desses veios?; 3º Como se ensina Literatura, entre o ensinar a ler e o ensinar a redigir? – partindo do princípio que se aceita a metalepse: ensinar Literatura não é ensinar a escrever Literatura, é ensinar a ler, criticamente e esteticamente, o tipo de textos que se apresentam com essa designação.

Temos também de reparar na sua inserção política, pois que se invocam certos lugares-comuns quando são propostas novas metodologias para o ensino: que é preciso submetê-las a debates, ouvir os professores,  correlacionar categorias de docentes, etc. O que decerto importa em democracia, mas, se funcionar como ‘efeito de assembleia’, em termos de rejeição/aprovação, leva a correr o risco de substituir as competências convocadas  (se o são!) pela decisão arbitral que, sem procedimento de colegialidade, pode desconjuntar as propostas e anular o seu sentido.

Verifica-se também que as circunstâncias em que o Ensino da Literatura se insere são diferenciadas segundo as as épocas. Nos últimos 40 anos elas têm divergido de acordo com regimes políticos, sendo que, em relação ao s. XX (quando a Literatura emerge como disciplina curricular, e a sua designação inicial como História da Literatura decorre da prevalência do historicismo então corrente), a sua efectivação antes da Revolução de Abril foi quase massivamente reconhecida como sendo de proscrever. Contudo, é bizarro que, no Pós-Abril, não seja  tanto o facto de existirem erros ou linhas defeituosas nos Programas e metodologias que leva a maioria dos cidadãos concernentes a tomarem posição sobre eles, mas principalmente o facto de esses Programas ou Orientações serem emitidos por entidades tuteladas por Governos que não são da preferência de quem se manifesta! Isto é: medidas oriundas de um Governo ao qual eu não sou ideologicamente afecta, e no qual portanto não votei nem tenciono vir a votar, espera-se de mim que eu seja contra essa medida (mesmo que ela seja correcta!), para que eu não esteja a apoiar o Governo, e contribua até para que ele venha a cair. Assim se tem procedido, dizendo e apoiando o que convém partidariamente, e calando o que não convém, mesmo que isso desfavoreça o ensino e prejudique gerações de cidadãos. Tal atitude releva de uma concepção serventuária da Política, e prejudica o cidadão e o país.

Não se estranhe pois que, agora que a Literatura está a reentrar nos programas de modo nobre, se oiça ou leia afirmações de que, por ex., não será porque os alunos se vão especializar em Camilo ou em Saramago (enfim, em Saramago já supostamente o eram) que irão no futuro ensinar melhor a ler! Ora o que aqui se está de facto a dizer é que ensinar Literatura é indiferente, e se quem o diz é inteligente, e portanto alcança a enormidade do que diz, então o que na realidade diz é «fora com este Ministro» e «fora com este Governo»! E provavelmente concordamos!. Mas é eticamente reprovável, e científicamente errado, dizer «fora com o Programa porque é mau!», se o programa for bom! É uma pena não ter sido outro Governo a fazêr-lo… Mas não foi.

Com isto quero dizer que a Literatura, sendo uma forma ideológica, ao ser introduzida nos programas de modo abrangente e qualitativo (e por isso com representatividade estética nos programas, e não em completude – que é inalcançável!), não vem ideologizar parcialmente autores ou leitores, antes abre a potencialidade da reflexão ideológica sem proceder a escolhas da sua avaliação, o que seria «dirigismo». A opinião «política» não é uma opinião «educativa»: ambas se interpenetram, mas não são forçosamente coincidentes! Um correcto ensino da Literatura sugere isso mesmo.

E um dos efeitos positivos que o Ensino da Literatura pode ter é o de levar os cidadãos a não serem sectários, a verem o que é positivo onde de facto está, e, em vez de aprovarem o que os partidos lhes dizem que é bom porque eles, partidos, acham que assim é, os cidadãos com aprendizagem correcta dirão eles-próprios aos seus partidos o que de facto está bem ou não, em matéria que não é deles, partidos, é deles, cidadãos!

