20 de janeiro de 2014

Tenham vergonha


por NUNO SARAIVA (DN)

Portugal, teima em dizer-se, é um país de brandos costumes. Tolerante, liberto de preconceitos, evoluído, civilizado. Enfim, moderno.

Abertos, porém, os olhos, verificamos que não é bem assim. À laia de exemplo, veja-se o que um militante do CDS, Nuno Lobo, em pleno século XXI, defendeu em texto de moção apresentada ao congresso do partido há uma semana: "As realidades familiares naturais são compostas por um homem e uma mulher e orientadas para o nascimento e a boa educação dos filhos. O bem comum é prejudicado pela existência de famílias não convencionais." E, não satisfeito, acrescentou: "Os filhos são a finalidade do casamento que deve ser orientado por normas de estabilidade, permanência e fidelidade conjugal. Assim, é possível formar-se pessoas decentes, cumpridoras das leis e das normas sociais."

Em coerência com esta visão troglodita, aberrante e passadista, em que a base do casamento é a procriação e não o amor ou os afetos, talvez fosse legítimo concluirmos que, por exemplo, todos aqueles que cometem a indecência de cortar pensões e salários não passam de um "bando de maricas". Que quem foge aos impostos apresenta orçamentos que vão contra a Constituição, propõe referendos que não são cumpridores da lei - como é o caso daquele que ontem foi aprovado - ou comete outro tipo de ilegalidades, ou faz porque ou é "bicha" ou foi formado num contexto de "família não convencional", portanto, homossexual. Como é óbvio, nada disto é verdade. Mas desenganem--se todos aqueles que acham que o senhor Lobo está sozinho. Há por aí muito tacanho à solta que ainda vê o mundo a preto e branco.

Fosse esta a cartilha aceite e lá teria alguém de inventar também uma brigada de costumes que se encarregaria de, em casa de uma família monoparental - fosse por viuvez, separação ou apenas porque sim -, pespegar um homem ou uma mulher. E, para respeitar o figurino do senhor Lobo, impusesse pela força aquilo a que Natália Correia chamaria o "truca-truca procriativo".

Aberração é, em pleno ano da graça de 2014, haver ainda quem assim pense. Aberração foi aquilo que ontem se passou na Assembleia da República. Um grupo de deputados do PSD, a meio de um processo legislativo próprio de uma democracia representativa como é a nossa, decidiu torpedear e brincar com as expectativas criadas em inúmeras famílias, inviabilizando a possibilidade de o Parlamento legislar sobre a coadoção de crianças por casais de pessoas do mesmo sexo, aprovada em maio na generalidade.

Além do enorme desrespeito pela instituição parlamentar que isto significa - com precedente aberto em 1998 pelo então primeiro-ministro socialista, António Guterres, quando impôs um referendo sobre a despenalização do aborto, aprovada um ano antes pela Assembleia -, esta lamentável decisão é também uma colossal falta de respeito pelas pessoas. Sim, ao contrário do que pensam os senhores Lobos que por aí uivam, os homossexuais são pessoas como eles. São decentes, cumpridores das leis e das normas sociais. E, no limite, também pelos eleitores que, como mostra a estatística histórica, pouco ligam aos referendos porque agradecem, como é próprio das democracias representativas, que os eleitos decidam por eles.

Mas é também uma gigantesca falta de respeito pelas crianças, que os fundamentalistas não hesitam em utilizar despudoradamente como argumento. É assustadora a quantidade de idiotas que enchem a boca para falar no "superior interesse das crianças". São os mesmos que preferem mantê-las em camaratas de uma qualquer instituição, por mais respeitável que seja, a conceder-lhes o direito universal e inalienável de dispor de uma família, a menos que seja a dita convencional, que as ame, que as eduque, que as proteja. Enfim, que as forme. Ignorando esta gente que isto já acontece. Que existem famílias compostas por dois pais ou duas mães e respetivos filhos, a quem o Estado, ao não as reconhecer juridicamente, está a expor à maior crueldade que se pode infligir a uma criança: a falta de segurança nos afetos.


Os afetos, tal como a consciência, não são referendáveis. Por isso, como diria o Papa Francisco, tenham vergonha!

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