12 de fevereiro de 2014

O caso Relvas e a tragédia do Meco


por José Baptista, baptis.jose@gmail.com
Contrariamente ao que o título pode sugerir, o foco de análise deste artigo não incide directamente sobre o ridículo processo jurídico/institucional de atribuição de uma licenciatura em "Ciência Política", a um político cujo sucesso profissional seguramente não assenta em bases científicas. Mas, também não é sobre a incomensurável dimensão da tragédia humana e familiar que, significou a morte por afogamento de seis jovens universitários, na noite de 15 de dezembro de 2013, no Meco.

O foco deste artigo é sobre alguns aspectos da luta pelo Poder em Portugal.

Segundo Adriano Moreira, "a luta pelo acesso a essa capacidade suprema, pela sua manutenção e seu uso, define todo o fenómeno central da política".

O justificado interesse mediático do caso Relvas, reside no facto do ministro Miguel Relvas ter obtido uma licenciatura em "Ciência Política", através de um processo de claro facilitismo académico, a roçar os limites do fraudulento.

Mas, visto na perspetiva da luta pelo Poder em Portugal, o principal elemento de análise política consiste em que, à data dos acontecimentos, o ministro Miguel Relvas detinha a tutela do processo de privatização de um dos canais da Radiotelevisão Portuguesa (RTP).

Para além do sólido interesse mediático, a eclosão do escândalo político da obtenção da licenciatura de Miguel Relvas visava seguramente a sua fragilização política na condução do polémico processo de privatização da RTP1, ou se necessário o seu afastamento do processo por meio da sua demissão, facto que a posterior sequência de acontecimentos políticos veio a confirmar.

Entre outras consequências, a entrada de um novo player no mercado televisivo português vai forçar a reorganização do sector televisivo português, gerando a ruptura do status quo na comunicação social em Portugal e, a necessidade de encontrar-se um novo equilíbrio na relação entre a actividade política e a comunicação social, o que torna obviamente o processo de privatização da RTP, um processo conflituoso.

A privatização de um dos canais da RTP significa muito mais do que a simples alienação de uma parte da propriedade de uma empresa de comunicação social pública ao sector privado, significa principalmente a alienação de uma parcela do poder em Portugal.

Relativamente ao acontecimento do Meco, o seu justificado forte mediatismo residiu inicialmente na enorme dimensão trágica do acontecimento ocorrido na noite de 15 de dezembro de 2013, ou seja, a morte conjunta e prematura por afogamento de seis jovens universitários, ao serem levados por uma onda em direção ao mar é, por si só, uma notícia de primeiríssima página.

Se ao facto anteriormente referido, for possível acrescentar acontecimentos misteriosos e potencialmente tenebrosos, como a morte dos jovens poder resultar de rituais de praxes universitárias despóticas de um qualquer "Dux", o interesse mediático dos acontecimentos, não só subsiste ao longo do tempo, como volta a crescer sempre que surjam novos elementos para o seu desejado esclarecimento, ou um intencional obscurecimento.

No entanto, visto na perspetiva da luta pelo poder, o principal elemento político a reter é claramente, o recrudescimento da intensidade de um conflito latente entre duas universidades portuguesas privadas (Lusófona/Lusíada) que, o efeito mediático do trágico acontecimento do Meco proporcionou.

Um conflito centrado em interesses políticos e financeiros divergentes e cujos protagonistas são os grupos políticos que nelas se encontram instalados.

A diminuição da população universitária, associada a uma diminuição do financiamento à investigação feita nas universidades, no contexto de uma diminuição geral dos recursos financeiros disponíveis, veio seguramente contribuir para o agravamento e intensificação do conflito existente no sector do ensino privado universitário.