É a isto que se chega quando se lê Camilo em A Queda dum Anjo e se vê Calisto Elói a actuar no Parlamento como num circo (será por isso que o PNL não aprova certos livros de Camilo Castelo Branco?), ou quando se assiste em Saramago, no Ensaio sobre a Lucidez, à sugestão da eficácia do voto em branco. Não será conveniente para certas formações partidárias, mas isso também Salazar achava, porque decretou, não o voto facultativo, mas o voto obrigatório.

Quanto às características epocais do ensino, lembre-se ainda que o salazarismo apresentava manuais imutáveis de selecção de textos obediente à expansão da Fé e do Império e à glorificação do Governante, nos quais, porém, a qualidade literária em pelo menos 50% desses textos fazia jus a génios do passado: em 5 anos do Secundário tinha de ler-se Camões, Gil Vicente, Júlio Dinis, partes de Vieira, Bernardes, Camilo e Eça, havendo até um livro de leitura integral obrigatória em cada um dos 3 últimos anos. Mas ignorava-se o s. XX. E recorde-se que no pós-Abril as opções políticas também imperavam: Mário Dionísio, então responsável por alterações aos programas, acabou por se demitir ao notar a existência de compromissos dúbios que o desgostaram, cf. Autobiografia. Quer dizer que espíritos sérios chegam a ver-se «em maus lençóis» (às vezes, achincalhadas, até  ameaçados!) se tentam mudar certas situações institucionais, as quais,  mesmo em épocas clarividentes, se mantêm inalteráveis, ou por sectarismo político, ou por inconfessáveis interesses empresariais.

Isto significa que a Literatura, além se ser ideológica, sofre a acção político-económica. E a acção comercial, que domina a própria política. Ora o ensino, devendo sobrepôr-se a TODAS as divisões de ideias, não pode pactuar com essa dominação:  mau grado ser de natureza ideológica, o seu funcionamento correcto tem de agir supra-ideologicamente (por isso não é fácil ensinar… nem é fácil viver, no mundo de hoje!). Mas é mister separar as convicções pessoais dos parâmetros de exercício da profissão. No processo pedagógico, a tomada de posição é inevitável e benéfica, se se aliar à lisura de procedimentos, não aceitando a conivência de interesses, como as que se detectam em torno de Programas de Ensino e Manuais Escolares, interesses esses que ficam na sombra e o público desconhece.

Que há então com a Literatura, genericamente apetecida (veja-se a quantidade de livros de criação que regularmente se publicam) mas pedagógica, editorialmente, e politicamente maltratada? E como é que autores talentosos mostram defeitos graves de redacção, construção da frase, até erros de ortografia? Bem, que a ortografia, hoje, não interessa. Vem um revisor, e emenda! Em muitos casos, emenda mal… Mas… para que se há-de ralar um aspirante a escritor, se há correctores ortográficos? Se a máquina substitui o pensamento? Ou antes: se a máquina OBRIGA o pensamento? Hall, o computador de “2001, Odisseia no Espaço”, que nos dava pesadelos só de pensarmos que um dia poderia ser assim, não supunha afinal que iria ter descendentes tão pouco à sua altura.

Que há, pois, com a Literatura, por um lado tão secundarizada que dir-se-ia não merecer vigorar no Ensino, e por outro lado tão ‘acautelada’ que até parece constituir… uma ameaça?

O que há é que a Literatura consiste no uso estético da Linguagem, daí resultando pelo menos 2 consequências:

1ª - a de se tornar um aparelho de sedução, com ideias poéticas que  são simultaneamente críticas, sendo por isso factor de desenvolvimento e actuação intelectual, tomando consciência dos valores do mundo em que o leitor se insere: o aluno, futuro adulto, cidadão do amanhã. Ela não combina com interesses dos aparelhos que  consentem oposições ‘intra-muros’ mas as ejectam, se elas põem em questão o próprio aparelho;  

2ª - a de permitir à criança (ao adolescente, ao leitor), de modo insensivel (portanto também ideológico), tornar-se progressivamente um cidadão lúcido, na medida em que se vai munindo de materiais de raciocínio colados à sensibilidade, e por isso mais actuantes, em sectores  humanos e cívicos decisivos.
Ora esses sectores que a Literatura condiciona são os seguintes:

