24 de agosto de 2016

Convite de um emigrante marinhense ao Sr. Presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande


Por Vasco Coelho*


Fonte: aqui


O concelho da Marinha Grande tem uma área de 18724,45 hectares, pertencendo 13576,92 à freguesia da Marinha Grande, 4300,9 à de Vieira de Leiria e 846,63 à freguesia da Moita.” 

in portal web do Município da Marinha Grande


Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande,

Faço-lhe uma primeira confissão, ando há 16 anos para lhe escrever sobre o assunto que aqui me traz. Não a si pessoalmente, mas à pessoa que exerce as funções de maior responsabilidade no município de onde sou – orgulhosamente – natural.

Segunda confissão, vivo há quase 11 anos fora deste mesmo concelho, aliás fora do país, tal como tantos outros que conheço, só para falar dos da minha geração; mas nem assim me sinto menos marinhense, nem por uma fracção de segundo. Não há dia que não pense na minha terra, na minha casa; casa esta que, ao que julgo saber, se situa ainda na área do concelho da Marinha Grande. Já lhe explicarei o porquê da dúvida...

Perguntar-me-á depois de ler este mail, 16 anos para lhe escrever algo tão trivial e logo a si que ocupa o cargo há tão pouco tempo? Por um lado, talvez, por um certo “optimismo antropológico” que partilho com grande parte dos que nos designamos “ocidentais”; o mesmo optimismo que leva tantos de nós a acreditar que o futuro há-de ser sempre sinónimo de progresso, de desenvolvimento, obviamente humano e sustentável. O mesmo optimismo (para não chamar-lhe ingenuidade) que me leva a trabalhar numa área que, para muitos, “não interessa nem ao Menino Jesus”, mas que há pouco mais de 10 anos até me fez merecera atribuição de um “voto de louvor” pela autarquia que o Senhor Paulo Vicente desde há menos de 1 ano preside. Uma área que, desculpe-me o parêntesis de âmbito pessoal, me levou a trabalhar, de forma contínua ou temporária em países como Moçambique, Angola, Serra Leoa ou Argélia, tudo sítios de onde guardo imagens e vivências que poderiam fazer desacreditar até ao mais crente deste mundo e que estão incomparavelmente em pior situação que a Marinha Grande.

Por outro lado, 16 anos para lhe escrever, devido a um certo, deixe-me chamar-lhe... pudor. Pudor, para não me sentir ridículo ao expor a si um assunto aparentemente irrelevante, quando comparado com tantos outros que preocupam a imensa maioria dos munícipes e da sociedade em geral. Num mundo, onde escasseia o Humanismo (sou optimista, mas não sou cego), onde muitos ditos seres humanos só se preocupam em querer aniquilar, decapitar, violar, traficar, escravizar, humilhar e expulsar a outros tantos. Num mundo onde muitos se preocupam mais por “andar aos gambozinos”, desculpe, “caçar pokemons”, que por cuidar de animais reais, do meio-ambiente, já para não falar das pessoas, dos mais velhos, dos seus próprios filhos, ou dos mais necessitados e que vivem na porta ao lado. Pudor, repito e reconheço, transformado em conformismo, porque a autarquia e muitos munícipes terão assuntos bem mais prementes do que este.

No entanto, passaram mesmo 16 anos desde que uma minúscula parte deste concelho passou a ser também a minha casa. A casa aonde sempre desejo voltar e que guardo na memória com todos os meus sentidos e forças, mas que se situa num lugar que, não só não progrediu, como ficou absolutamente paralisado e abandonado pelos responsáveis municipais e/ou públicos. Talvez esteja a ser injusto ou simplesmente mal-informado, mas falo do que vejo com os meus próprios olhos, cada vez que regresso.

Este lugar chama-se Água de Madeiros (nalgumas fontes vem mencionado como Praia da Pedra Lisa) e deve ser uma das poucas praias deste país que está dividida por dois municípios. Não, não vou perder o meu tempo a tentar confirmar se será a única. Como sabe, as ligações a Água de Madeiros fazem-se pela estrada que vem da Nazaré, via Pataias e Pedra do Ouro, por São Pedro de Moel e pela estrada do Tremelgo.