1. A educação estética, que permite, a quem aprende, entender que a Literatura é uma arte e não um mero amontoado de palavras, e por isso difícil, mas estando ao alcance de qualquer um através da tentativa própria – contradição que se anula pela conceptualidade da noção de «prática»;

2. A educação linguística, que familiariza o aluno com os usos da palavra e sua organização na composição do pensamento, sob formas de comunicação que se ligam ao usual quotidiano mas a ele não pertencem, pois induz a concepção dos ‘mundos possíveis’ que a Literatura confabula numa generalizada experiência do mundo e da vida, tanto quanto dos mundos transactos, da História, ou de mundos de suporte criativo original;

3. a educação cívica, política e, em especial, ética e filosófica (e estas últimas podem subsumir a cívica e a política), educação esta que se processa na leitura por efeito mimético de cenas, discursos, práticas, actuações, e até pela sua contra-mimese (em registos do fantasioso: fantástico, feérico,  sobrenatural, supra-mundano, e todos aos quais se alce a imaginação), criando uma experiência de diálogo com o texto e no texto, susceptível de desenvolver a vida em consciência e em convívio, com as suas componentes participativa, crítica e pragmática;
4) a educação retórica, que habilita o aluno (e todo o leitor) a desconstruir os mais variados discursos, nos mais diversos sectores, e lhe permitirá resistir ao uso e abuso que da retórica mundanamente se faz, usualmente em seu prejuízo (em prejuízo dos futuros cidadãos e da orgânica social no seu todo);

5) a educação do raciocínio, do qual, com a Matemática e a  Filosofia, a Literatura lança bases, fazendo de todo o profissional, não um mero ‘executante’, mas um fautor de sucessos, desde o simples passo em equipa ao salto de juízo próprio, consciente do papel da sua integração nas mais vastas comunidades, e consistente em resultados. Isto, a partir da sintaxe interiorizada e do uso de frases logicamente vertebradas, que incorporam segmentos narrativos, da sua própria e singular existência até à ficção, ou vice-versa, criando uma imagística particular que é coadjuvante da forma  mental de estar no mundo: porque poetizar é «pensar com uma imaginação ordenada», não é usar palavras ao acaso – e ele-próprio, acaso, quando usado em Literatura, conhece leis;

e 6)  a educação  histórica, pela observação dos vários tempos e épocas que os livros que se lhe facultam proporcionarão, e que, aliada ao estudo de Línguas Clássicas (o Latim, ao menos, é essencial), dá ao aluno a sua consciência reflectida de ser humano no mundo estratificado em  tempo e não apenas em espaço, o qual espaço se lhe apresenta tendencialmente uno, pese embora a diversidade, até no campo das linguagens; esse é outro tipo de educação, a espacial-geográfica, ainda integrável em Literatura.

Enunciados estes 6 sectores, dos quais o Ensino da Literatura promove a configuração, acrescento que há 3 componentes centrais na constituição da sociedade justa: Saúde, Educação e Ambiente –  as únicas  que NUNCA é possível secundarizar em política, sob pena de a própria noção de política se abastardar, e que mantêm o ser humano em equilíbio consigo mesmo, com os seus semelhantes e com o universo. Se forem asseguradas como necessidades prioritárias, as restantes, que actualmente absorvem atenções e despesa, verão a sua necessidade assaz diminuída. E não é uma questão de meios, mas de prioridades! De entre elas, a que agora nos ocupa, a Educação, tem como trave mestra a ‘Linguagem Em Acção’ (que é uma espécie de vertente pragmática do dizer e do escrever), a qual se encontra figurada nos ‘mundos possíveis’ que a Literatura encena, em especial no romance, teatro, poesia e ensaio. Encontra-se ainda, essa Linguagem Que Age, na interlocução (mental, imagética ou relacional) que o aluno estabelece com a própria Literatura: a qual lhe surge como apelativa, superior, inalcançável, mas lhe traça afinal os intimismos do ser corrente, trivialidades do sucesso costumeiro, tanto como a excepcionalidade heróica e o poder da divindade. Fixando-se nela, o aluno, futuro cidadão, pode constituir a sua ponte comunicativa com os outros e o mundo, e com o Ideal do Eu.

Então, o que é que impede que a Literatura seja o que é: um factor excepcional de Educação? O lugar escasso nos curricula, a concepção desinformada de um papel tido como decorativo, numa sociedade que, mercê da deseducação e da ganância, vive (até nos melhores casos…) para armazenar proventos e proceder a efeitos de visualização: os chamados interesses económicos e mediáticos.

Ora o que fazem os professores por isto, ou contra isto? Quando não querem introduzir-se, também eles (muitos querem!, alguns estão lá!), nos tais «interesses», de que necessitam eles para pôr em prática isto, que é simples: ler textos e comentar com correcção aspectos do seu significado  literário? De que precisam os professores para leccionar adequadamente? Precisam só de 4 coisas:

A. Antes de mais, os professores precisam de ser professores, com um lugar para ensinar e tendo compertência lectiva. E nem todos o podem fazer, devido a sucessivos desgovernos e deficiente formação; e porque a Universidade tem atravessado uma das suas maiores crises, ligada às falhas de financiamento e a outros factores até hoje incontroláveis – e as ESEs, de vocação mal interpretada, surgiram a substituir o papel das Humanidades, em prol de um tecnicismo que não sabe lidar com a Pedagogia.

Sofre assim o ensino de um didactismo despersonalizado (não distingue entre Pedagogia e Didáctica), pelo fito de concorrer com tecnologias de ponta (em vez de as entender como complementares!), sujeitando o indivíduo à massificação e agindo com erros crassos, ex. «dobrar» a palavra falada ou lida por visualizações de «power point» (o que seria patético se não fosse ridículo!), acto que é o emblema ignaro da comunicação falhada. Porque a acção da palavra (dita, ouvida ou escrita-lida) é a comunicação em significação pura mas directa (ao mesmo tempo simbólica e precisa), e o digitalismo, a formatação, o «dictat» mediático nela vêem (e com razão!) o inimigo nº 1, a originalidade que descarta a sua cópia, e daí o quererem secundarizã-la.

B. Os professores precisam de saber que ensinar Literatura (isto é, a Língua numa das suas acções fulcrais) é um acto pedagógico, o didactismo só lhe estabelece nexos. E, quando  os professores conseguem ser professores, aquilo de que mais precisam é de saber o que é uma aula, como a devem dar, como proceder para manter o seu espaço-aula em forma produtiva, agradável, disciplinada e eficaz.

Há meio-século, dizia-se que os professores tinham vida regalada: aulas ou de manhã ou de tarde, umas reuniões, direcções disto ou daquilo, e pronto. Mas nos estágios, a que, como aluna de estagiários, eu assistia, e dos quais muito aproveitei, percebi que a relação professor-aluno se baseia  na grande exigência de pensar o modo como se dá uma aula: com empenho e cálculo quanto ao modo de se transmitir a matéria, que NUNCA pode ser igual ao que vem nos livros – para isso é que se é professor: para explicar MELHOR, e de várias maneiras, o que os livros contêm. De modo que os bons alunos nem liam tais livros: só as selectas de textos e os apontamentos das aulas, alguma bibliografia, e muitas leituras livres!

Ora para configurar as aulas, os professores precisam de  Programas que lhes permitam ensinar bem. Ensinar Português na sua relação com a enunciação imaginada que é a Literatura. Em vez de arrazoados de matéria lateral e tecnicista, em linguagem confusa e aberrante, hoje podem ter, ao menos, articulados decentes na programação, equilíbrio Linguística/ Literatura, Listas de Leituras onde se efectuam escolhas, proporcionando textos adequados ao que disse atrás. E que tornem os alunos aptos para a vida, com uma cultura de consciência.