O lado norte do vale, por onde passa o pequeno ribeiro que vai dar a um “recanto de areia em forma de concha e abrigado do vento”, pertence, e aqui a dúvida, ao Concelho da Marinha Grande. Ou seja, se assim é, trata-se da praia mais meridional deste concelho e que comunica através de um extenso areal, passando pela praia das Valeiras, com a praia de São Pedro de Moel. Quantos de nós não fizemos já esse percurso a pé?

Vários factores me levam a pensar que este lado norte, onde se situa a minha casa, ainda pertence ao Conselho da Marinha Grande. A parte sul do vale, aí não há qualquer dúvida, pertence ao Concelho de Alcobaça, cujos serviços municipais se fazem presentes com regularidade e com obra feita.

-   a rua que dá acesso ao vale tem à entrada uma placa toponímica com a indicação “Rua da Ribeira (antiga Rua do Vale)”. Uma placa, refira-se, colocada pelos serviços da CMMG.
2  -    de vez em quando, avistamos uma viatura pertencente à autarquia. Desconheço o motivo dessas rápidas visitas, mas não me cabe a menor dúvida de que serão por razões de serviço.
3   -    o código postal, para efeitos de recepção de correio, pertence à Freguesia da Marinha Grande.
4  -    (e não menos importante): os residentes, seja como residência permanente ou como segunda residência, pagam – falo pelos que conheço pessoalmente – impostos/taxas ao Município da Marinha Grande.

Ora, vendo o abandono a que fomos/foram sujeitos (do qual desconheço as razões objetivas), só me resta, em nome dos que somos residentes; dos que, mesmo não sendo residentes, aí temos um lugar de referência vital; de todos aqueles – sobretudo famílias com filhos pequenos, como é o meu caso, mas também muitos pescadores, alguns (cada vez menos) turistas, e um longo “et cetera” – que insistimos, sem ser por teimosia, mas por amor e perseverança, em frequentar a praia de Água de Madeiros, porque é a nossa praia de sempre e porque dela guardamos vivências de infância (e até o cheiro intenso da maresia, dos pinheiros, da hortelã, dos canaviais ou das flores do vale); convidar o Senhor Presidente e a sua equipa de Vereadores a percorrer essa estrada esburacada e estreita que conduz até lá. E, logo, atrever-se a descer por esse acesso (usando um eufemismo), que se encontra totalmente destruído e com restos de cimento e que é motivo de frequentes quedas, às vezes com consequências graves e onde os idosos nem se atrevem a descer.

Os impostos/taxas que os residentes pagam à Autarquia mereciam, pelo menos, um acesso digno à praia, de madeira se possível, dentro daquilo que foi feito noutros locais da costa, já que este não serve apenas os residentes, que são apenas uma pequena minoria dos que a frequentam. Uma praia que até já serviu de alternativa a um elevado número de veraneantes aquando das obras na praia de S. Pedro de Moel (colocação de pedra). Sem esquecer que muitos grupos de crianças de tempos livres ou jardins de infância escolhem esta mesma praia pela existência de um pequeno riacho na praia com nascente no vale.

Poder-lhe-ia pedir também que intercedesse para conseguir uma área de estacionamento condigna, uma melhoria séria e responsável da rua ou um espaço com uma edificação de madeira que pudesse servir para uma futura concessão de bar/restaurante. Mas, neste momento, parece-me que o mais urgente é mesmo que se atreva a descer até ao areal (aproveite agora que é Verão e que tem gente, provavelmente munícipes, para comprovar que não são simples teimosos) e que se dê conta daquilo a que estão sujeitas as famílias com crianças pequenas e os idosos, até hoje sujeitos dos mesmos direitos que todos os outros cidadãos / munícipes que têm a “sorte” ou o “azar” de preferir outras praias, bem mais privilegiadas e atendidas.

A pergunta impõe-se: destes 18.724,45 hectares que conformam a área do Município da Marinha Grande, será que desapareceu dos vossos mapas e planos uma pequena parte que se chama Água de Madeiros? Por favor, visite-a e tome as suas próprias conclusões. Asseguro-lhe que, sendo ou não “marinhenses de gema”, não nos importaria nada que este lugar passasse a pertencer na sua totalidade ao Concelho de Alcobaça, se assim deixássemos de estar esquecidos.



* Consultor na ONGD Medicus Mundi Mediterrània (Barcelona) / Doutorando no Instituto Hegoa (Bilbao)