         C. Os professores precisam de Livros, obras de apoio, e não necessariamente de tipo ‘escolar’, que fazem da Literatura uma «instrumentação», e ela é o contrário disso. Não falo, pois, de Manuais, que são uma espécie de edições adulteradas da Bíblia (do Livro!), os Manuais são «vademecum»s onde se supõe que os meninos têm «o que é preciso» para saber o essencial da matéria, e os professores têm também «guias» para as suas lições. «GUIAS??!!!» Os professores, que, por definição, são «os que sabem», precisam de guias em que os autores são colegas orientados por editores??? Eu pensava que os editores é que precisavam de ser guiados por quem sabe ensinar… Um manual serve para fazer carpintaria, enfim, tudo o que se faz «com a mão», não é para «estar à mão»… que, neste caso, nem será ‘à mão de semear’, pois nada há neles que se semeie, e por isso a seara é sáfara. Olha, olha… um Manual para colocar a Literatura «à mão» dos professores, tinha graça!!! E os modelos de aulas?? HÁ PROFESSORES QUE SEGUEM MODELOS DE AULAS FEITOS POR OUTREM??? Aceitam ser formatados, e, em consequência, formatar os alunos??? São todos resultado de um acto de carimbar??? Porque, se é assim, então não são professores… É necessário, sim, na parte do Português prático, ensinar a fazer um relatório, um memorandum, uma petição, uma memória descritiva… Distinguir entre uma narração e uma descrição, mas não é o Manuel que ensina, é o Professor e a própria Literatura em si, em exemplos a analisar – e a análise de texto, não se esqueça, é o coração do ensino da Literatura! Sem ela, haverá muitos estudos sobre Literatura, mas não há estudos DE Literatura.

É para aí que tem de apontar o Professor, de modo a suscitar no Sujeito do conhecimento na relação pedagógica (que é o aluno!) as ideias latentes para a apreensão da realidade, através da comunicação de modos de apreensão do texto literário, na linguagem e pela linguagem. Essa é a actividade do Professor na aula de Português, com a Literatura, agindo com originalidade  (com estilo!), competência, inventiva e senso.
Podemos até prescindir dos Manuais, não são precisos para nada! Os editores são necessários em outros tipos de obras: Textos Seleccionados de escritores do Programa, boas Gramáticas escritas em Português de Lei (e não «da» Lei…), edições cuidadas de obras sugeridas para as leituras do programa – edições ‘cuidadas’ significa: preparadas segundo critérios pedagógicos, que vão do rigor intelectual e crítico à concepção física do livro: em material leve e resistente, com boa mancha tipográfica, de custos acessíveis! Nada de peso, de carestia, de elocubrações gráficas de estética duvidosa.

TERMINO: de que mais precisam os professores para o serem?  
D. Os professores precisam de Tempo! - condição para que o Professor ensine bem: o tempo! O professor precisa de ter tempo para preparar a aplicação do Programa à sua Turma, de tempo para preparar as aulas, de tempo para se actualizar. De ter tempo para pensar! Uma profissão que requer muita leitura, reflexão sobre ela, ideação de modelos originais de aulas, adaptação de problemas lectivos a casos discentes especiais, não se compadece com o dia de profissionais que o passam inteiro na Escola. A mente brilhante que entendeu que o professor devia estar na Escola a tempo inteiro, como os demais funcionários públicos, terá sido acometida por um ataque de estultícia!  Dos outros professores, não sei – mas um professor de Letras, de qualquer disciplina e nível, NÃO É um funcionário do Ensino, é um funcionário público dedicado a uma «causa» específica: a de, no sector social central que é a Educação,  preparar mentalmente  o futuro cidadão para o manejo da Língua, para as representações do mundo circundante, através da correcta utilização da Linguagem Quotidiana e Literária, da Linguagem Que Age – e isso implica trabalho de preparação que ocupa muito tempo, em casa, e só na Escola se esta puder oferecer gabinetes, bibliotecas adequadas e um sossego propício à reflexão. Tem sido este o caso? Se não, e sendo esta questão crucial, pergunto: como exigir aproveitamento visível a alunos de professores que não podem estar aptos a leccionar?

         É preciso pensar em tudo isto quando se regulamenta o ensino. É preciso pensar em tudo isto quando queremos ensinar. É preciso pensar em tudo isto se não queremos a sociedade dominada pela ignorância e pela iniquidade – e agir em conformidade, custe o que custar. Repito: custe o que custar, em todas as acepções da palavra «custar», e eu sei o que me tem custado, moralmente e materialmente, a mim. Mas sou Professora…

Universidade de Lisboa, Centro de Estudos Comparatistas
11 de Janeiro de 2014


Maria Alzira Seixo